Da publicidade à Broadway: como a IA está expandindo os limites da criatividade | Cannes Lions
27 de Junho de 2026

Da publicidade à Broadway: como a IA está expandindo os limites da criatividade | Cannes Lions

Musical inspirado na Crise dos Mísseis de Cuba apresentado em Cannes mostra como inteligência artificial e storytelling estão ampliando os limites da criatividade muito além das campanhas tradicionais.

 

 

CANNES, FRANÇA — Durante treze dias de outubro de 1962, o mundo viveu aquele que muitos historiadores consideram o momento em que esteve mais próximo de uma guerra nuclear. Após aviões espiões americanos identificarem mísseis soviéticos instalados em Cuba, a poucos quilômetros da costa da Flórida, o presidente americano John F. Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev iniciaram uma intensa negociação diplomática que manteve o planeta em suspense. Do outro lado da crise estava Fidel Castro, que via a presença soviética na ilha como uma proteção estratégica após anos de tensão com os Estados Unidos.

 

Mais de seis décadas depois, esse episódio histórico voltou aos holofotes no Cannes Lions 2026 — desta vez, de uma forma bastante improvável: como um musical da

Broadway criado para discutir criatividade, narrativa e o papel da inteligência artificial no processo criativo.

À primeira vista, parecia uma combinação improvável entre história, política e entretenimento. Mas bastaram alguns minutos para perceber que o verdadeiro tema da apresentação era outro: como a tecnologia está mudando não apenas a forma como produzimos criatividade, mas principalmente os formatos nos quais ela pode existir.

Para dar vida ao projeto, inteligência artificial foi utilizada na criação de storyboards, músicas experimentais, personagens e sequências visuais capazes de transformar uma ideia ainda inexistente em algo tangível para produtores, investidores e parceiros criativos. Não se tratava de substituir atores, músicos ou roteiristas. O objetivo era muito mais simples — e talvez muito mais revolucionário: permitir que uma visão deixasse de existir apenas na imaginação de seu criador e pudesse ser vista, ouvida e compreendida por

A criatividade deixou de caber em campanhas publicitárias

 

Durante décadas, a indústria publicitária se acostumou a medir criatividade em segundos de televisão, páginas de revista ou formatos digitais. Os limites eram relativamente claros: campanhas tinham começo, meio e fim, além de um espaço específico onde deveriam acontecer.

Hoje, esses limites parecem cada vez menos relevantes.

Uma ideia pode se transformar em documentário, série, experiência imersiva, podcast, jogo, instalação artística ou, como apresentado no palco de Cannes, até mesmo em um musical da Broadway. Talvez essa seja uma das transformações mais interessantes da indústria criativa nos últimos anos: a publicidade deixou de produzir apenas campanhas e começou a produzir propriedade intelectual, entretenimento e cultura.

Em muitos casos, a campanha já não é mais o destino final da criatividade. Ela passa a ser apenas o ponto de partida para algo maior.

A inteligência artificial está encurtando a distância entre imaginar e criar

Uma das observações mais interessantes do painel foi perceber que a IA não aparecia como protagonista da história, mas como facilitadora do processo criativo.

As músicas ainda soavam imperfeitas. Algumas vozes carregavam aquela artificialidade característica das ferramentas generativas atuais. As animações estavam longe da sofisticação de uma produção cinematográfica ou teatral.

Mas talvez seja exatamente esse o ponto.

O valor da tecnologia não estava na qualidade final do material produzido, mas na velocidade com que uma ideia podia ser visualizada, testada, ajustada e compartilhada com outras pessoas.
Há poucos anos, transformar um conceito de musical em algo minimamente tangível exigiria meses de trabalho, equipes especializadas e investimentos consideráveis. Hoje, um criativo consegue construir protótipos suficientemente convincentes para abrir conversas, captar investimento e acelerar processos que antes estavam restritos a grandes estúdios e produtoras.
Mais do que substituir criatividade, a IA parece estar democratizando o acesso à experimentação.

Storytelling continua sendo a tecnologia mais poderosa da indústria

 

Talvez o aspecto mais interessante da apresentação tenha sido justamente aquilo que ela não tentou fazer.

Não houve promessas sobre substituição de profissionais. Não houve previsões sobre o desaparecimento das agências. Não houve discursos sobre máquinas assumindo o controle da criatividade humana.

Pelo contrário.

A mensagem repetida ao longo do painel foi quase o oposto disso: nenhuma tecnologia substitui personagens bem construídos, conflitos interessantes ou histórias capazes de gerar emoção.

As ferramentas mudam.

Os formatos evoluem.

As plataformas aparecem e desaparecem.

Mas a capacidade humana de transformar informação em narrativa continua sendo o elemento que diferencia projetos esquecíveis de ideias que permanecem por décadas.

Na minha 14ª cobertura presencial do Cannes Lions, ainda me impressiona perceber como muitos dos grandes debates do festival acabam sempre retornando ao mesmo lugar. Depois de todas as revoluções tecnológicas, mudanças de plataformas e novas ferramentas, a indústria continua procurando exatamente a mesma coisa que buscava há cinquenta anos: histórias capazes de fazer as pessoas sentirem alguma coisa.

Talvez a inteligência artificial não esteja mudando essa realidade.

Talvez ela esteja apenas permitindo que mais pessoas contem histórias maiores do que antes conseguiriam imaginar.

O que sua empresa pode aprender com isso

● Inteligência artificial pode reduzir drasticamente o custo de testar novas ideias e formatos.
● Criatividade não precisa ficar limitada aos canais tradicionais de comunicação.
● Marcas podem pensar como produtoras de entretenimento e propriedade intelectual.
● Storytelling continua sendo uma vantagem competitiva difícil de automatizar.
● Empresas locais também podem usar IA para prototipar projetos que antes exigiriam investimentos inacessíveis.

📍 Palais des Festivals, Cannes | Texto e Imagem: Guilherme da Luz, especial para o AcontecendoAqui

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