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Ecologia e comunicação
13 de Outubro de 2011

Ecologia e comunicação

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O distintivo do humano, o que lhe permitiu desenvolver a cultura e construir todo um império de saberes próprios e invenções, reside na linguagem. A capacidade de reflexão, consciência e inteligência, potencializada pela comunicação, habilitou o homem para uma segunda natureza em que reina soberano.

As mais recentes teorias do conhecimento, como a do pensamento sistêmico de Maturana e Varela, analisam a origem dessa habilidade. Tais conjecturas, que têm por base intensas pesquisas no campo da biologia cognitiva, levam a crer que a linguagem surge nos seres humanos em decorrência de suas práticas interativas e colaborativas reiteradas, desenvolvidas em pequenos núcleos de formação familiar. Manifestações de interesse e cuidado, trocas afetivas no trato da alimentação e na sexualidade, revelam-se fenômenos sociais que propiciaram a formação da linguagem.
 
A capacidade humana de formular, por meio da linguagem, aquilo que diz respeito à sua experiência interativa e perceptiva, é única e distintiva entre os seres vivos. A linguagem, que é concebida num processo coletivo e que se potencializa pela criatividade e as multiplicidades de interações possíveis a todo tempo, é o liame que possibilita o processo cultural. Nesse contexto, cada um participa como um ser inteiro, e com a sua composição estrutural interage e partilha sensações e impressões com os demais pela linguagem.
 
A cooperação e coordenação comportamental seriam, portanto, essenciais para a linguagem tornar-se possível. De acordo com Maturana, “é dentro do linguajar mesmo que o ato de conhecer, na coordenação comportamental que é a linguagem, produz um mundo”. Realizamo-nos no acoplamento linguístico porque somos na linguagem, “num contínuo existir nos mundos lingüísticos e semânticos que produzimos com os outros”. 
 
A capacidade de individualização e constituição da identidade, bem como a reflexividade, habilidade para a reflexão sobre si mesmo, e a consciência de si, são resultantes desses fenômenos sociais na dinâmica permanente de interação, na linguagem. O que a biologia do conhecer, retratada por Maturana, nos apresenta provoca um reposicionamento do processo comunicativo no seio da comunidade humana. 
 
Por que nos interessa essa nova abordagem da comunicação? A compreensão da comunicação como um processo interativo que se realiza numa interdependência tem efeitos diretamente relacionados com a ética e com os fenômenos sociais. Quando reconhecemos nas origens da capacidade intelectiva do ser humano gestos e práticas interativas e recursivas de cuidado e afeto, não podemos deixar de perceber nesse modelo comunicativo uma forma ecológica de interação.
 
Os primórdios da comunicação demonstram a necessidade de reconhecer no outro um interlocutor necessário, distinto, a quem se deve respeitar e valorizar, pois a construção da realidade se perfaz a partir dessa interação sem desníveis. Enfim, somos todos irmanados nesse processo de construção conjunta dos sentidos, não há uma única e definitiva verdade a ser comunicada. O componente físico-corpóreo do interlocutor está inserido na comunicação, e é por meio dessa sua formação estrutural que ele vai interagir e reagir comunitariamente.
 
É importante resgatar essas características do ato comunicativo, especialmente naquilo que concerne a restabelecer a sintonia e permitir o livre fluxo dos sentidos significativos entre os interlocutores. A ética ecológica, assim como o fenômeno comunicativo original, requer uma postura de respeito e interesse pelo outro, como um princípio que solidariza e compromete para com a vida.
 

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