O Prêmio Nobel de Literatura começou a ser entregue em 1901. Desde então, a honraria foi concedida a 102 autores homens. Apenas 17 mulheres levaram para casa medalhas e diplomas.
Tamanha diferença por certo é reflexo de uma série de fatores. No fim dos anos 1920, em um livro chamado “Um Teto Todo Seu”, Virginia Woolf dá algumas pistas ao falar de forma hipotética de como seria a vida de uma irmã genial de Shakespeare.
“Permitam-me imaginar, já que é tão difícil descobrir fatos, o que teria acontecido se Shakespeare tivesse tido uma irmã maravilhosamente dotada, chamada, digamos, Judith. O próprio Shakespeare, muito provavelmente (sua mãe era herdeira), foi para a escola primária, onde deve ter aprendido latim — Ovídio, Virgílio e Horácio — e os fundamentos de gramática e lógica…
…Tinha, ao que parece, gosto pelo teatro; começou segurando cavalos à entrada do palco. Logo conseguiu trabalho no teatro, tornou-se um ator de sucesso e viveu no centro do universo, encontrando todo mundo, conhecendo todo mundo, praticando sua arte nos tablados, exercitando o espírito humorístico nas ruas e até ganhando acesso ao palácio da rainha.
Enquanto isso, sua extraordinariamente bem-dotada irmã, suponhamos, permanecia em casa. Era tão audaciosa, tão imaginativa, tão ansiosa por ver o mundo quanto ele. Mas não foi mandada à escola Não teve oportunidade de aprender gramática e lógica, quanto menos ler Horácio e Virgílio. Pegava um livro de vez em quando, talvez algum do irmão, e lia algumas páginas. Mas nessas ocasiões, os pais entravam e lhe diziam que fosse remendar as meias ou cuidar do guisado e que não andasse no mundo da lua com livros e papéis”.
O livro fala ainda de outros obstáculos – financeiros, sociais, educacionais – que atravancavam a produção literária feminina na época. Pouco provável que todos esses desafios enfrentados por autoras tenham sido superados. Mas ao menos nos resultados da Academia Sueca as coisas parecem ter melhorado. Das últimas dez edições do Nobel, cinco foram vencidas por mulheres.
Premiadas ou não, escritoras em atividade tem produzido ótimos livros que trazem um “olhar feminino” sobre a vida. Nobel de 2015, Svetlana Aleksiévitch tem entre seus livros o forte A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, que traz diversas histórias de russas que participaram ativamente da Segunda Guerra – e sofreram as agruras dos campos de batalha. Baseado em relatos colhidos pela autora, o texto traz histórias de heroísmo, coragem e sofrimento poucas vezes abordadas antes (já que a imensa maioria de livros sobre as batalhas são centradas nos feitos dos homens).
“Nos escondemos em um matagal fechado, fomos salvos pelos pântanos, onde a tropa punitiva não entrava. Um lodaçal. Ele encobria muito bem tanto as pessoas quanto os equipamentos. Passamos alguns dias, semanas, com água na altura do pescoço. Havia conosco uma operadora de rádio que tivera um filho havia pouco tempo. A criança estava com fome… pedia o peito. Mas a própria mãe estava passando fome, não tinha leite e a criança chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham cachorros… Se os cachorros escutassem, todos nós morreríamos. Todo o grupo, umas trinta pessoas. Entende?
O comandante tomou a decisão…
Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… nenhum som… E nós não conseguimos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”
A Segunda Guerra também é o assunto do Lee Miller’s War, que traz imagens e textos da fotógrafa Lee Miller produziu no front desde julho de 1944 até tempos após o fim da guerra e publicou na Vogue. Além de acompanhar batalhas, ela viu de perto a destruição provocada na França, na Alemanha e em outras partes da Europa e visitou campos de concentração. Curiosidade: a obra traz a foto histórica e a história da foto que mostra a própria Lee mergulhada na banheira do apartamento de Hitler no dia do suicídio do ditador.
Em paralelo ao aumento no número de autoras reconhecidas e premiadas, há maior representatividade de mulheres de diferentes culturas. Tsitsi Dangarembga, autora nascida no Zimbabwe, prende o leitor do excelente Condições Nervosas já nas primeiras linhas: “Não lamentei quando meu irmão morreu. Também não estou me desculpando por minha indiferença, como você poderia descrever, minha falta de sentimento”.
Nos anos 60, no país então chamado Rodésia, Tambudzay, a narradora, acredita que é possível mudar o próprio destino – e para isso vai seguir uma jornada própria em busca da educação muitas vezes negada às mulheres. Já sua prima Nyasha crê que é possível ir além. Resolver não apenas a própria situação, mas enfrentar o status quo e a tradição, o que parece infinitamente mais difícil. Cabe a ela alertar para a estranheza de hábitos machistas e de práticas colonialistas que insistem em perdurar.
Nyasha sofre – e não é por acaso. A história de Condições Nervosas se passa no país que deixou há pouco de ser colônia inglesa e enfrenta a pobreza extrema. A situação é ainda mais complicada para as mulheres, que vivem sob um tradição patriarcal das mais arcaicas.
Aqui e ali mulheres começam a se rebelar, ainda que de forma tímida, contra as tradições. Rebelião, diga-se, que é condenada até mesmo por outras mulheres. Nessa tensão entre a inadequação e o conformismo talvez resida a grande força de um livro marcante da literatura africana moderna.
Tsitsi foi uma pioneira com a obra lançada em 1988 – e que chegou ao Brasil com grande atraso. Infelizmente os outros livros da autora ainda não estão por aqui. Fica a torcida por uma tradução rápida.
