Lula é o primeiro político a caminho da prisão que reuniu centenas de pessoas nas ruas em sua defesa. E isso leva muitas pessoas a se questionarem diante de um clima de total insegurança jurídica, como acaba de reconhecer em Boston (EUA) a presidente do STF, Carmem Lúcia.
É necessário, contudo, que puxemos o holofote da razão para analisarmos aspectos desse processo ainda perplexo para a Nação.
O erro do grande líder nacional – Lula – foi o de não apoiar, no início, as ações destinadas a combater a corrupção no Brasil. A prisão de seus principais assessores – José Dirceu e Antônio Palocci – deu a Lula a alternativa de colaborar com a justiça, mas o que se viu foi a precipitada reação de condenar uma geração de promotores e juízes disposta a desafiar os herdeiros de 70 anos de uma cultura de corrupção brasileira.
Imaginemos, por exemplo, se Lula, com toda a sua liderança e legado de um governo exitoso no campo social, batesse na mesa e abraçasse um movimento de combate à corrupção? Com certeza, já estaria no trono da sucessão presidencial. Mas ele não assumiu essa posição e acabou acusado como líder de um movimento corrupto. E a causa só ele pode explicar.
A determinação do juiz Sérgio Moro, de exigir que Lula se entregasse, sinaliza como uma contribuição ao restabelecimento da ordem jurídica. Contudo, a nação tem razão suficiente para indagar: por que o STF deixou prescreverem-se ações contra Romero Jucá e Renan Calheiro? Por que Paulo Maluf, condenado em 2014 pelas justiças dos EUA e de França à prisão, só ficou pouco mais de três meses detido no Brasil em 2018, sob a alegação de problemas cardíacos e de depressão? Quantos morreram de ataque cardíaco nas prisões à espera de julgamento? E Maluf havia sido julgado em várias instâncias!
O Brasil vive num jogo perigoso entre a razão e a emoção. O arquiteto norte-americano William Drummond já dizia há mais de 100 anos que “quem não quer raciocinar é fanático; quem não sabem raciocinar é tolo, e quem não ousa raciocinar é escravo”. Com certeza, o Brasil é uma nação de fanáticos, interesseiros, de carreiristas. São ministros do Supremo que não conseguem justificar falsas arguições; presidente da República que insiste em nomear pessoas de reputação comprometida por denúncias de corrupção, além de ver seus assessores indiciados; políticos de mandatos que sequer pensam em criar mecanismos de combate à corrupção; executivos públicos indispostos a frear crimes contra o erário público. Enfim, precisamos acreditar em alguma saída. E as novas gerações precisam de crédito para acreditarmos que o Brasil irá vencer a malandragem política, superará a impunidade e dará um basta ao jogo obscuro e abominável dos três poderes.
Se as novas gerações de magistrados decepcionarem, com certeza estaremos mergulhando em um maremoto, em que a democracia estará estraçalhada pelo imprevisível. Contudo, precisamos acreditar, mas é fundamental separar o joio do trigo. Os magistrados não devem seguir o exemplo de juízes, desembargadores e ministros, que se aposentaram para abraçar carreiras políticas. Eles precisam, com abnegação, determinação e ética, abraçar fortemente o desafio de pôr a Nação nos trilhos da decência. O poder judicial precisa dar sustentação ao Brasil, assim como a Corte de Warren deu aos EUA nos anos 50 e 60 ao combater o racismo.
* Laudelino José Sardá | Atuou durante 30 anos em jornais, na televisão e no rádio. Foi Assessor de Comunicação da UFSC. Atualmente leciona e dirige a Assessoria de Comunicação e Marketing da UNISUL. É graduado em Letras e Comunicação, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Engenharia da Produção na área de Gestão da Comunicação nas Organizações.
