Imagine um funcionário público de carreira, voltado para a área administrativa, exercendo funções burocráticas de tesoureiro, numa “repartição” do governo federal, que dividia seu tempo diário com atividades de radialista, jornalismo, esportista e técnico de futebol de salão. Apaixonado pelos esportes amadores – basquete, vôlei e futebol de salão – tornou-se repórter escrevendo e participando das equipes esportivas da Rádio Diário da Manhã e do jornal A Gazeta de Florianópolis.
Na emissora, foi também radioator e corretor de anúncios. Como corretor cuidava de captar patrocinadores para os programas esportivos e de variedades como os que eu produzia e apresentava. Desse convívio foi nascendo a parceria que nos tornou além de colegas e amigos, sócios tanto na A. S. Propague como na Padrão Produções Sonoras.
O Rozendo teve papel decisivo na fase de implantação tanto da agência como do estúdio de gravação. O que eu tenho de impulsivo e ansioso ele tinha de ponderação e sensatez. Por incrível que pareça, essa diferença sempre nos uniu. Porque, a rigor, nós discordávamos apenas no tempo de execução, principalmente quando se tratava de investimento ou aplicação de recursos.
Lembro das muitas vezes que ele repetiu:
– Caro, isso é importante, mas primeiro temos que ter os recursos para depois assumir os compromissos.
Nossos empreendimentos cresceram e se firmaram pela qualidade do trabalho que oferecíamos ao mercado e pela rigorosa disciplina administrativa imposta pelo Rozendo. Por volta de 1970 estávamos em sede própria e com uma equipe profissional em todos os setores de uma empresa de comunicação: administração, finanças, atendimento, planejamento, criação, arte, produção, mídia e assessoria de comunicação.
Estávamos, porém, diante de um dilema: continuar crescendo ou manter o negócio como uma atividade complementar. Nesse momento, eu estava concluindo o curso de Administração e pretendia seguir carreira acadêmica como professor universitário e o Rozendo resolvera casar com uma empresária do comércio local.
Sentamos, conversamos e acertamos encerrar a parceria no negócio com a mesma simplicidade com que o iniciáramos em 1962. O mais importante estava preservado: o nosso relacionamento de colega, amigo e sócio agora era também de irmãos.
Rozendo, como na propaganda ou mais, foi um personagem muito marcante. No livro Futsal em Traje de Gala (Edição Especial, Florianópolis, 2007), Maury Dal Grande Borges, presta homenagem a ele tratando-o de Um “caro” personagem de nossa história e lembra como Rozendo liderava nas coisas que fazia.
Rozendo quando morreu em 1992, dentre muitas homenagens que lhe foram tributadas, destaco a que foi feita pela Propague em anúncio redigido por Emílio Cerri com arte de George Alberto Peixoto. Diz o anúncio:
Caro Rozendo
Estamos com um problema por aqui. Essa sua viagem, tão antes da hora, nos pegou desprevenidos. E ficamos sem saber como melhor lembrar de você: pelo que fez ou pelo que foi?
Fazer muito e bem feito era uma de suas marcas registradas. Na velha Diário da Manhã, pelos idos de 60, você foi um radialista múltiplo, completo, dos bons. Como locutor, radioator e comentarista esportivo.
Claro, radialista que se prezava era também corretor, escrevia textos de spots e até letras de jingles. E aí você se revelou um visionário. Nos contatos com os clientes, ficaram evidentes a oportunidade e necessidade de criar-se em Florianópolis uma verdadeira agência de propaganda.
É verdade, sim, que os primeiros tempos da A. S. Propague foram dureza. Mas o sonho era bom, a causa era boa, por isso deu certo.
A gente nunca entendeu, porém, como você gerenciava o seu tempo. Porque, além do rádio e da agência, sua vida se repartia entre o serviço público na Sunab e outra grande paixão, o esporte.
Sejamos justos. Você não era propriamente um craque no basquete. (Que tal denominá-lo de jogador aplicado?) Agora, craque mesmo você era como treinador de futebol de salão. De times muitas e muitas vezes campeões.
Você fez muito. E foi mais. Um dedicado e exemplar chefe de família, um ardoroso amante desta cidade. E, principalmente, um amigo de muitos amigos. A quem você raramente chamava pelos nomes, preferindo tratá-los de “caros”. Era seu jeito de esbanjar afeto, outra das suas marcas exclusivas.
Caro, acabamos de resolver nosso problema. Vamos lembrar de você do mesmo jeito que você lembraria de nós. Não pelo nome, o Rozendo Vasconcellos Lima. Mas pelo caro, querido, carinhosamente amigo.
Homenagem dos amigos a um dos fundadores da Propague.
O anúncio foi publicado no Diário Catarinense, edição 5 de novembro de 1992
Até a próxima nesse nosso Ponto de Encontro
