
Imagem: Carlos Rocha dos Santos
por Carlos Rocha dos Santos*
O novo formato protege luz, ritmo e espetáculo, mas também escancara o desfile como ativo midiático: recortes viralizam, a transmissão dita o acontecimento e uma homenagem controversa prova o tamanho dessa engrenagem.
Há uma frase que reaparece todo fevereiro como refrão: “o carnaval é a maior festa do mundo”. Repetida assim, ela parece um elogio automático. Mas o Rio de Janeiro, especialmente nos desfiles do Grupo Especial, nos obriga a ler “maior” como dado de mídia, de mercado e de disputa simbólica.
A edição deste ano cristaliza isso ao manter um formato que altera a própria gramática do espetáculo: três noites de desfile. A medida, adotada a partir de 2025 e mantida em 2026, distribui 12 escolas em três dias, com quatro escolas por noite e início previsto às 22h, reduzindo o risco de alguma agremiação entrar na Avenida já com o céu clareando.
Só que o ponto, no fundo, é maior do que o relógio. Três noites não são apenas um ajuste de agenda. São um ajuste de linguagem. O desfile do Grupo Especial virou um produto audiovisual de alta engenharia. A Sapucaí não é só passarela, é set. É o tipo de evento que não acontece “apesar” da televisão: ele acontece também para a televisão e, por extensão, para um ecossistema inteiro que depende do sinal principal para existir.
Os recortes dominam, mas o desfile nasce no ao vivo
A gente vive a era do recorte. Quase ninguém assiste a uma madrugada inteira. Quase todo mundo assiste “o momento”: a comissão de frente em 20 segundos, o carro alegórico que surpreende, a fantasia que vira pauta, o erro que vira meme, o refrão que gruda, o close que emociona e, às vezes, o tema polêmico que atravessa a bolha e vira manchete.
Só que esses clipes não nascem do nada. Eles nascem de um acontecimento central – a transmissão – que entrega enquadramento, áudio, contexto, narrativa e legitimidade. Por isso vale dizer com clareza, sem medo de contrariar a moda do “tudo é TikTok”: os recortes repercutem nas redes, mas a transmissão existe. Mais do que existir, ela organiza o evento. Na prática, a transmissão monta, ao vivo, um primeiro roteiro do que depois será consumido em pedaços.
Aqui entra um ponto que, muitas vezes, fica escondido atrás da fantasia: o carnaval mobiliza investimentos altos (públicos e privados), mão de obra especializada e logística de cidade e, principalmente, um desenho de comunicação que poucas campanhas tradicionais conseguem reproduzir com o mesmo impacto emocional. Um desfile é, ao mesmo tempo, performance, narrativa, marca, política, memória e disputa.
O dinheiro revela o tamanho do “produto Carnaval”
Quando o mercado trata o carnaval como “projeto”, isso aparece em números, pacotes e linguagem comercial. Para 2026, a Rede Globo colocou à venda sete cotas ligadas ao “Carnaval na Globo” com valores de tabela que, segundo o Meio & Mensagem, somam R$ 170.269.559,00 (sem considerar descontos de negociação).
O pacote é um mapa do que a TV ainda representa: presença num evento ao vivo com audiência e “agenda”, capaz de gerar repercussão durante e depois. Não é coincidência que, nesse desenho, apareçam categorias centrais do consumo contemporâneo: cerveja, delivery, meios de pagamento e apostas.
Se o digital fosse suficiente por si só, a compra de presença no “ao vivo” não teria esse peso. Só que a lógica é outra: o digital multiplica, segmenta e acelera, mas o “ao vivo” ainda é a fogueira comum onde todos se reúnem para ver o que está acontecendo. Como sabemos, quem controla o “primeiro acontecimento” costuma influenciar o que vira “recorte relevante”.
A controvérsia como prova: quando um desfile vira disputa institucional
Se alguém ainda duvida da potência midiática do carnaval, basta observar o episódio que dominou o debate político desta edição: a homenagem ao presidente em exercício pela Acadêmicos de Niterói.
O que poderia ser lido como tributo cultural se converteu, rapidamente, em caso nacional: adversários e partidos de oposição alegaram propaganda antecipada e abuso; defensores do desfile falaram em liberdade artística e tentativa de censura.A Reuters descreveu o episódio como reação política relevante, citando ações judiciais e cuidados adotados para reduzir a leitura de “campanha” em um ano eleitoral. A Associated Press reforçou o mesmo eixo, ao apontar que rivais tentaram caracterizar o desfile como lançamento de campanha com antecedência. A CNN Brasil, ao repercutir o caso, mostrou a polarização do enquadramento público: “ato cultural” para uns, “propaganda antecipada” para outros.
Repare como a engrenagem funciona: um trecho do samba, um número, um frame, uma alegoria e pronto: a Avenida atravessa a tela e se instala na política cotidiana. A disputa já não é “o que aconteceu”, mas “o que significa”, “quem se beneficia”, “onde termina a arte e começa a propaganda”, “onde termina a homenagem e começa a zombaria”. Em 2026, isso ganhou combustível por ocorrer em contexto eleitoral e por ser mediado em tempo real, com recortes instantâneos, guerra de narrativa e judicialização.
Aqui está o ponto mais importante: o carnaval é grande demais para ser “só brincadeira”. Ele é palco. Ele é vitrine. Por isso, ele vira disputa.
Conclusão: a TV não morreu, ela virou infraestrutura do acontecimento
Três noites de Grupo Especial não são apenas mais uma data no calendário. São um sinal: de que o carnaval carioca se entende, cada vez mais, como espetáculo audiovisual em estado puro, com exigência estética, técnica e comercial num país que discute identidade todos os dias. O desfile segue sendo um dos raros lugares onde cultura popular, dinheiro, política e mídia se encontram no mesmo palco.
As redes vão continuar fazendo o que fazem: recortar, acelerar, polarizar, transformar tudo em “momento”. Mas é a transmissão – o grande ao vivo, a narrativa comum – que sustenta a ideia de grandioso espetáculo. Em outras palavras: o carnaval pode viralizar em pedaços, mas ele ainda se consagra inteiro na tela.
Talvez a pergunta mais honesta, em 2026, não seja se a televisão perdeu força. É que tipo de força ela passou a exercer: menos como dona do público e mais como infraestrutura do acontecimento. O lugar onde o Brasil se “vê” e, logo em seguida, se comenta.
*Carlos Rocha dos Santos é Jornalista, Professor Universitário e Diretor na L1NK Estúdio Criativo.
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