Painel com astronauta, ONU e cientista mostrou por que satélites, criatividade e storytelling podem desempenhar um papel tão estratégico quanto a internet desempenhou nas últimas décadas

Texto e Imagem: Guilherme da Luz, especial para o AcontecendoAqui
CANNES, FRANÇA – O que uma astronauta, uma representante das Nações Unidas e um físico têm para ensinar sobre marketing, publicidade e inovação?
À primeira vista, pouco. Mas um dos painéis mais interessantes do Cannes Lions 2026 mostrou exatamente o contrário. Enquanto boa parte do festival continua concentrada em inteligência artificial, creators e transformação digital, a conversa apontou para uma tendência menos óbvia: o espaço está deixando de ser uma fronteira científica para se tornar uma plataforma económica, tecnológica e cultural.
Na minha 14ª cobertura do Cannes Lions, já vi o festival discutir praticamente todas as grandes transformações da indústria criativa. Não esperava que uma das conversas mais relevantes sobre inovação este ano viesse de um painel sobre espaço.
Debussy Theatre, Cannes | Imagem: Guilherme da Luz
A próxima grande plataforma não é uma rede social. Está em órbita
Uma das mensagens mais fortes da sessão foi que o espaço já faz parte da vida de praticamente todas as marcas presentes em Cannes. GPS, streaming, mapas, pagamentos digitais, logística, telecomunicações e distribuição de conteúdo dependem diariamente de satélites e infraestruturas espaciais que a maioria das pessoas nunca vê.
Foi aí que surgiu uma das frases mais interessantes do painel: “O espaço não é ficção científica. É infraestrutura crítica.”A comparação feita pela ONU foi direta. Assim como água, energia ou telecomunicações, os sistemas espaciais tornaram-se essenciais para o funcionamento da economia moderna. E justamente por serem invisíveis, recebem menos atenção do que deveriam.
O problema não é tecnologia. É narrativa.
Foi nesse momento que a conversa encontrou o Cannes Lions. Segundo Aarti Holla-Maini, diretora do escritório da ONU para assuntos espaciais, a indústria criativa tem um papel fundamental porque ajuda a definir aquilo com que as pessoas se importam.
A tecnologia existe. O impacto existe. Os benefícios também. O problema é que poucas pessoas percebem isso.
A frase que ficou na sala foi simples:
“A indústria criativa decide aquilo com que as pessoas se importam.”
Foi impossível não fazer um paralelo com temas que dominaram o festival nos últimos anos, como IA, sustentabilidade e creator economy. Em todos os casos, tecnologia sozinha não foi suficiente. Foram as narrativas que transformaram inovação em relevância cultural.
Uma lição de inovação vinda da órbita
Um dos momentos mais curiosos do painel aconteceu quando a ONU revelou bastidores do trabalho realizado para evitar colisões entre satélites.
Apesar de parecer um problema técnico, a questão central não era tecnologia, mas comunicação. Em alguns casos, operadores e governos simplesmente não conseguiam falar entre si para coordenar manobras em órbita.
A tecnologia estava disponível.
Os dados também.
O problema era colaboração.
Foi impossível não pensar em algumas das discussões mais frequentes do próprio Cannes Lions. O desafio raramente é apenas tecnológico. É confiança, coordenação e capacidade de fazer diferentes partes trabalharem na mesma direção.
Por que Cannes Lions está falando sobre espaço?
A resposta surgiu aos poucos durante a conversa.
O painel nunca foi realmente sobre foguetes. Foi sobre a capacidade de identificar oportunidades antes que elas se tornem óbvias.
Há vinte anos, poucas empresas compreendiam o potencial da internet. Há dez anos, poucos apostavam seriamente na creator economy. Há cinco anos, a inteligência artificial generativa ainda parecia distante para muitas marcas.
Hoje, talvez o espaço esteja começando a ocupar esse papel.
Não porque as empresas vão anunciar em Marte, mas porque novas infraestruturas, novas tecnologias e novos mercados estão sendo construídos acima das nossas cabeças.
O futuro pertence a quem conecta mundos diferentes
A astronauta Sian Proctor trouxe talvez a reflexão mais alinhada ao espírito do Cannes Lions. Selecionada para uma missão espacial não apenas pela sua formação científica, mas também pelo seu trabalho como artista e poeta, ela defendeu que o futuro dependerá cada vez mais da colaboração entre ciência, tecnologia, criatividade e comunicação.
Talvez essa seja também uma boa definição para inovação.
As melhores ideias raramente surgem dentro de uma única disciplina. Elas acontecem quando mundos diferentes se encontram.
Na minha 14ª cobertura do festival, saí da sessão com uma sensação curiosa: o espaço não foi o tema principal daquela conversa.
Foi apenas o cenário utilizado para discutir inovação, criatividade e a capacidade de enxergar oportunidades antes de todo mundo.
Palais des Festivals, Cannes | Texto e Imagem: Guilherme da Luz, especial para o AcontecendoAqui
O que sua empresa pode aprender com isso
• As maiores oportunidades de inovação nem sempre surgem dentro do seu mercado.
• Tecnologias invisíveis precisam de histórias visíveis.
• Criatividade continua sendo uma vantagem competitiva em qualquer setor.
• As próximas plataformas podem nascer onde quase ninguém está olhando.
• Inovação sem colaboração raramente escala.
