por Eduardo Boechat*
Educação financeira sempre foi um tema que não teve a atenção devida, tanto nos currículos escolares, quanto nas próprias universidades. Nas escolas públicas, o desafio é muito mais complexo. A evasão escolar é muito grande. E os alunos que conseguem chegar ao fim, não têm noções básicas de Matemática. Essa constatação se dá ao olhar os exames aplicados em larga escala para medir esses conhecimentos. O Brasil sempre está mal colocado nos rankings mundiais. Já nas particulares, apesar de a grande maioria dos alunos sair entendendo razoavelmente Matemática, não existe uma preocupação com o ensino de instrumentos financeiros.
Certa vez, em 2009, participei de uma mesa redonda em uma universidade (lembrando que, em 2009, as bolsas mundo afora bateram mínimas históricas, resquício da crise do subprime nos EUA no fim de 2008). E nesse debate, defendi que as pessoas deveriam investir em ações. Quando, para minha surpresa, recebi uma reprimenda do professor de Mercado de Capitais dessa universidade, dizendo que em ações ninguém ganhava dinheiro e, como que eu, no auge daquela crise toda, poderia estar ali dizendo para as pessoas comprarem ações. Tomei um susto. Como que um professor de Mercado poderia dizer isso? Fazendo uma comparação boba, é quase como se um padre ou pastor dissesse para não acreditar na Bíblia ou em Jesus Cristo.
Salvo exceções, a grande maioria das pessoas tenta aprender, já na vida adulta, como investir seu próprio dinheiro. Essa falha é primordial para justificarmos o número de pessoas que tem seu nome listado no Serasa ou qualquer outro serviço de proteção ao crédito. Mau uso de cartão de crédito, pessoas que gastam mais do que ganham, enfim, toda sorte de erros básicos que atrapalham a vida das pessoas.
A primeira conclusão que tiramos é bastante óbvia. Se você vai investir seu dinheiro, estude antes o que você pretende fazer. Vai aplicar em um CDB? Descubra o que é isso e como funciona. Quer comprar cota de fundo de investimentos? Procure informações sobre o gestor do fundo e que tipo de risco o fundo corre. A internet está aí. O que não falta é informação. E de graça.
Outra situação bastante corriqueira é a manada correr atrás de alguma modinha que possa estar acontecendo. As pessoas embarcam muitas vezes em canoas furadas simplesmente pelo fato de não irem atrás da informação correta. Por exemplo, em momentos de euforia na bolsa de valores, o que mais se vê são pessoas correndo para investir em ações, sem ter noção nenhuma do risco que correm. Cansei de ouvir de conhecidos que eles nunca mais investirão em ações, porque perderam muito dinheiro em algum momento.
Assumir riscos no mercado financeiro não é uma coisa simples. Requer paciência, humildade, estômago e muita, mas muita, disciplina. Paciência, no sentido de que as coisas quase sempre não acontecem de imediato. Você compra uma ação e ela não sobe na hora. Tem que ter sangue frio. Humildade, para você reconhecer quando você erra e sair da sua posição. O investidor que diz que sempre ganha, tenha certeza, está mentindo. O segredo está em perder pouco quando você está errado e ganhar bem quando está certo. Estômago forte para aturar a pressão e o calor quando o mercado vai contra você.
E o principal, DISCIPLINA. Hoje, mais velho, tenho convicção que sem disciplina a gente não vai a lugar algum. Crie as suas regras e fique dentro delas. Vale para tudo. Quer fazer um regime, perder peso? Não saia da regra, porque senão você não vai conseguir. Quer guardar dinheiro para pagar a educação dos seus filhos? Não gaste o que você guardou na primeira oportunidade. E no mercado, disciplina também é tudo. Comprou uma ação a 10 reais, seu stop* é a 9? Se bater 9, não queira ser um super-herói e comprar mais ações. A sua regra era assumir esse prejuízo, vender as suas ações e partir para outra. Execute o que você pensou quando estava com a cabeça fria. E se você for indisciplinado, comprar mais a 9 e a ação cair para 7? O que você vai fazer? Seu prejuízo estará gigantesco, você estará completamente fora do seu normal, estressado. Atrapalhará a sua vida com toda certeza. Não queira isso para você.
*Stop é o jargão utilizado para definir o preço de saída de um investimento mal feito, definindo um limite de prejuízo para esse investimento.
Eduardo Boechat atua desde 2000 no mercado financeiro, com participação em diversas empresas de investimentos, entre bancos e gestoras de fundos brasileiras e estrangeiras. Engenheiro Civil formado pela UFMG, foi também professor universitário, especializado em mercado de capitais. Instagram @eduardo.boechat

