Um dia, o tempo,
feito o fio da guilhotina,
dividiu minha rotina
entre o antes e o depois,
do que importa, de nós dois.
Um dia, sem pensar em perder tempo,
cunhei teu nome nesta aliança,
sem garantias, sem fianças.
Por pressentir o teu valor,
o meu sentir, o nosso amor.
Um dia, com o tempo,
nosso brinde virou choro,
o que eu conto sem decoro!
Nosso fruto, tão perfeito,
logo virou o epicentro.
Um dia, a tirania do tempo
desviou as manhãs em prol do trabalho.
No poema da paixão, inverteu o cabeçalho.
Pulou refeições. Roubou nossas tardes.
Vieram as rugas, sem licença, sem alarde.
Um dia, correndo contra o tempo,
já não dei conta de tantas demandas.
O coração confuso, na berlinda.
Filha e carreira no topo da agenda.
Poderia o amor perder sua emenda?
Poderia rasgar, desbotar,
sabotar o que um dia forjou “nosso tempo”.
Mudou da terra até o céu,
fixou a fase da lua em eterna lua-de-mel.
Então neste dia, passado tanto tempo…
quero dizer que mesmo afobada, sem tempo pra nada,
reconheço em ti, meu marido… no beijo na porta,
na atenção ao que importa,
nos olhos em chamas, nos gestos, na flor,
o segredo que sublima e sustenta nosso amor.
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