Tecnologia e cinema andam juntos desde o cinematógrafo dos irmãos Lumière, mas em poucos momentos da sua história a Sétima Arte sofreu transformações profundas em toda sua cadeia produtiva. Da construção de um roteiro ao consumo do produto cultural cinema, todos os aspectos da indústria foram transformados pelas inovações dos últimos anos e todos os atores dessa história foram impactados.
Como consumidores, assistimos ao surgimento de novos formatos, e novas ferramentas de distribuição; temos novos aparelhos para consumo de mídia e conteúdo (smartphones, tablets, smartwatches). Estamos nos acostumando a consumir cinema através de outras formas de distribuição (TV Digital sob demanda, Netflix, torrents) sempre individualmente ou em pequenos grupos, uma experiência muito diferente da sala de cinema: se antes comentávamos o filme com o amigo, ou mesmo estranho, após a sessão, hoje reagimos instaneamente, para o mundo todo, durante a exibição.
Do lado da indústria, os novos distribuidores (e formatos) trazem novos modelos de negócio. O que sempre foi um negócio com pouco espaço para o erro (a web está cheia de histórias sobre a luta que George Lucas travou com a Fox para conseguir tirar do papel o primeiro filme da saga Star Wars, por exemplo), de repente permite experimentações para as quais os tradicionais donos da bola não estavam preparados.
Mas vamos por partes.
No último semestre, o Netflix ganhou quase 600 mil assinantes novos só nos EUA. No mundo, 1 milhão de pessoas assinaram o serviço para assistir aos seus filmes e séries preferidos na hora em que quisessem. Para ter uma ideia do que representam esses números, compare-os com o 1,3 bilhão de ingressos de cinema vendidos no mundo todo durante todo o ano de 2013.
O dinheiro injetado no Netflix (e em outros serviços como os de TV sob Demanda), está dando um novo sentido para o chamado “cinema independente”, aquelas produções que não conseguiam financiamento nos grandes estúdios. Cinema é (ou costumava ser) um negócio muito dispendioso, com pouca margem para erro. Graças aos serviços sob demanda, não só os independentes encontram um playground para suas ideias fora da caixa, como encontraram modelos de negócio que não exigiam grandes somas de dinheiro para, por exemplo, divulgar, vender e exibir seus filmes. A divulgação é feita pelo próprio canal, aos consumidores que assinam o serviço. A exibição é feita em uma das inúmeras telas que o consumidor tem em casa. Custo zero para o produtor.
Tudo isso parece ótimo. Mas existe um outro jeito de interpretar essas mudanças.
O cineasta Christopher Nolan – da Trilogia Cavaleiro das Trevas – tem sérias críticas ao tratamento dado ao cinema (no sentido de arte e no sentido de espaço de compartilhamento) pelos novos players.
Para Nolan:
“Com o streaming de dados, os filmes tendem a ser jogados com outras atividades sob o termo reducionista de “conteúdo”, um jargão que finge elevar o criativo, mas que na verdade banaliza as diferenças de formatos que têm sido importantes para criadores e público. Conteúdo pode ser portado em telefones, relógios, bombas de gasolina ou qualquer outra tela, e a ideia seria reconhecer que os cinemas são apenas outra plataforma como essas, embora com telas maiores e portacopos”.
A história não acaba aí.
Pense na quantidade de sites especializados em cinema surgidos nos últimos 10 ou 15 anos. Adicione o empoderamento de cinéfilos em todo o mundo que, através desses sites (mais redes sociais) puderam demonstrar sua aprovação ou desaprovação às produções antes mesmo delas chegarem às telas, ainda na fase da escolha dos roteiristas. Pense na cultura dos spoilers, que mudou radicalmente nossa forma de ver a história (antes, queríamos saber o mínimo possível sobre um filme. Hoje, quanto mais sabemos, melhor) e as batalhas travadas nas redes sobre, por exemplo, o elenco de atores escolhidos para um determinado filme.
Mas isso tudo, é assunto para um outro papo 😉


