Como profissional da área de Recursos Humanos durante boa parte da vida, um tema que sempre acompanhei com interesse foi o referente às pesquisas que retratavam a satisfação/insatisfação dos empregados com o trabalho praticado. Interessante verificar que mesmo entre executivos, bem remunerados e com robustos planos de benefícios, a insatisfação sempre se fez presente e, a declaração comum era de busca por novos desafios. Os tempos modernos, ao mesmo tempo, exigem profissionais qualificados e proativos, mas oferecem, em muitas oportunidades, ambientes tóxicos de trabalho, com metas exageradas e ambientes onde a competição é o tema principal.
Com a eclosão da pandemia o problema tornou-se mais agudo. Os problemas de saúde mental e burnout tornaram-se cada vez mais comuns, principalmente, entre os jovens. A quebra da rotina, o trabalho em casa, a falta de preparo de empresas e trabalhadores para as novas modalidades de trabalho, trouxeram, para um bom número de trabalhadores, insegurança e incertezas produzindo questionamentos até então não presentes. O Movimento Antitrabalho começou nos Estados Unidos, pela oferta de emprego existente e pela legislação mais flexível e recolocação mais fácil, com indagações sobre a importância do que o trabalhador estava fazendo e a contrapartida financeira pelo trabalho executado.
Mas, alguns trabalhadores estão indo além, perguntando-se sobre o propósito do trabalho e a contrapartida da valorização do trabalho. Em verdade o que está em jogo é um velho argumento anarquista e socialista que diz que os empregos ofertados não são necessários e que o trabalhador é explorado pelo sistema econômico existente. Os defensores destes argumentos não acreditam no fim do trabalho, mas no trabalho necessário, essencial para que não haja excesso de bens ou de capital, o que contraria um dos princípios do capitalismo.
Em tempos de mudança do perfil do trabalho e do trabalhador a incerteza se faz presente. A dificuldade maior está em fazer quem deveria estar preocupado com estas mudanças entender que o “amanhã não será uma continuidade do hoje.” A disruptura que vem por aí é abrupta e vai exigir um profissional com habilidade e conhecimento que a escola atual não está preparada para oferecer. Para ter uma ideia do que ocorre, a Finlândia já adotou a semana de 4 dias e, na Suíça a maioria dos empregos ofertados são de meio expediente e já se discute a semana de 4 dias.
Apenas para exemplificar e segundo a Page Group, Consultoria britânica de recrutamento, eis algumas profissões que demandarão profissionais qualificados. Gestor de Investimentos, Gestor de Patrimônio e Imobiliário Digital, Especialista em Estruturação de Linhas de Crédito, Engenheiro de Hardware, Gerente de Segurança de Informação e Riscos e Especialista em Segurança Cibernética. É interessante observar que para todas estas novas profissões exige-se capacidade analítica, habilidade com raciocínio numérico, conhecimento de tecnologia de informação. Nossas escolas, centradas na memorização, ensinam estas habilidades?
Pior é quando analisamos a entrada de estudantes em nossas universidades e observamos que os cursos mais procurados são Direito, Administração de Empresas e Pedagogia. Aí a sensação de desconforto é imensa, pois milhares de jovens estão apostando seu futuro onde não haverá futuro; aplicando seu tempo e dinheiro sem garantia de que haverá retorno. As autoridades continuam imaginando um futuro sequenciado e que o amanhã será uma continuação do hoje; pela omissão e falta de análise perspectiva de quem de direito os jovens e o país, pagarão a conta.
Aos que acreditam no Movimento Antitrabalho talvez a razão esteja nas novas exigências do mercado de trabalho e, neste momento de insegurança, estejam orientando suas ações, mas o emprego continuará a existir para aqueles que ofereceram o que o mercado estará comprando.
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