“Em busca do Prefeito 2.0” – Por Emilio Cerri
14 de Setembro de 2012

“Em busca do Prefeito 2.0” – Por Emilio Cerri

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“A resposta das cidades à estagnação resultante da derrocada da sociedade industrial frente à sociedade do conhecimento por intermédio da produção artística e do reforço do seu tecido cultural, através do apoio aos artistas e às infraestruturas que suportam a sua atividade, desenvolveu-se ancorada num ponto fundamental: o desenvolvimento das indústrias criativas, compreendendo aquelas que têm sua origem na criatividade, talento e capacidade individual e que têm potencial de criação de riqueza e emprego através da exploração da propriedade intelectual. Estas indústrias criativas compreendem a publicidade, a arquitetura, as artes, design, moda, televisão, rádio, filme e vídeo, música, artes performáticas, mídias digitais interativas e desenvolvimento de software.

É precisamente sob o signo da criatividade que se construirá a resposta das cidades. Esta  resposta coloca em primeiro lugar a reflexão acerca das condições necessárias para as  pessoas pensarem, planejarem e agirem com imaginação na procura de oportunidades ou  respondendo a problemas urbanos aparentemente insanáveis.

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A criatividade neste contexto é aplicada à imaginação utilizando qualidades como a  inteligência, a invenção e aprendizagem ao longo da vida. Na cidade criativa não são só os  artistas e aqueles que estão envolvidos na economia criativa que são criativos. A criatividade pode vir de qualquer fonte, abrangendo, portanto, todos aqueles que respondem a um problema de uma forma inventiva, seja um assistente social, um executivo, um cientista ou um funcionário público. No entanto, a criatividade é legitimada pelas artes e a organização da criatividade artística tem qualidades específicas que se coadunam.

Definida por G. Ritzer de acordo com o processo industrial de produção da cultura baseada na  eficiência, cálculo e predictabilidade, apresentação e distribuição dos bens culturais, orientada para a venda a todos os setores da população e para um novo tipo de consumo similar ao fast food com as ideias chave da economia criativa. A cidade criativa necessita perceber as ferramentas da competitividade urbana, tais como a capacidade das suas redes, a sua riqueza e profundidade cultural, a qualidade da sua administração, a consciência do design e a compreensão de como utilizar o seu conhecimento simbólico e perceptivo e consciência ambiental.

O estudo das condições da cidade criativa rapidamente deu origem à análise de uma economia criativa e, mais tarde, avançou para o estudo de Richard Florida sobre uma nova classe criativa emergente das reconfigurações culturais da segunda metade do século 20. Segundo o autor, nunca a criatividade foi tão vital para a economia e desenvolvimento das nossas sociedades. Uma vez mais, a sociedade de informação e do conhecimento desenvolve-se pari passu com a valorização da criatividade como fator chave de sucesso e competitividade. Este atributo para criar formas significantes – assim se define criatividade – requer um ambiente que a estimule e que potencie uma ampla gama de estímulos sociais, culturais e econômicos, estando, por isso, associada à ascensão de novos ambientes de trabalho, novos estilos de vida, organizações e espaços que conduzam ao trabalho criativo.

Para Florida, a criatividade é a capacidade de percorrer dados, percepções e materiais e  produzir combinações que são novas e úteis, implica a autoconfiança e a capacidade de  correr riscos, sendo em si, subversiva ao interromper os padrões existentes de pensamento e  de vida. A criatividade floresce num tipo único de ambiente social, ou seja, aquele que é  suficientemente estável para permitir um esforço continuado e que seja simultaneamente  diversificado, cosmopolita e aberto para alimentar todas as suas formas subversivas. No fundo, conclui Florida, a estrutura social da criatividade é um meio de suporte que está aberto a todas as formas de criatividade: artística e cultural, mas também tecnológica (a invenção) e econômica (o empreendedorismo).

Na sua comparação entre cidades e regiões criativas, Florida recorre a índices como a tecnologia (relação entre a alta tecnologia nacional e a percentagem regional de rendimento  proveniente das altas tecnologias), a inovação (número de patentes per capita), o talento,  o índice Gay (medida de sobre ou sub-representação de homossexuais relativamente à nação como um todo), e o índice boêmio (número de profissionais, como autores, designers, músicos, compositores, atores, realizadores, pintores, escultores, artistas gráficos, bailarinos, artistas e performers) e o índice Melting Pot (percentagem relativa de imigrantes na região). E conclui que o desenvolvimento econômico ocorre em cidades que dispõem de um meio cultural criativo. Este estudo leva-o a determinar os três ‘Ts’ do crescimento econômico: a tecnologia, o talento e a tolerância (a abertura para com a diversidade e a atitude favorável à inclusão). Serão estes os contextos sociais com maior capacidade para atrair os membros desta nova classe criativa e, por consequência, os meios com maior competitividade econômica.

Esta teoria assenta-se não apenas na estratégia da clusterização econômica das cidades e no capital humano, mas também e, fundamentalmente, no capital criativo, estabelecendo que as pessoas criativas são o motor de força do desenvolvimento  econômico.

Estas pessoas constituem, então, uma nova classe na qual a identidade se traça precisamente  no culto do estilo individual, entendido como expressão da criatividade, na procura de um  estilo de vida experimental que favorece a individualidade, a autoafirmação, aceitação da  diferença e o desejo de experiências multidimensionais e, por fim, um trabalho informal tanto  no código de vestuário como no horário, privilegiando profissões em que a separação entre  horas de lazer e trabalho se tornam difusas e nas quais a segurança de um posto de trabalho  decorre da sua autonomia. Em suma, são estes os valores que constituem uma ética criativa.

Nas palavras de Florida: ‘Onde antes as pessoas se encontravam ligadas pelas instituições  sociais e formavam as suas identidades em grupos, uma característica fundamental do quotidiano hoje é que ansiamos por criar as nossas próprias identidades. É nesta criação e  recriação do Eu, muitas vezes de formas que refletem a nossa criatividade, que se encontra  o traço fundamental da ética criativa.’

O traço fundamental da ética criativa é, então, essa definição e redefinição constante das identidades individuais. O que esta classe criativa procura, portanto, não é constituído pelas atrações físicas em que muitas cidades apostam – estádios, autoestradas, centros comerciais e espaços turísticos que parecem um parque temático; o que elas procuram nas comunidades são experiências abundantes de alta qualidade, uma abertura a todos os tipos de diversidade e acima de tudo a oportunidade de validar as suas identidades enquanto pessoas criativas .

Como criar então as condições para o aparecimento destes centros criativos por onde hoje  passa também o crescimento e desenvolvimento econômico? Sob que novas perspectivas devemos repensar as políticas culturais, para que sejam políticas integradas no quadro mais amplo da economia da criatividade?

Quando a resposta do crescimento econômico se equacionava apenas no prisma da clusterização das atividades econômicas, a resposta parecia reduzir-se aos benefícios e vantagens fiscais para a fixação de empresas. Mas quando o sucesso destas depende da criatividade do meio e das pessoas que neles habitam, onde a profundidade do tecido cultural desempenha um papel  fundamental, saber como desenvolver políticas que fomentem e fortaleçam esse mesmo tecido  cultural torna-se uma questão fundamental  que aguarda uma resposta urgente. Principalmente quando avaliamos os efeitos da globalização e da circulação internacional dos bens culturais sobre as práticas culturais dos municípios de pequena e média dimensão. O desenvolvimento da cultura global conduz a um triunfo de uma “cultura de entretenimento” que desintegra a cultura urbana e cede o lugar a uma rede global de centros de entretenimento.

Nas palavras de Richard Münch: ‘o desenvolvimento de um sistema global de centros de entretenimento interconectados empurra cidades e municípios – que antes providenciavam o  contexto para o desenvolvimento cultural – para o papel de dormitórios da comunidade que só  conseguem existir pela sua conexão com este sistema de centros. Enquanto algumas metrópoles, dado o seu conteúdo interno variado, conseguem sobreviver neste sistema como junção próxima destes centros de entretenimento, a maior parte das cidades e municipalidades, que antes evoluíam de acordo com o desenvolvimento cultural que estimularam, assistem à desintegração da sua cultura à medida que estes grandes centros atraem as pessoas, roubando-as.’

O cenário pessimista de Münch adquire ainda um traço mais negro quando visto à luz de uma  ‘mcdonaldização’ cultural potenciada pela cultura global em que tudo está simultaneamente em qualquer lugar, vaticina a perda do caráter individual e original das cidades, uma vez  que até nem as tradições locais escapam ao processo de ‘eventualização’, no sentido em que  se tornam mais um evento entre os outros, ou em estratégias de diferenciação para abertura  de um nicho no mercado global dos bens culturais.

Os desafios colocam-se hoje na definição das políticas culturais, em primeiro lugar, ao nível da sua conceitualização, tornando-as uma das áreas mais complexas dos governos modernos, uma espécie de ato de equilíbrio, não tanto entre prioridades concorrentes, tal como acontece noutras áreas da política, mas entre visões concorrentes do papel da cultura na sociedade. Este balancing act em nível conceitual, vai desde uma visão mais estreita da cultura como o conjunto das artes até à cultura como modo de vida, da democracia cultural até à democratização da cultura e da cultura como qualidade de vida até à cultura como desenvolvimento.

Outros dilemas se colocam ao nível do desenvolvimento social, dos quais destacam-se os polos  da comunidade ou comunidades, a diversidade cultural ou monocultura e, finalmente, a preservação do patrimônio ou o dever de inovar. A acrescentar aos dilemas conceituais, Matarasso e Landry identificam os que decorrem das etapas específicas no planejamento das políticas culturais como a implementação e a gestão efetiva da cultura, aliada à avaliação do desenvolvimento econômico. Será no posicionamento em relação a estes extremos que poderemos perceber as linhas estratégicas das políticas culturais. Obviamente que estes polos não são estanques entre si, mas será do posicionamento relativo a cada um que dependem as escolhas estratégicas da política cultural.

Parece evidente concluir que no panorama atual da rede de produção e circulação dos bens  culturais no contexto de uma economia da criatividade, o desafio que se coloca às cidades de pequena e média dimensão, se joga precisamente nos polos da conceitualização das políticas culturais. O debate deverá então passar das ações estratégicas possíveis para um setor cultural e artístico específico, para abraçar as problemáticas inerentes à cultura como fator de desenvolvimento econômico e evoluir para a discussão em torno da vitalidade cultural de uma cidade.

Vitalidade é precisamente a qualidade do que é vital, fundamental e essencial, porque no  fundo é essa qualidade que permitirá valorizar e distinguir a cidade no competitivo mapa nacional e internacional, preparando-a simultaneamente para essa nova economia da  criatividade.

Em conclusão: a existência de um ambiente favorável à criatividade integra as condições que  definem a especificidade de um local e constitui uma das suas vantagens competitivas no  mundo global. Os estudos de caso já disponíveis não só demonstram o impacto na economia  urbana da atividade das chamadas indústrias criativas, como apontam no sentido de a  disponibilidade de profissões ligadas à produção e gestão artística e cultural ser um fator  de densificação das relações sociais, e promotor de um ambiente favorável à inovação.

Numa economia cada vez mais baseada no conhecimento, este fator merece toda a atenção. A presença das indústrias criativas define um ambiente de abertura e de estímulo, atrativo para outras atividades intensivas em conhecimento e exigentes em termos de qualidade de vida.”

Infelizmente, em Florianópolis, os programas de gestão dos candidatos à prefeitura permanecem apenas na superfície da economia criativa. Faltam propostas profundas e consistentes para ações que estimulem o empreendedorismo e atraiam talentos e  investimentos para novos setores produtivos alinhados com as múltiplas vocações da cidade que, obviamente, não são apenas o turismo e a tecnologia. Mas, para isso, precisamos de um prefeito 2.0.

 

(Este texto foi originalmente publicado por Emilio Cerri, editor do blog ComGurus, em agosto de 2008, baseado em um estudo da Dra. Luísa Albuquerque, da Escola Superior de Educação de Leiria)

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