Desde 2002, é comemorado no dia 16 de abril o Dia Mundial da Voz. O AcontecendoAqui, sabendo da importância desse instrumento para o comunicador, traz ao leitor uma entrevista que o Portal Comunique-se realizou com uma das maiores especialistas em voz do Brasil, a fonoaudióloga doutora Vanessa Pedrosa. Nela, a fonoaudióloga fala dos cuidados que devemos ter para mantermos nossas cordas vocais sadias. Lembrando que as cordas vocais são músculos, e como qualquer outro do corpo, antes de usá-los devemos sempre aquecê-los e ter certos cuidados.
Confira abaixo, na íntegra, a matéria a respeito:
PhD, vice-coordenadora do Comitê de Voz Profissional da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e diretora da Fonoevidence Consultoria e Assessoria em FGA. Com um currículo desses, a doutora Vanessa Pedrosa é considerada uma das maiores especialistas em voz do Brasil. Com carreira consolidada no apoio a profissionais da mídia e atualmente com a responsabilidade de cuidar dos talentos dos canais Fox Sports, ela conta alguns momentos marcantes e curiosos de seu trabalho, casos das vezes em que teve de “salvar” locutores esportivos que estavam sem fala.
À reportagem do Portal Comunique-se, em entrevista referente ao Dia Mundial da Voz, comemorado nesta quinta-feira, 16, a fonoaudióloga aproveita para dar dicas de como manter as cordas vocais sadias e explica quais os processos realizados no apoio aos comunicadores. Ela destaca que exercícios para deixar a voz em bom estado é similar à preparação de um atleta que visa disputar uma maratona, por exemplo. “A voz é produzida por músculos e o princípio é o mesmo do aquecimento dos músculos para uma corrida”, enfatiza Vanessa ao avisar que o aquecimento vocal dura, em média, de cinco a 10 minutos, o que pode mudar dependendo da demanda do narrador.
Além de abordar a sua relação com o trabalho de quem leva emoção a torcedores por meio das transmissões esportivas, a doutora avisa: é possível definir a personalidade de alguém devido ao seu tom de voz e ritmo de falar. “A voz e a fala transmitem informações importantes sobre a história de vida do falante, sua educação, condição sociocultural e estado emocional. Um exemplo disso é a nossa avaliação automática do estado emocional de alguém que nem sequer conhecemos ao trocarmos poucas palavras ao telefone”, comenta a fonoaudióloga. “É sempre importante que as pessoas se atentem para a forma como se comunicam para que possam aprimorar essas características”.
Confira a entrevista completa com a especialista em voz Vanessa Pedrosa:
EXERCITANDO A VOZ
Há exercícios rápidos que poderiam ser feitos por todos para manter a voz em excelente nível? Quais?
Não existe uma fórmula mágica. Cada exercício recomendado por um fonoaudiólogo segue um raciocínio relativo à sua avaliação prévia e os objetivos que o indivíduo deseja alcançar em relação a sua comunicação.
Uma sequência de exercícios de aquecimento deve seguir o raciocínio de movimentar e limpar a mucosa da prega vocal, trabalhar a projeção da voz, exercitar a musculatura responsável pelos sons graves e agudos e auxiliar na movimentação da musculatura da fala. A questão é que esses exercícios precisam ser feitos sem esforço em posição adequada e precisam ser inicialmente monitorados para garantir que estejam sendo feitos de maneira correta. Não existe uma fórmula mágica e sim uma série de atividades que promovem o autoconhecimento vocal e um melhor uso.
Quanto tempo em média dura o aquecimento de voz de um narrador de futebol, por exemplo?
Um aquecimento dura de cinco a 10 minutos. A demanda vocal da competição e a necessidade do narrador ou comentarista definirá o tempo de aquecimento. O aquecimento prepara voz e a atenção do comunicador para o desempenho daquele momento. Quando aquecemos a voz estamos preparando a musculatura responsável pela produção vocal para desempenhar uma atividade intensa.
A voz é produzida por músculos e o princípio é o mesmo do aquecimento dos músculos para uma corrida, por exemplo. Como o profissional precisa ficar atento para fazer os exercícios, ele começa a se concentrar na tarefa de narração, que exige intensa atenção e agilidade mental. O aquecimento faz com que ele se desligue dos estímulos de sua rotina, do estresse do trânsito que pegou até chegar ao trabalho e até de uma dificuldade que teve antes de entrar para a cabine de transmissão.
Existem exercícios de voz que devem ser feitos diariamente pelos comunicadores?
Muitos profissionais precisam de cuidados frequentes com a voz e por isso devem fazer exercícios que são diferentes do aquecimento vocal. São os exercícios de tratamento ou que servem para mudar um comportamento vocal. Um profissional da voz que a usa muito e desenvolve uma rouquidão causada pelo excesso ou mau uso precisará fazer exercícios várias vezes por dia para tratar a rouquidão. Quando ele apresenta um comportamento vocal inadequado como falar com tensão, os exercícios o auxiliarão a perceber como falar sem aquele esforço.
Até o nível de emoção passada por uma equipe esportiva é exercitada?
Já fiz a preparação da dinâmica de comunicação entre o narrador e o comentarista. Cuidar da comunicação de um profissional da voz exige muitos cuidados e atenção. Em seguida, definimos como seria a interpretação de voz e fala. Pensar na quantidade de emoção colocada na narração também é importante porque pode agradar ou não o público. Depois de todos esses cuidados, ver o resultado pronto no vídeo é gratificante.
Os profissionais da voz que fazem narração e comentários em competições esportivas sabem o quanto trabalhar sua comunicação é importante para ter longevidade profissional e isso faz com que a parceria fonoaudiólogo-narrador/comentarista seja muito importante.
A “SALVA-VOZES”
Quais os problemas mais frequentes que os profissionais que trabalham com locução enfrentam?
Os problemas mais frequentes com a voz estão relacionados a rouquidões causadas por faringites e laringites. Essas doenças são muito comuns no outono e inverno. Elas podem ser causadas por vírus ou bactérias que desenvolvem inchaço e vermelhidão na região da garganta. A voz pode sumir nesse período. Nesses casos, o profissional poderá ficar afastado dos microfones, ser medicado por um otorrinolaringologista e fazer exercícios de voz que auxiliem a recuperação. Caso ele precise trabalhar mesmo assim, são feitas diversas estratégias para ajudá-lo com a voz.
Outros problemas estão relacionados ao mau uso vocal. Falar em volume alto por longos períodos pode provocar cansaço e rouquidão. Não coordenar a fala com a respiração também causa cansaço vocal. Falar com esforço muscular pode causar dor, cansaço e rouquidão. Esses problemas são frequentes e precisam ser corrigidos a tempo para evitar que se torne crônico e cause o afastamento do trabalho ou prejudique seu desempenho.
E a qualidade da voz vai além de possivelmente ser afastado do serviço…
A qualidade vocal está intimamente relacionada com a qualidade de vida porque prejudica uma função básica do ser humano que é a comunicação. Dificuldade de se comunicar pode levar até a depressão e é bem comum. Os maiores prejuízos de uma voz cansada e rouca são a dificuldade de modular a voz adequadamente para transmitir a emoção que o evento exige e para narrar competições longas, apresentando falhas na voz. Quando uma voz falha ao microfone, prejudica a compreensão do telespectador.
Dia de jogo e o narrador escalado para a partida chega à redação sem voz. Como você faz para reverter a situação em questão de horas? É possível “salvar” o locutor?
Sim, é possível. Isso já aconteceu diversas vezes. O tratamento escolhido dependerá do problema apresentado. Normalmente, o trabalho é feito em conjunto com um otorrinolaringologista. O narrador será medicado corretamente, ele poderá fazer inalação para ajudar a melhorar a hidratação laríngea e diminuir o atrito entre as pregas vocais e fazer exercícios que ajudam a desinchar e regularizar a vibração das pregas vocais. Quanto mais regular é a vibração, melhor é a qualidade vocal.
Sabemos que esse locutor não terá o mesmo desempenho que apresentaria em dias normais, mas, em muitos casos, ele poderá narrar apresentando prejuízos leves ou moderados na qualidade vocal. Sabemos que ao final da transmissão a voz dele estará muito pior do que no começo e que precisará de mais cuidados intensivos com medicamentos, repouso vocal e exercícios. É um risco que muitas vezes assumimos correr porque pode não ser possível substituí-lo naquele momento.
Como fonoaudióloga com atuação direta com profissionais que têm a voz como instrumento de trabalho, qual a situação mais inusitada que você já presenciou?
Ah, são tantas histórias. Já tive que ficar ao lado de um narrador durante toda a transmissão porque ele estava rouco. O comentarista fazia suas observações e eu fazia exercícios vocais com o narrador para garantir que ele tivesse voz até o final da transmissão.
Acompanhei o preparo de comunicação de diversos profissionais para Olimpíadas, Copa do Mundo e outros eventos esportivos importantes. O trabalho exigiu conhecer as condições climáticas do lugar onde seria a competição, a alimentação que eles teriam por lá, a quantidade de competições narradas por dia, os deslocamentos entre os estádios, a posição em que ficariam dentro da cabine de locução, o tipo de microfone… Ou seja, conhecer toda a rotina do narrador para antecipar possíveis problemas com a voz e com a sua narração.
PERSONALIDADE DEFINIDA PELA VOZ
Há estudos que traçam perfis por meio de textos e linguagem corporal. É possível definir a personalidade de alguém devido ao seu tom de voz e ritmo de falar?
É possível, sim. A voz e a fala transmitem informações importantes sobre a história de vida do falante, sua educação, condição sociocultural e estado emocional. Um exemplo disso é a nossa avaliação automática do estado emocional de alguém que nem sequer conhecemos ao trocarmos poucas palavras ao telefone. É possível perceber se a pessoa está cansada, doente, animada ou não após trocar poucas palavras, prestando atenção apenas na forma de falar e no tom de voz da outra pessoa.
Essa percepção tão automática da comunicação do falante é feita por meio do tom de voz, da velocidade de fala, do tom e volume de finalização das frases, precisão da dicção, entre outras características. Pessoas muito ansiosas podem apresentar uma velocidade de fala rápida, com inspirações ruidosas e pausas muito curtas. Uma dicção muito imprecisa com pouco movimento dos lábios para falar pode demonstrar pouca vontade de se comunicar ou confusão mental.
A voz muito aguda em uma mulher adulta pode mostrar insegurança e imaturidade. Uma voz muito rouca pode transmitir a percepção de falta de cuidado com a imagem do falante. Pessoas que modulam pouco a voz quando falam podem transmitir a ideia de rigidez de personalidade. É sempre importante que as pessoas se atentem para a forma como se comunicam para que possam aprimorar essas características da comunicação e sua imagem como falante.
