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Coluna Leitura – Farinha pouca, meu pirão primeiro
03 de Setembro de 2022

Coluna Leitura – Farinha pouca, meu pirão primeiro

A ganância, sentimento tão humano, já fez muita gente passar vergonha

Por Rogério Kiefer 03 de Setembro de 2022 | Atualizado 07 de Setembro de 2022

Anos atrás, quando apareceu em Santa Catarina com seu jatinho, a vasta cabeleira, o patrimônio bilionário e hábitos um tanto cafonas, Eike Batista caiu de imediato nas graças de grande parte da população e das autoridades. Não por menos: o sujeito, que ostentava ter carrões importados como parte da decoração da sala de estar, parecia disposto a gastar uns bons bilhões no estado. De imediato surgiram dezenas de amizades sinceras, seguidores entusiasmados (uns e outros mandaram às favas a vaidade e se contentaram com o papel de bobos-da-corte, rematados puxa-sacos de bilionário) e defensores fanáticos.

Golfinhos da baía de Governador Celso Ramos, coitadinhos, foram transformados em inimigos número 1 do progresso – os obstáculos que separavam o catarinense de um novo Cerro Rico de Potosí. Abre parênteses para explicar a referência e garantir que a conversa não fique sem sentido. Potosí, uma cidadezinha simpática e empobrecida da Bolívia, fica aos pés de uma montanha que foi sua glória e desgraça. Da elevação que domina a paisagem, os conquistadores espanhóis retiraram volume incalculável de prata durante séculos de exploração. O lugarejo se tornou a versão real do lendário Eldorado. Eduardo Galeano, no fabuloso Veias Abertas da América Latina, diz que a prata retirada de Potosí seria suficiente para a construção de uma ponte ligando a localidade à Europa. Ao mesmo tempo, estima, os corpos de indígenas mortos nas minas seriam suficientes para erguer uma ponte paralela à primeira. Fecha parênteses.

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Demasiado humano, o sentimento da ganância pode servir também para ótima literatura. Lima Barreto, personagem da coluna da semana passada, é autor do conto A Nova Califórnia, que já inspirou até um personagem de novela vivido pelo Edson Celulari.

O químico Raimundo Flamel aparece vindo sabe-se lá de onde na pequena Tubiacanga e desperta a curiosidade de todos por seus hábitos reservados – e pela decisão de ter um forno na sala de casa. Até que um dia corre a informação dos seus dotes de alquimista, descobridor da fórmula para transformar ossos humanos em ouro. Cheios de planos de riqueza, os moradores tratam de violar tumbas em busca de matéria prima para o próprio tesouro. “O mais rico e o mais pobre lá estavam. Era o turco Miguel, o professor Pelino, o dr Jerônimo, o Major Camalho, Cora, a linda e deslumbrante Cora, com os seus lindos dedos de alabastro, revolvia sepulturas, arrancava as carnes ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu regaço até ali inútil”. O desfecho é trágico.

Mark Twain foi outro que apostou alto na ganância – e saiu no lucro. O Homem que Corrompeu Hadleyburg é curtinho – oitenta e tantas páginas – e mostra o estrago causado por um saco de moedas naquela que era a “cidade mais honesta e honrada de toda a região”. Em semanas, cidadãos exemplares, modelos de virtude, aceitam mentir e trapacear em troca do que acreditam valer algo como 40 mil dólares. O tempo e a expectativa de riqueza podem erodir algumas convicções – ou apenas jogam luz sobre o que deveria permanecer escondido.

Dois dos cidadãos mais ilustres e respeitados da cidade, por exemplo, concorriam em chapas opostas a um cargo legislativo. “Era um páreo duro e disputado, e estava se tornando mais acirrado a cada dia. Os dois tinham acentuado apetite pelo dinheiro; cada qual comprara um grande trato de terra com um único objetivo; iam construir uma nova estrada de ferro, e cada um queria estar na Legislatura e ajudar a estabelecer a rota em seu próprio benefício; um único voto poderia ser decisivo, e traria consigo duas ou três fortunas”.

A edição brasileira d “O Homem que Corrompeu Hadleyburg” é de 1998. Infelizmente o livro circulou pouco. Em poucas linhas da página 55 está dito: “No mundo, não há nada como um discurso convincente para deixar as pessoas atarantadas, frustrar as convicções e perverter as emoções de uma plateia inexperiente em termos de truques e ilusões de oratória”. Se tivessem lido esse trechinho, muitos teriam olhado com mais atenção para o vendedor de ilusões que passou por aqui.

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