
Faço essa introdução para dizer que fui visitar a exposição O Fantástico Corpo Humano, que permaneceu dois meses num shopping da Capital. No maior templo de consumo da sociedade, uma oportunidade rara para refletir sobre o significado da vida. Não sei quantos dos 70 mil que passaram por ali pensaram mais filosoficamente sobre a existência.
A exposição provocou polêmica em alguns lugares por onde passou (já foi vista por mais de 20 milhões em todo o mundo), pois são corpos verdadeiros de seres humanos – chineses, no caso – submetidos a uma técnica de desidratação dos tecidos, um processo de polimerização – ou plastinação, como ficou mais conhecido. Tentando simplificar: embora os corpos e vários órgãos sejam reais, parecem plastificados. O processo foi criado em 1975 pelo alemão Gunther von Hagens. Até então, corpos humanos e seus órgãos internos só eram objeto de estudos em escolas de Medicina.
Mas não foram só médicos que se interessaram em conhecer o corpo humano profundamente. Gênios da pintura como Leonardo da Vinci desafiaram as proibições de sua época para conhecer visceralmente os músculos, vasos, ligamentos, cada parte do corpo.
A técnica de Hagens trouxe mais um dilema: afinal, isso é arte ou ciência? Pode ser as duas coisas, tamanho o esplendor e sofisticação. As veias pulmonares e do coração, a árvore bronquial, as artérias da parede torácica mais parecem algas ou coloridos corais. Como não admirar a vasta rede de artérias, veias e vasos capilares de inacreditáveis 145 mil quilômetros dentro de nós? Ou um coração que bate aproximadamente 100 mil vezes e impulsiona 7.975 litros diariamente?
Costuma-se dizer que o mais importante, num ser humano, é a beleza interior, referindo-se, obviamente, às virtudes espirituais. Mas, depois de ver a exposição, é possível concordar que essa beleza também está presente na matéria que nos constitui. “Somos feitos de matéria estelar”, disse o astrônomo Carl Sagan. Tudo o que somos um dia foi estrela. Átomos de carbono, nitrogênio e oxigênio, além de outros elementos pesados gerados há 4,5 bilhões de anos. Por isso, não há dúvida: somos seres de intensa beleza, feitos para brilhar.
