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ARTIGO | O público mudou e o jornalismo precisa entender: a distração é o novo centro das redes
06 de Maio de 2025

ARTIGO | O público mudou e o jornalismo precisa entender: a distração é o novo centro das redes

É preciso, neste ponto, evitar juízos apressados

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Por Carlos Rocha dos Santos*

A pesquisa “O que conecta os públicos ao jornalismo local”, realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio do grupo TransformaJor, é um verdadeiro presente para a reflexão crítica sobre o momento que vivemos. Não apenas pelo rigor metodológico aplicado — com amostra representativa, análise qualificada de dados e triangulação entre leitura humana e inteligência artificial —, mas também pelo empenho de seus pesquisadores em compreender, de maneira isenta e profunda, a nova realidade da conexão entre cidadãos e a informação em Florianópolis.

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Os nomes que assinam o trabalho, vindos dos programas de Pós-Graduação em Jornalismo, Sociologia e Ciência Política da UFSC, merecem destaque pela seriedade e pela coragem em investigar um tema tão sensível: o esvaziamento da relação entre o público e o jornalismo tradicional.

Ao percorrer o relatório, algumas constatações saltam aos olhos e exigem debate maduro. A primeira delas é a mudança no comportamento informacional da sociedade. Os dados são claros: mais de 55% dos entrevistados disseram buscar notícias em redes sociais e, entre as fontes mais mencionadas, perfis de humor como o Floripa Mil Grau lideram as citações espontâneas. Enquanto isso, os veículos tradicionais — que historicamente sustentaram a democracia catarinense — praticamente desaparecem da lista dos mais acessados.

É preciso, neste ponto, evitar juízos apressados. Não se trata de condenar o humor ou as redes sociais — pelo contrário, trata-se de compreender o que está por trás desse comportamento. E aqui me permito um posicionamento firme: as pessoas buscam, prioritariamente, entretenimento nas redes sociais. As redes não nasceram como espaços de formação crítica ou de exercício pleno da cidadania. Elas foram criadas para estimular a permanência, o engajamento emocional e o prazer imediato. E o que provoca essas reações? A distração.

A distração é o motor central da presença humana nas plataformas digitais. Trata-se da válvula de escape de um cotidiano cada vez mais extenuante. Em tempos de excesso de informação, polarização e ansiedade coletiva, o que se busca nas redes não é, primeiramente, o peso das realidades locais. É o alívio, o riso, a leveza. É o vídeo curto, o meme, a notícia tragicômica que transforma o problema em piada. A informação, nesse cenário, é muitas vezes um efeito colateral do entretenimento — e não o objetivo principal.

A pesquisa da UFSC retrata, com fidelidade, essa dinâmica. A força dos perfis de humor, a predominância do Instagram, a rejeição a conteúdos longos ou excessivamente densos e a dificuldade de sustentar modelos de financiamento para o jornalismo local são expressões de um fenômeno maior: a transformação da internet em um espaço prioritariamente dedicado à diversão.

O jornalismo tradicional, nesse contexto, precisa repensar sua proposta. Persistir em um modelo calcado apenas na formalidade, na gravidade ou no distanciamento afetivo pode significar o isolamento ainda maior dos veículos. Não se trata de abandonar a ética, a apuração rigorosa ou a responsabilidade social — pilares inegociáveis da profissão. Trata-se de compreender que a linguagem, o formato e a experiência de consumo precisam ser revisitados.

O jornalismo do presente — e, mais ainda, o jornalismo do futuro — deve ser informativo, mas também convidativo. Deve carregar o peso da responsabilidade, mas também a leveza necessária para caber na rotina emocional das pessoas. É possível, sim, fazer jornalismo sério com inteligência narrativa, com alegria, com empatia e, sobretudo, com posicionamento. Um jornalismo que saiba usar recursos audiovisuais de forma estratégica, que dialogue com o ritmo das redes, que saiba rir de si mesmo sem perder a credibilidade.

A pesquisa mostra que as pessoas ainda reconhecem valor na credibilidade, na profundidade e na pluralidade de pontos de vista — mas isso não basta. O jornalismo local precisa ser percebido como parte da vida cotidiana das pessoas, e não como um parêntese formal que elas evitam abrir.

Em um ambiente em que a distração é a regra — e não a exceção —, o jornalista que deseja ser ouvido precisa abraçar o desafio da comunicação humana em toda a sua complexidade: informando, sim, mas também tocando, conectando, emocionando.

Florianópolis, cidade tantas vezes retratada como paraíso e que agora se descobre como laboratório de tendências em comunicação, aponta para um futuro em que o jornalismo poderá sobreviver apenas se entender que o público não está fugindo da informação: está correndo em busca de uma vida mais leve. Cabe ao jornalismo aprender a acompanhar esse passo.

É tempo de reinventar a relação com o público. É tempo de informar, sem esquecer de acolher.

*Carlos Rocha dos Santos é jornalista e professor, especializado em gestão de imagens e marketing institucional.

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