Não há como fugir do debate sobre racismo quando as desigualdades gritam nos noticiários pelo mundo que é preciso fazer alguma coisa. A discriminação por raça é apenas uma das tantas na sociedade que criamos. No ecossistema de tecnologia, as pessoas costumam trabalhar em rede com outras de diversos países, credos, costumes e religiões. A tecnologia aproxima os mundos justamente porque sua razão de ser é a inclusão.
Quando o sistema funciona, a cor da pele não faz a menor diferença. Infelizmente, ainda temos muitos desertos de exclusão e não é preciso ir longe para encontrá-los. A exclusão acontece quando uma criança, adolescente ou mesmo adulto não têm acesso à internet de qualidade, seja para estudar, pesquisar, jogar, trabalhar. A pandemia deixou ainda mais evidente o quanto uma rede de qualidade é necessária. Seja para ter aula online, manter contato com amigos e parentes, ou vender um produto pela rede social.
E não é apenas a internet que pode atuar como indutora do desenvolvimento. O acesso a serviços públicos de maneira remota é um exemplo importante de distribuição de oportunidades. Sistemas bancários eficientes com moedas sociais são outro exemplo viável, testado e aprovado como importante para o desenvolvimento das economias locais. Colaborar para manter o dinamismo econômico em comunidades periféricas não é filantropia. É ajudar a distribuir oportunidades e alimentar um ciclo virtuoso cujos resultados se pagam em pouco tempo e permanecem por gerações.
Sistemas eficientes de ensino à distância, ou mesmo presencial, mas com uso de tecnologias que tornem o aprendizado mais interessante, significam menos evasão escolar. Consequentemente, menos jovens sem capacitação para o mercado de trabalho. Menos adultos marginalizados. Menos criminalidade. O mesmo raciocínio se aplica a sistemas de saúde e de segurança pública.
O grande desafio é aplicar o potencial da tecnologia para melhorar a qualidade do que é oferecido a quem está sem opções. As comunidades providas de infraestrutura e ferramentas de educação e capacitação se tornam lugares melhores, que se refletem em entornos mais prósperos, mas, principalmente, em celeiros de talentos, tantas vezes nunca revelados ou descobertos.
É uma jornada longa ainda, mas que tem dado passos importantes. A Netflix, por exemplo, se comprometeu doar US$ 100 milhões para instituições que atendem a comunidade negra. Serão inicialmente US$ 25 milhões para um novo fundo que investirá em instituições financeiras de propriedade de negros e que atendem a comunidades de baixa renda, e US$ 10 milhões para a Hope Credit Union. Futuramente a empresa deve direcionar 2% dos seus recursos para organizações financeiras que apoiam diretamente as comunidades afro-americanas.O CEO da Netflix declarou que as doações têm o objetivo de criar oportunidades de longo prazo para a comunidade negra e que seu papel na luta contra o racismo é prover conteúdo importante sobre o tema. É muito provável e desejável que a medida inspire outras grandes empresas a fazer o mesmo.
Mas não precisamos esperar por tanto. A partir do momento em que resolvermos assumir nossa responsabilidade e nos envolver com o que nos rodeia, seremos naturalmente despertados a tantas necessidades e inspirados a buscar soluções. Sim, precisamos nos envolver, se queremos uma sociedade próspera com oportunidades para todos. Tudo o que estamos vivendo conspira para que façamos algo diferente para diminuir as diferenças. Precisamos revestir as tecnologias de propósito e prover capital para gerar mais capital. Quem recebe ajuda costuma passar adiante, e momentos de grandes crises como o que estamos vivendo costumam ser indutores de importantes transformações.
Obrigado pela leitura!
Como inspiração sobre pequenas inovações que geram grandes transformações, indico o filme O menino que descobriu o vento. A história do jovem africano ganhou o mundo e o cinema por meio de um livro autobiográfico lançado em 2009.
