A atriz Mônica Longo, da Cia Mútua, em entrevista sobre o espetáculo “Contestados”
Enquanto integrantes da Cia Mútua estavam ministrando a oficina “sensibilização para as formas animadas”, com Guilherme Peixoto, na Escola Municipal Princesa Isabel, em Lebon Régis, a atriz Mônica Longo conseguiu um espaço na agenda para conversar com a Coluna Entretenimento, sobre a nova temporada do espetáculo “Contestados”, que durante o mês de maio percorre 10 cidades de Santa Catarina.
Ela conta como a equipe envolvida na criação do espetáculo desenvolveu cenário, logística e trilha sonora, além de como é a participação da população cabocla e dos pesquisadores de um dos piores conflitos armados da história do Brasil.
As atrizes Mônica Longo e Laura Correa, durante o espetáculo “Contestados”
Crédito da imagem: Ivo Lima
Acompanhe a conversa:
“Contestados” é um espetáculo que está em cartaz desde 2019. O que já mudou desde a primeira encenação para agora?
Cada apresentação é uma experiência nova. O espetáculo é uma troca, de um lado está o elenco e de outro o público. Então sempre acontece, de certa forma, diferente. Uma apresentação não é igual a outra.
Desde quando começamos, foram mais de 50 apresentações, então os ritmos foram diferentes, algumas cenas foram modificadas, até pelos retornos de historiadores e da população cabocla que assiste ao espetáculo. A gente gosta de ter estes retornos de especialistas, nosso objetivo é sempre aperfeiçoando cada vez mais o trabalho.
Como tem sido o desenvolvimento dessa nova temporada?
Na oficina de hoje (23/05), os professores da escola estão aprendendo sobre como aplicar as técnicas de teatro de animação no dia a dia da sala de aula. Mas essa temporada é formada por 10 apresentações do espetáculo, sendo que todas elas são seguidas de uma roda de conversa com grupo de cultura cabocla ou pesquisador(a) que se aprofundam sobre a Guerra do Contestado.
Além da oficina, temos também mais duas ações formativas: a exibição do documentário “Terra Cabocla”, da Plural Filmes, com direção de Márcia Paraíso e Ralf Tambke, e uma palestra com o montador do documentário, Glauco Broering, para falar como foi o processo de montagem do filme.
No último dia de temporada, 29 de maio, em Curitibanos, teremos a palestra “O Contestado na sala de aula”, com o historiador, professor, doutor da UFSC, Paulo Pinheiro Machado, que encerra o projeto de forma grandiosa.
Vocês usam o teatro de animação para falar sobre um dos piores conflitos armados da história do Brasil. Como falar de uma forma mais sensível para o público que assiste?
Então, sugerimos que a indicação etária do espetáculo seja de 12 anos, crianças menores podem assistir, mas como o tema é delicado para crianças, achamos melhor um público um pouco mais velho.
O teatro de animação é um nome genérico para falar de várias linguagens desde o boneco de luvas, a marionete de fios, boneco de manipulação direta que se usa em cima da mesa, a sombra… são várias vertentes.
Para este, usamos figuras planas, bidimensionais, construídas em MDF que ficam apoiadas sobre 100kg de terra espalhados numa mesa. Achamos que para falar sobre essa história, era importante mostrar a terra mesmo. Ao longo do espetáculo, entre 90 e 100 figuras vão sendo apoiadas sobre a terra e vão contando a história.
É uma história difícil de ser contada com poucos atores em cena e muitos personagens, ela tem partes complexas e a figura plana nos deu essa possibilidade, de ter cenas de grupos de pessoas representadas com os bonecos, enquanto apenas duas pessoas estão contando a história.
Crédito da imagem: Diego Miranda
E como foi a montagem desses bonecos bidimensionais?
As figuras são animadas a partir de mecanismos desenvolvidos para estes bonecos. Para a montagem do espetáculo contamos com uma equipe bem grande, como o diretor Willian Siewert, da Cia Trip Teatro, que veio de Rio do Sul; um cenógrafo de São Paulo que desenvolveu a cenografia, para pensar como viajar com este espetáculo, por exemplo.
Um compositor, também de São Paulo, compôs a trilha original para a peça. Ele, inclusive esteve em Irani (SC), com o filho do historiador Vicente Telles, o Vicentinho Telles, para uma pesquisa musical mais aprofundada.
Um artista plástico do Rio Grande do Sul desenhou cada uma das 100 figuras a partir de um livro de imagens de Claro Jansson, o fotógrafo oficial da Guerra do Contestado. Depois, ele pintou à mão essas figuras.
Uma pessoa que escreveu o texto… então aparecemos só duas atrizes, mas sempre fazemos questão de ressaltar todas essas pessoas que foram muito importantes para o desenvolvimento do processo.
E qual é a importância de falar mais sobre essa guerra?
A fagulha inicial para a gente contar essa história é perceber que ela vai caindo no esquecimento, no apagamento mesmo e é muito importante a gente saber o que aconteceu no chão onde a gente pisa. Somos de Santa Catarina, nascemos em Joaçaba e estamos em Itajaí há anos.
E, quando termina uma temporada, já estamos buscando novos temas para novos trabalhos. Para a Cia Mútua, o teatro tem a função de descontrair, sim, mas também de levar o público a refletir e conhecer uma história que é nossa.
No chão onde a gente pisa aconteceu essa história que foi muito terrível, mas também é uma história de resistência e de força de um povo que resistiu e resiste até hoje numa das regiões que tem o menor IDH de Santa Catarina.
Por todos esses motivos, achamos muito importante essa história vir à tona, ser relembrada e ser conhecida por quem ainda não conhece.
Sem dúvidas. E como acontece os retornos da população cabocla e dos historiadores que estão sempre presentes nas apresentações?
É muito emocionante contar com a presença deles. Porque existe uma pesquisa muito grande sobre essa guerra, inclusive nossa. Pesquisamos muito, falamos com pessoas de diversas cidades, em Lebon Régis conhecemos o crematório onde os caboclos eram incinerados ao final da guerra, é uma descoberta recente, por isso ainda não consta em muitos materiais, apesar das diversas pesquisas acadêmicas que existem sobre o assunto.
Conversamos pessoas de diversas cidades, também em Caçador falamos com a Letissia Crestani, museóloga que nos passou muita informação, e fomos a Irani, conhecer mais museus e o local onde o Monge José Maria está enterrado, que é um lugar místico.
Alzira Prates, do Grupo Renascença Cabocla, de Monte Carlo, nos deu um rezo ao Monge São João Maria, que é utilizado no espetáculo com a voz dela, inclusive. Então o contato com os caboclos é desde a época da pesquisa. Quando estreamos, eles foram nos assistir.
Com essa temporada, é a primeira vez que o espetáculo vem para cidades que foram protagonistas da guerra. Já apresentamos em alguns festivais e circuitos, mas ainda não tínhamos chegado a essa região.
Estamos muito felizes com essa nova temporada, chegando com muito respeito à população, para trazer essa história que é deles, mas é de todos nós também.
Quais os próximos passos da Cia Mútua? Vocês já tem algum novo projeto previsto?
Sim! Neste ano estamos fazendo 30 anos. Começamos em 1993 e com certeza vamos comemorar essa data fazendo o que sabemos fazer: estar no palco! Vamos apresentar todo o repertório da Cia Mútua, em Itajaí.
Mas nacionalmente, estamos projetando fazer no ano que vem (2024) o Festival Internacional de Teatro de Bonecos que recebe cias nacionais e internacionais que trabalham com diferentes linguagens de teatro de animação. Ano passado tivemos duas cias do Chile.
No dia 3 de junho vamos a Brasília apresentar o espetáculo “Borboleta”, em um Festival de Teatro de Animação, também, depois no dia 8 o grupo embarca para um circulação também estadual do “Le Cirque de Pulgue”.
Toda a nossa agenda está no site, vale a pena conferir e ir se divertir e refletir com a gente.
Aproveito para convidar a todos para assistir aos espetáculos que estiverem nas cidades mais próximas de vocês.
Crédito da foto em destaque para Diego Miranda.
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