Bodas de ouro, final da primeira parte
17 de Agosto de 2011

Bodas de ouro, final da primeira parte

Publicidade

por Antunes Severo

Como disse semana passada, Emílio saiu e Mauro chegou. Mauro Júlio Amorim, jovem intelectual inconformado com a letargia de uma cidade que embora crescesse razoavelmente, no início da década de 1960 apenas beirava os 100 mil habitantes, mas ainda carregando a modorra das velhas tradições que teimavam em continuar. Coerente com os princípios dos autores que lia e das notícias que chegavam pelo rádio e pelos jornais do “eixo Rio-São Paulo”, Mauro sonhava com o frenesí das grandes metrópoles.

Publicidade

Na prática cotidiana cumpria suas funções de escrevente no Cartório Luz e nos momentos de lazer se dedicava ao exercício de escrever peças teatrais e artigos para os diários da cidade onde manifestava implacável senso crítico e também fazia apresentações da Associação Coral de Florianópolis, que ajudara a fundar, em setembro de 1960.

Meu faro sempre inquieto e temerário logo percebeu que ali estava um potencial talento para dourar com seu brilho o iniciante negócio da comunicação publicitária em Santa Catarina. Convite feito, convite aceito. No dia primeiro de agosto de 1965 Mauro assume o Departamento de Criação da A. S. Propague.

À época a maioria dos clientes eram varejistas. Indústria apenas uma: a fábrica de Balas Rocôco de Charles Edgar Moritz que também era proprietário das três lojas A Soberana – que pelo estoque e forma de atendimento precedeu ao que se conhece hoje como mini-mercado.

O primeiro job – digo, desafio – para o titular do departamento de Criação foi a criação da campanha para lançar o produto em Blumenau, no Vale do Itajaí. E Mauro surpreendeu pelo profissionalismo: começou recomendando que fossemos fazer um reconhecimento da região, e em particular, visitássemos a cidade de Blumenau. A argumentação me pareceu procedente e logo recorri ao Rozendo para nos autorizar as despesas de passagens e alimentação, uma vez que à noite deveríamos estar de volta a Florianópolis.

O entusiasmo era tanto que o Rozendo, um cara ponderado e muito cuidadoso com as despesas, não hesitou em antecipar a quantia necessária. No dia seguinte, às oito horas da manhã estávamos a bordo de um reluzente Mercedez Benz da Auto Viação Catarinense com a missão de fazer a primeira “pesquisa” de mercado da história da agência. O percurso de 145 quilômetros era feito por estrada de chão e o ônibus fazia paradas obrigatórias em Tijucas, Itapema, Balneário Camboriú, Penha, Gaspar e finalmente Blumenau num espaço de tempo nunca inferior a cinco horas e milhares de sacolejos.

Mesmo assim – e essa é uma característica que conservo até hoje – antes de chegar a primeira parada eu já dormia desbragadamente. E o Mauro, fui perceber depois da segunda parada, trabalhava intensamente no processo de criação. Entre Tijuquinhas e Tijucas, depois de ter me tirado do melhor sono,  ele descreveu qual deveria ser o “approach” da campanha.

Sacudiu-me e perguntou:

-“ O que Hansel e Gretel encontraram na floresta”?

Ainda meio zonzo pedi para ele repetir o que estava dizendo.

– Você se lembra daquela historinha infantil do João e Maria?

– Sim, sim, respondi atônito. Mas, eu não entendi o que você falou.

– Hansel e Gretel é a versão brasileira de João e Maria, a mais tradicional historinha infantil da Alemanha. O que foi que eles acharam na floresta?

– Ahn… uma casinha de doces, eu acho…

E o Mauro com um sorriso maroto, explica:

– Não. Uma casinha feita de balas Rocôco! E poderemos lançar um teaser em alemão: – “Was Hansel und Gretel endeckt haben im wald?” ( o que Hansel e Gretel encontraram na floresta?”

Ainda não havia televisão, mas toda a campanha foi lançada em rádio, também em alemão. A embalagem da bala, em azul e dourado, com ilustração rococó, combinava perfeitamente com o mundo mágico das historinhas infantis.

Pois bem, voltamos e no outro dia estávamos apresentando ao Pedro Rita, gerente da empresa, o plano da campanha de comunicação para lançamento das balas Rocôco no Vale do Itajaí. E então aconteceu um imprevisto notável: mais de  meses depois, era tanto o sucesso que a antiga fábrica, onde boa parte do processo era artesanal, não dava conta de produzir o que era vendido, e como a empresa não estava prevenida para o investimento necessário as balas Rocôco foram retiradas do mercado, não sem antes adoçar boa parte de toda uma geração.

O Mauro continuou conosco até 1968, pois estava decidido a enfrentar a cidade grande. Levou algum tempo escrevendo para o jornal O Estado e chegou a trabalhar na Public, a agência do Ney Ferreira, mas no início dos anos 1970 foi para São Paulo e iniciou a carreira de redator e apresentador na TV Cultura, canal 2. Dalí seguiu para o Rio de Janeiro e lá trabalhou alguns anos da TVE, canal 2, até alçar voo e chegar à BBC de Londres para fazer um curso de TV Educativa.

De sua estada em Londres, além de tudo que aprendeu na televisão, ele lembra a tarde em que chegando na emissora deu de cara com uma figura conhecida na recepção que se dirigia para a sala de espera geralmente usada pelas personalidades que iriam ser entrevistadas. Intrigado, passa pela sala e reconhece: era Ingrid Bergman, a ganhadora de três Oscar com quem conversou longamente enquanto o estúdio era preparado para a entrevista. Após vários anos, onde viveu também na França, Itália e Espanha, Mauro reside hoje novamente em Florianópolis, onde escreve o terceiro livro de crônicas, contando lembranças e vidas sonhadas e vividas.

Semana que vem a gente se reencontra neste nosso Ponto de Encontro.

Publicidade
WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter