
Imagem: Divulgação Paris Filmes
A discussão sobre a Cota de Tela voltou ao centro do debate nesta semana após a polêmica envolvendo a rede Cinemark e as sessões esvaziadas de um filme infantil nacional exibido em horários pouco atrativos apenas para cumprir a legislação.
A repercussão foi tão grande que a própria ANCINE decidiu atualizar as regras da política para 2026, tentando incentivar que os filmes brasileiros tenham sessões em horários nobres e permaneçam mais tempo em cartaz.
Mas talvez a discussão principal seja outra: filme brasileiro bom não precisa ser empurrado por obrigação. O público brasileiro já provou diversas vezes que consome cinema nacional quando existe conexão emocional, qualidade técnica, boas histórias e divulgação eficiente. O Agente Secreto, Ainda Estou Aqui, O Auto da Compadecida, Tropa de Elite, Minha Mãe é uma Peça, Cidade de Deus e tantos outros sucessos não dependeram de imposição para lotar salas. Eles criaram evento, conversa, identificação cultural e vontade genuína das pessoas de assistir.
A cota de tela é importante como mecanismo de proteção cultural diante da avalanche de blockbusters estrangeiros. Isso é fato. Sem algum incentivo, muitos filmes nacionais sequer chegariam aos cinemas. Porém, quando a legislação vira apenas número para ser cumprido burocraticamente, abre espaço para distorções como sessões vazias às 11h da manhã que não ajudam o cinema brasileiro em absolutamente nada. Cinema não sobrevive apenas de obrigação regulatória. Sobrevive de interesse.
O maior problema do audiovisual brasileiro talvez nunca tenha sido a falta de talento. O Brasil produz diretores brilhantes, atuações memoráveis e histórias poderosas. O desafio está em aproximar essas obras do público sem transformar o espectador em alguém “obrigado” a consumir determinado conteúdo. Quando um filme emociona, diverte, provoca ou gera conversa, ele naturalmente encontra audiência.E 2026 vem mostrando exatamente isso. Mesmo em um ano cheio de discussões políticas sobre a cota de tela, alguns filmes brasileiros conseguiram chamar atenção por mérito artístico, repercussão e qualidade narrativa. São produções que lembram que o cinema nacional continua vivo, criativo e relevante. Confira cinco filmes brasileiros lançados nos cinemas em 2026:
Velhos Bandidos
Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura) são dois aposentados que decidem abandonar a rotina tranquila para colocar em prática um ambicioso plano: assaltar um banco. Para garantir que tudo saia conforme o esperado, eles recrutam Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta), uma dupla mais jovem e experiente no mundo do crime. Mas o que parecia ser o golpe perfeito começa a sair dos trilhos quando Oswaldo (Lázaro Ramos), um investigador persistente e desconfiado, passa a seguir cada passo do grupo. Misturando humor, ação e confusões inesperadas, o filme acompanha uma improvável equipe de criminosos tentando escapar de um plano cada vez mais complicado. Direção: Cláudio Torres. Ação, Comédia, Policial. 1h 33min. Em exibição nos cinemas.
Feito Pipa
Gugu, um menino queer de 11 anos, vive ao lado da avó Dilma em uma pequena comunidade próxima a uma barragem. Muito ligados um ao outro, os dois enfrentam juntos a rotina simples da vida enquanto Dilma começa a apresentar os primeiros sinais do Alzheimer. Com o avanço da doença, Gugu passa a esconder a situação de todos ao seu redor, temendo ser obrigado a morar com o pai, um homem intolerante e homofóbico. Entre lembranças que desaparecem e afetos que resistem, o filme constrói uma narrativa delicada sobre amor, medo e os laços familiares diante das incertezas do futuro. Direção: Allan Deberton. Drama. 1h 33min. Em exibição nos cinemas.
O Velho Fusca
Em meio às dúvidas sobre o próprio futuro, Junior (Caio Manhente) tenta encontrar seu espaço no mundo quando descobre, na garagem da família, um antigo Fusca que pertenceu ao avô (Tonico Pereira). Fascinado pelo carro e decidido a restaurá-lo, o jovem acaba despertando lembranças dolorosas de um passado marcado pela guerra e por conflitos familiares nunca resolvidos. À medida que se aproxima da história do avô, endurecido pelas experiências traumáticas da juventude, Junior percebe que o veículo guarda segredos capazes de reacender antigas feridas e revelar a origem da ruptura que separou a família por tantos anos. Direção: Emiliano Ruschel, Comédia, Drama, Família. 1h 37min. Em exibição nos cinemas.
Edifício Bonfim
O filme traz os peculiares habitantes de um prédio em Florianópolis, vivendo situações dramáticas e terríficas, envolvidos com sequestros diabólicos, bruxas horripilantes e serial killers ambiciosos. Ano 2025. Direção: Lígia Walper. Terror. 1h 27min. Em exibição nos cinemas.
Rio de Sangue
Patrícia Trindade (Giovanna Antonelli), uma policial afastada após uma operação fracassada, foge para o Pará tentando reconstruir a relação com a filha Luiza (Alice Wegmann), médica voluntária em comunidades indígenas do Alto Tapajós. Quando Luiza é sequestrada por garimpeiros durante uma missão humanitária, Patrícia é obrigada a enfrentar novamente a violência que tentou deixar para trás. Em meio à floresta e ao domínio do crime na região, ela inicia uma corrida desesperada contra o tempo para salvar a filha. O filme mistura ação, tensão e drama familiar em uma história marcada pelo instinto de sobrevivência e pela força do amor materno. Direção: Gustavo Bonafé. Ação, Drama, Policial. 1h 46min. Em exibição nos cinemas.
No fim das contas, a discussão sobre a Cota de Tela não deveria ser sobre quantidade de sessões, mas sobre criar condições para que o cinema brasileiro seja competitivo, interessante e desejado pelo público. Porque quando um filme nacional realmente toca as pessoas, não existe lei necessária para manter a sala cheia.
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Até a semana que vem!
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