Minha alma tem estrias.
Sim, confesso.
Tantas vezes já encolheu e se alargou
que o resultado são crateras
que definem quem eu sou.
Crateras de dor, de medo,
onde enterro sem orgulho
o que um dia foi desejo.
Crateras de luz, de brilho,
de quando no papel de filho,
acreditei que cuidam de mim.
Proteção natural, força maior,
infinito poder ao meu dispor.
Crateras de dúvidas, tenho também.
E se não apaziguar, nunca irei além.
Minha alma tem estrias
como eu contenho escolhas.
Em vez de procrastinar, jogado na poltrona,
rasgo e alargo a cratera da luz.
Com a terra que vem à tona
cubro o que era nocivo,
a dúvida, a dor, o medo decisivo.
Deixo as crateras mais rasas.
Eu ganho asas
se sintonizo o meu melhor
ao equilíbrio ao redor:
o sol que derrete quando a lua desponta,
a chuva que molha as plantas,
o rio que desagua no mar,
o fogo que se eleva pra poder cozinhar,
mesmo impelido a correr, a desobedecer,
milagres que, soterrados, não conseguimos perceber.
Eu rasgo e alargo a cratera da luz,
submissa à hierarquia em que a alma me conduz.
Não ter o controle sobre tudo
não significa que o todo não está sob controle.
Eu confio no poder do universo
de nos aproximar de tudo o que é certo.
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