Freud explica – ou não. O fato é que de uma hora para outra, várias vezes sem aviso prévio, tem muita gente que surpreende parentes, amigos e conhecidos ao abandonar certos filtros sociais (Deus guarde e preserve os filtros sociais!) que todos adotamos desde o fim da infância para manter o trabalho, as amizades, as conquistas amorosas e, principalmente, algum resquício de eventual boa reputação construída a duras penas.
Há motivações variadas e consequências diversas. No capítulo dos casos pitorescos e divertidos, figuram senhores e senhoras que se tornam especialistas em dizer a coisa errada no momento inadequado. Mais preocupantes são os exemplos de homens e mulheres que de uma hora para outra deixam de lado a pele de cidadãos civilizados e surgem como fontes inesgotáveis de mentiras e preconceito.
Mas há também casos de indivíduos que simplesmente apostam em algo novo e inesperado e surpreendem a todos da forma mais positiva.
No início dos anos 70, quando estava perto de completar 50 anos, Carlos Heitor Cony já era uma figura respeitada no jornalismo (foi o primeiro a criticar a ditadura na grande imprensa, logo após o golpe, em crônicas reunidas no O Ato e o Fato) e na literatura brasileiros. Educado em seminário, tinha vasta cultura e plaquinha na estante – com uma dezena ou mais de obras reconhecidas e respeitadas. Em 1964 lançou Antes, o Verão, que fala de amor – realizado e desgastado. Pessach: a Travessia é de 1967 e narra a transformação de um escritor pequeno burguês em militante da luta armada contra a ditadura brasileira. O título, que ecoa o êxodo judeu do Egito, é um exemplo a mais da erudição do autor.
Certo supor, diante disso, que muita gente tenha ficado preocupada com a sanidade de Cony quando, em 1974, apareceu o divertido e amalucado Pilatos. A história, escatológica, surpreendente, inteligente, primorosa e bem-humorada (ainda que trágica em determinados momentos) tem como personagem principal um sujeito que tem o pênis decepado em um acidente de trânsito. Após a alta hospitalar, ele vagueia pelas ruas do Rio de Janeiro com o órgão sexual guardado em um vidro de compota.
Caminhando a esmo pela cidade, conhece gente desajustada (nas ruas, na prisão ou em uma missa e uma festa que acabam em bacanal) e protagoniza histórias que absurdas e bem brasileiras. Não por acaso, há um que de pessimismo na obra, como mostra o diálogo do protagonista com um desconhecido que encontra ao acaso:
O homem “olhou-me sem graça. Depois apontou para o grupo de jovens que cantava diante do sol que nascia.
– Estão felizes, hein?
– Estão mal-informados – respondi.
E afastei-me”.
O Cony era genial.
Mas, como ensinaram Tolstoi e Martinho da Vila, importante mesmo é falar da nossa terra.
Pois dias atrás, aqui pertinho, no palco do Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), em Florianópolis, o jornalista Claúdio Schuster, gaúcho radicado em Santa Catarina há algumas décadas, apostou na ousadia diante de uma plateia de colegas, amigos e conhecidos.
Poeta (com livros lançados nos anos 90 que desconheço) e cronista, no ano passado ele lançou em parceria com outro Cláudio, o Duarte, ilustrador, o livro “Vai Dar Merda”. A seleção de textos curtos faz lembrar a célebre frase do poetinha: “A vida é a arte do encontro”. Pai e filho, homem e mulher, homem e urubu, homem e Deus: os “esbarrões” da vida são o ponto de partida para várias das histórias do autor. Com um mínimo de matéria prima (homem e mulher sob uma marquise em dia de chuva, por exemplo), o Cláudio mostra novas formas de ver beleza e graça em situações conhecidas e faz o leitor sorrir sozinho. Se “vai dar merda” mesmo, não há motivo para não aproveitarmos a viagem antes que as coisas desandem.
Pois agora, em pleno novembro de 2022, Schuster deixou de lado o filtro da discrição e de uma aparente timidez e surgiu no palco do TAC diante de uma banda inspiradíssima. Ao lado dele, o cantor, compositor e showman Marcoliva e os músicos Rafael Calegari (contrabaixo e direção musical), Luciano Bilú (guitarra), Neto Fernandes (teclados), Alexandre Damaria (percussão), Felipe Nascimento (bateria), Roger Corrêa (acordeon), Iva Giracca (violino) e Angie Gastambide (voz). Um time de primeira para lançar o show que vai virar disco com oito composições criadas a partir de versos do seu Beba Poesia, livro de haicais e poemas curtos e bem lapidados:
“aqui não é lugar
de fatos concretos
persigo segredos
escrevo para gatos
que preferem caixas
a brinquedos”
Confesso que a expectativa não era de grande apoteose. De fato, no palco, diante de centenas de pessoas, sob holofotes, ao som de guitarras e percussão, Schuster tem a desenvoltura de um …. poeta. Mas o resultado da parceria com Marcoliva e o timaço de instrumentistas é surpreendente. Cenário, iluminação e música de primeira – tudo cercado pelo clima de camaradagem que faz o público ter a agradável sensação de acompanhar pessoas apaixonadas pelo que estão fazendo.
Surpresa das mais agradáveis.
Foto: Thiago Mangrich
Correção:
No texto publicado em 30 de outubro – A hora e a vez das mulheres autoras – ficou dito:
“Tsitsi foi uma pioneira com a obra lançada em 1988 – e que chegou ao Brasil com grande atraso. Infelizmente os outros livros da autora ainda não estão por aqui. Fica a torcida por uma tradução rápida”.
Está errado.
A editora Kapulana já traduziu e lançou no Brasil o segundo livro da trilogia iniciada com Condições Nervosas. O Livro do Não está à venda.
