O colunista de literatura é antes de tudo um esnobe vaidoso, que usa e abusa de artifícios a fim de parecer mais inteligente do que realmente é. Abrir textos com a paráfrase de um clássico e a foto apoiado em montanhas de livros são estratégias pisadas e repisadas – mas ainda funcionam. Vale também a citação, preferencialmente de pensadores com nomes estranhos, que deve ser feita com ares de quem lê filósofos e linguistas enquanto faz algo corriqueiro.
Hoje mesmo, aliás, no breve período entre a limpeza da caixa de areia e o reabastecimento do potinho de ração do gato de casa, o Zion, parou em minhas mãos um dos textículos – com x – do afamado Martin Heidegger. Dizia ele que uma obra de arte é “coisa fabricada”, capaz de revelar algo diferente dela mesma – “ela é alegoria”.
Autor de clássicos como o Triste Fim do Policarpo Quaresma e Memórias do Escrivão Isaías de Caminha, o craque Lima Barreto fez uma alegoria do país recém tornado República no Os Bruzundangas. O texto aposta na sátira e na ironia para falar dos hábitos e costumes do povo que retrata.
Ao tratar da Constituição da Bruzundanga, por exemplo, o autor conta:
“Havia artigos muito bons, como por exemplo o que determinava a não acumulação de cargos remunerados e aquele que estabelecia a liberdade de profissão mas logo surgiu um deputado prudente que estabeleceu o seguinte artigo nas disposições gerais: ‘Toda vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da ‘situação’ ou de membros dela, fica subentendido que ele não tem aplicação no caso’.
Na Constituinte, todos esperavam ficar na situação, de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente”.
Outro trecho mostra a atuação de altas autoridades das finanças da Bruzundanga. Após anos e anos de déficit orçamentário, resultado de trapalhadas do governo, a autoridade máxima do país e o responsável pelo orçamento buscam uma solução salvadora, capaz de garantir sobras de recursos para pagar dívidas com credores estrangeiros. As medidas adotadas incluem triplicar taxas sobre o açúcar, o café, o querosene, a carne-seca, o feijão, o arroz e diversos outros produtos de primeira necessidade. Ao mesmo tempo, como contrapartida compensatória, seda, veludo e champanhe ficavam livres de qualquer imposto.
Na apresentação do plano aos deputados, um se revolta e acusa:
“Vossa Excelência quer matar de fome o povo da Bruzundanga”.
“Não há tal; mas mesmo que viessem a morrer muitos, seria até um benefício, visto que o preço da oferta é regulado pela procura e, desde que a procura diminua com a morte de muitos, o preço dos gêneros baixará fatalmente”.
Como se vê, felizmente a Bruzundanga de Barreto, com seu apreço pelo compadrio e inúmeros equívocos políticos, administrativos e de costumes, nada tem a ver com o Brasil atual. Ou tem?
Moderno para a época, Lima defendeu uma literatura militante e alinhada aos interesses dos mais pobres. Em crônicas, criticou de forma dura o projeto do teatro municipal do Rio de Janeiro – considerado excessivamente chique e capaz de afastar da plateia qualquer um que não fosse rico – e aproveitou comentário sobre Urupês, de Monteiro Lobato, para defender a reforma agrária.
Mas é ele próprio, melhor do que ninguém, quem pode explicar o motivo que torna Lima Barreto leitura essencial.
“Fazendo-se assim tudo compreender; entrando no segredo das vidas e das cousas, a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, explicando-lhes os defeitos, realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos; e por aí, nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície que rola pelos espaços sem fim”.
“E o destino da Literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de poucos a todos, para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina”.
Lima Barreto acreditava e praticava essa literatura. Ler seus livros é enriquecedor.
