1. 45 anos. Virgem.
“Tenho um pacto com minha namorada. Só interromperemos nossa virgindade, depois que nos casarmos.”
Levava muito a sério a promessa. Que ambos renovavam a cada e-mail, a cada MSN, a cada telefonema.
Há alguns anos deixara sua Minas Gerais, entrou ilegalmente nos Estados Unidos, especializou-se em marcenaria e tratou de ganhar e economizar o máximo de dinheiro.
“Quando voltar comprarei uma fazenda, construirei um bela casa, montarei uma marcenaria e viverei para sempre feliz com minha adorada esposa.”
Então chegou a hora de voltar.
“Não disse nada pra ela. Quero lhe fazer uma baita surpresa.”
Comprou um belo par de alianças e embarcou.
Chegou e ficou em Minas, quase incógnito, e fez uma caixa de madeira. No dia do aniversário da amada entrou na caixa, mandou que um amigo a fechasse, embrulhasse em um belo papel para presente, escrevesse o nome dela e entregasse onde ela morava.
Dito e feito.
A caixa chegou, ele a ouviu falando, surpresa, pra alguém:
“Olha que belo presente de aniversário. Foi você¿”
A espinha gelou, quando ouviu a voz masculina seguida de uma gargalhada:
“Eu não!”
“Deve ser o irmão dela”, pensou.
Rapidinho ela rompeu o papel que embalava a caixa e tirou a tampa.
Aí, ele apareceu: as alianças em uma mão, um enorme buquê de flores na outra.
Então, viu: sua amada e um homem – o dono da voz – estavam nus. Bem na frente dele.
2. Nós estávamos conseguindo fazer a agência crescer. Tínhamos entrado em uma concorrência com duas agências médias paulistas e vencemos. Conquistamos uma conta nacional.
Em seguida, a agência comprou uma minúscula agência paulistana. Que tinha um pedacinho de uma multinacional e uma nacional que tinha tudo para se tornar, como se tornou depois, uma baita conta.
Acertamos as coisas cujo relacionamento não estava caminhando bem com a conta multinacional e passamos a trabalhar firme para fazer da outra a grande conta nacional em que acabou se transformando.
Pra isso, traçamos um plano que tinha como objetivos: preparar o nosso pessoal para novo salto, através de um programa de capacitação; garimpar e treinar novos talentos.
Aí, um dos sócios da agência, que estava afastado, reassumiu. No exato momento em que o plano começava a ser executado.
3. Primeira decisão:
“Cancele isso. A agência não está aí para jogar dinheiro fora.”
Segunda decisão:
“Esse método de conquistar a conta apenas apresentando bons trabalhos não funciona. Vamos falar com o papa.”
O “papa”, ele descobriu, era o vice-presidente.
“Ele é o cara. O presidente será demitido.”
Falou com o futuro novo papa, marcou dia e horário para apresentação do nosso trabalho.
Um belo trabalho, aliás, que nos consumiu muitas horas de sono.
4. Dia e hora marcados, estávamos lá. A diretoria da agência e a criação.
Nosso vice-presidente nos apresentou, passou a bola pra mim.
Eu me levantei e quando ia começar, a porta da sala se abriu: era o presidente, aquele que segundo nossas informações, seria demitido.
Ele nem entrou.
“O que está acontecendo aqui¿
“A nossa agência está apresentando…”
“Nós não temos agência”, interrompeu abruptamente. “A reunião está encerrada. E por favor, passe agora na minha sala.”
O vice-presidente olhou pra nós sem jeito, desculpou-se, encerrou a reunião e nos deixou com aquela cara de tacho, recolhendo o material que levamos.
Eu me senti como o virgem da história quando ele saiu da caixa.
