CANNES LIONS 2026 | Entrevista com Flávia Martins, jurada da Categoria Sustainable Development Goals Lions
03 de Junho de 2026

CANNES LIONS 2026 | Entrevista com Flávia Martins, jurada da Categoria Sustainable Development Goals Lions

O Festival entendeu que criatividade vai além de produzir campanhas esteticamente sofisticadas. É sobre deixar legados.

Flávia Martins é jornalista, executiva, conselheira, Fundadora & CEO da Consultoria Diversidade Sustentável.

 

Testemunhe a criatividade ganhar vida no Cannes Lions, onde trabalhos inovadores são premiados e líderes de pensamento influentes sobem ao palco. Pessoas do mundo todo se reúnem no Festival, permitindo que você construa uma comunidade global, troque e celebre ideias e impulsione o crescimento com pessoas que compartilham os mesmos ideais. Independentemente do estágio da sua carreira criativa, o Cannes Lions proporciona aprendizados, experiências e conexões incomparáveis. Desta forma, o Cannes Lions Festival está convidando a comunidade para sua edição 2026.

O Festival Cannes Lions é onde toda a indústria global de comunicação criativa se reúne. Aproximadamente 12.000 profissionais de mais de 100 países são esperados no Palais of Festivals and Congresses of Cannes.

Jurados Brasileiros em Cannes

O AcontecendoAqui cobre presencialmente o Festival Cannes Lions desde 2013. Nas semanas que antecedem o evento, realizamos entrevistas com alguns jurados brasileiros que estarão lá no Festival julgando presencialmente os trabalhos que concorrem em suas respectivas categorias.

Hoje apresentamos nossa conversa com Flávia Martins é jornalista, executiva, conselheira, Fundadora & CEO da Consultoria Diversidade Sustentável. Flávia tem 30 anos de atuação no mercado, tendo liderado áreas estratégicas no Museu Afro Brasil (diretora executiva), no Pacto Global da ONU (CMO) e na TransUnion (diretora de marketing). Graduada pela UMESP, pós-graduada pela ESPM, certificada em conselho de administração pelo IBGC e em marketing analytics por Harvard, é autora de 13 livros e palestrante em temas como marketing, comunicação, diversidade, inclusão, mulheridades, ancestralidade e sustentabilidade. À frente da consultoria, apoia empresas na estruturação de estratégias, governança, desenvolvimento de lideranças, programas de diversidade e inclusão.

 

Qual é a sensação de ser jurada do Cannes Lions 2026?

A sensação é de uma responsabilidade que transcende o julgamento de campanhas, pois estamos falando da Sustainable Development Goals Lions (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Lions). E há uma enorme urgência nessa pauta, uma vez que temos apenas quatro anos até 2030.

Além disso, há também uma dimensão pessoal em ser jurada em Cannes que precisa ser ressaltada. Sou uma mulher negra em posição de liderança em um festival que reúne cerca de 13 mil pessoas. Nasci em um país que ainda sofre enormemente o impacto do racismo estrutural da colonização nas culturas afro-descendentes. Onde mulheres negras representam apenas 0,5% a 3% nos quadros das maiores empresas brasileiras. Chegar ao Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions como jurada não é apenas uma conquista minha. Até porque, para que o Brasil e outros países do Sul Global alcançassem essa representatividade, profissionais de enorme relevância na indústria, a exemplo da executiva criativa Raphaella Martins, fizeram enormes esforços coletivos. É um símbolo de que a criatividade, quando aliada ao propósito da indústria como um todo, pode abrir portas que até há poucos anos estavam praticamente trancadas.

Então a sensação é de reconhecimento, responsabilidade, urgência, esperança e uma profunda gratidão por estar aqui representando não apenas o Brasil, mas todos os meus ancestrais e profissionais pessoas que despertaram olhares de tomadores de decisão e seguem abrindo caminho para que essa indústria seja ainda mais diversa.

 

O que você aprendeu ou está aprendendo em Cannes?

Estou aprendendo que criatividade tem a capacidade de nos surpreender infinitamente. E que esse poder, quando aliado ao propósito, tem o potencial de escalar o bem a milhões ou bilhões de pessoas e seres.

Ao longo de 30 anos trabalhando em marketing, comunicação e sustentabilidade, eu sempre acreditei na criatividade como ferramenta de transformação. Mas estar aqui, vendo trabalhos de todo o mundo realmente mudando vidas, amplia essa crença de forma exponencial.

Ser inundada por essa diversidade de caminhos para o impacto – trabalhos que vêm de contextos diferentes, que usam linguagens diferentes, que chegam a públicos muito diferentes – prova que não há uma fórmula única. Mas posso afirmar que os que têm potencial de se destacar carregam uma essência em comum: escuta genuína. Nasceram de respeito pela dignidade das pessoas, empatia e coragem.

E estou aprendendo ainda mais sobre a responsabilidade coletiva. Porque quando estamos em uma sala com nossos pares integrantes do júri, nos entendendo naquele emaranhado de sotaques que trazemos de nossos diferentes países, quando presenciamos o impacto real de ideias – extrapolamos a ideia de agências ganhando prêmios. Nos entendemos como essa indústria que tem o papel determinante de construir sociedades mais justas.

E esse aprendizado certamente nos transformará como pessoas que refletem em grupos, que atuam com empatia em empresas, que reverberam esse olhar para muita, mas muita gente.

 

O Festival passou por grandes reformulações nas últimas edições. O que você poderia dizer sobre essas mudanças e o que foi avaliado em Sustainable Development Goals?

As reformulações que Cannes tem feito refletem uma evolução importante – não apenas do festival, mas da indústria como um todo. E essas mudanças são particularmente significativas em 2026. Há alguns anos, a categoria de Sustainable Development Goals não existia. Agora, ela é uma das categorias mais importantes do festival. Isso não é acaso. É porque o festival entendeu que criatividade vai além de produzir campanhas esteticamente sofisticadas. É sobre deixar legados.

E essas mudanças para 2026 são ainda mais profundas. O festival está reformulando como celebra a criatividade – não apenas reconhecendo campanhas isoladas, mas reconhecendo as estruturas, culturas e competências que tornam a excelência criativa contínua e inevitável. Com o novo Creative Brand Lion, por exemplo, Cannes está perguntando: “Quais são os inputs que tornam possíveis essas ideias inovadoras desde o início?” Está celebrando as práticas internas que transformam o potencial criativo em resultado comercial de longo prazo.

Também há mudanças significativas em relação à integridade. Após os desafios e denúncias relacionadas a IA em 2025, o festival introduz camadas adicionais de declarações de precisão factual, exigindo que as fontes sejam apresentadas no momento da inscrição, e usando inteligência artificial para realizar um estudo inicial de viabilidade.

Agora, em relação ao que é avaliado em ODS especificamente: para além da criatividade, buscamos impacto real e coragem criativa em ideias que têm o poder de se tornar parte de sistemas de longo prazo. E é por isso que 50% do peso das notas de julgamento dessa categoria é dedicado a impacto e resultados.

 

Atualmente a publicidade abraçou as ferramentas de IA. Na sua categoria está em alta?

IA está em alta em todas as categorias. Já em 2025, vimos cases de ODS que usaram IA de forma espetacular, amplificando impacto real. Processamento de dados de forma mais eficiente, otimização de recursos, alcance de mais pessoas. Esses são os exemplos que queremos ver em 2026. Quando IA serve a um propósito genuíno de transformação, ela é poderosa.

Uma pergunta que fazemos a cada case avaliado que utiliza IA é “A serviço de quê essa ferramenta se destina? Porque a IA pode amplificar a criatividade autêntica. Mas também pode amplificar greenwashing e purpose-washing, criando ilusão de impacto.

Por isso é tão interessante ver os avanços do festival em 2026, incluindo o lançamento da subcategoria “AI Craft” presente em todos os Leões de Craft (como Digital Craft e Film Craft). Ela reconhece, com transparência total, projetos que demonstram o ponto ideal pelo qual o pensamento humano e a inteligência artificial se unem para criar o que nenhuma das duas partes poderia fazer sozinha.

 

Você crê que as inscrições estão carregadas de trabalhos finalizados com IA? Em quais categorias isso mais apareceria?

Sim, acredito que há muitas inscrições que usaram IA em algum ponto do processo criativo. Isso é inevitável em 2026. Principalmente nas categorias que envolvem criatividade visual. Mas há uma diferença importante entre usar IA como ferramenta criativa e usar IA para criar ilusões de qualquer âmbito sem transparência.

Em ODS especificamente, meu olhar será crítico e direcionado para a IA usada para amplificar impacto real que transforme nossa existência nesse mundo, hoje tão desafiador e desigual.

 

Você poderia citar um grande trabalho que vai concorrer em Cannes neste ano?

Não posso citar trabalhos específicos que estamos julgando, mas posso falar sobre o que espero ver em Cannes. Espero ver trabalhos que vêm de agências que entendem que criatividade é ferramenta de transformação. Que não estão apenas fazendo campanhas, mas ajudando a devolver a possibilidade de futuros que possivelmente já não fariam parte de nossa passagem pela Terra.

E aqui, o Brasil tem um papel extraordinário. Em 2025, nosso país foi homenageado como o primeiro “Creative Country of the Year” da história do festival. Foi a segunda maior delegação em número de inscrições, com 2.736 peças enviadas. E já somos o terceiro país no ranking histórico de Leões, com mais de 1,9 mil prêmios conquistados. Na categoria de ODS especificamente, o Brasil conquistou 4 Leões e o Grand Prix em 2025 – demonstrando a relevância da criatividade brasileira.

 

Por que o Brasil valoriza tanto Cannes? Um dos países com maior número de inscrições, visitantes e leões.

O Brasil valoriza Cannes porque Cannes valoriza criatividade corajosa. E eese tipo de criatividade está no DNA brasileiro. É ancestral, nós sabemos. Nosso povo possui a habilidade ímpar de extrair potência da mistura e de subverter limitações estruturais para criar narrativas de forte apelo emocional e fluência cultural.

Para além disso, o Brasil valoriza conexões humanas. O nosso país tem consolidado uma presença incontestável nos principais palcos globais de mercado, posicionando-se frequentemente como a segunda ou terceira maior delegação em eventos que definem o futuro dos negócios e da criatividade. No Cannes Lions Festival of Creativity, o país fez história na edição de 2025 ao ser laureado como o primeiro “Creative Country of the Year” e registrar sua melhor performance histórica com 107 Leões (incluindo seis Grand Prix).

Mas a força brasileira é evidente em outros grandes fóruns. No SXSW (South by Southwest) que acontece em Austin, Texas, a delegação nacional figura há anos como a segunda maior do evento, superando recordes anuais de participação com dezenas de speakers oficiais. Essa presença massiva se repete em encontros como a Semana do Clima em NYC, o Mobile World Congress (MWC) em Barcelona, a NRF Retail’s Big Show e o Web Summit. O que impulsiona essa mobilização não é apenas o tamanho do mercado, mas a curiosidade intrínseca e a força do diferencial brasileiro: a capacidade de estabelecer conexões genuínas, transformando a presença física em networking estratégico e influência global.

 

O que é mais importante em Cannes? Ganhar um leão, palestras, conhecer pessoas?

Ganhar um leão é extraordinário. É reconhecimento. É validação. Mas não é o mais importante. O mais importante em Cannes é algo que nenhuma IA pode substituir: a presença. Pense em cerca de 13 mil pessoas reunidas ao longo de 5 dias de evento em junho.

Se considerarmos apenas o horário comercial – oito horas por dia – estamos falando de 40 horas. Estamos falando de 520.000 horas de CMOs, pessoas proprietárias e donas de agências, profissionais criativos, diretoras e diretores de marketing, CEOs de grandes corporações, gestoras e gestores de marcas, executivas e executivos de mídia e tech, jovens talentos.

A diferença é que essas horas não significam reuniões seguidas de reuniões e agendas extremamente engessadas. Significam muita vontade de saber o que é novo. Disponibilidade para relações iniciadas em conversas olho no olho, muitas vezes com os pés na areia. São um respiro em meio ao caos da pós-modernidade que nos consome ao limite.

 

O que você leva na bagagem para Cannes?

* Primeiro, ancestralidade: Carrego comigo e honro todas as pessoas que sobreviveram, lutaram, resistiram para que eu estivesse aqui. Meus ancestrais. Minha comunidade. Todas as pessoas que abriram caminho.
* Segundo, rigor: Vou questionar, pedir evidências, desafiar narrativas.
* Terceiro, humanidade: Vou reconhecer criatividade que realmente toca vidas – que nasceu de escuta genuína, que respeita dignidade.
* Quarto, as vozes de quem não pôde estar em Cannes. Escutei diversas lideranças sobre incômodos, tendências e dúvidas sobre a indústria e sobre a agenda 2030 composta pelos (agora 18) Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Cada pessoa estará na sala comigo quando eu estiver tomando as difíceis decisões.
*Quinto, uma pergunta que vou fazer a mim mesma todos os dias antes, durante e depois de Cannes: “Qual o tamanho da transformação e do impacto gerado a partir dessa maravilhosa ideia? Temos como ir além? A pessoa criativa está sendo fiel à essência da questão alvo da campanha? O trabalho tem como base a transformação desse mundo em que vivemos para um mundo mais humanamente possível?”

 

Uma mensagem final para os criativos brasileiros que estão se preparando para Cannes?

A criatividade brasileira nasce de uma necessidade visceral de transcender limites. Sempre construímos caminhos onde a lógica diz que não há possibilidades. Menos recursos, mais inventividade. Menos estrutura, mais refinamento criativo. Esse é nosso superpoder: transformamos restrição em linguagem, escassez em abundância de ideias. (Esses são fatos. Não estou romantizando e tampouco fazendo juízo de valor). Agora é o momento de levar essa força para cada categoria em Cannes. E renová-la em suas vidas, nas trocas ao longo dessa semana tão única. É hora de demonstrar que criatividade destemida também é criatividade com intencionalidade. Tragam aquelas ideias ousadas que vocês acreditam que podem regenerar o mundo.

E quando chegarem lá, lembrem-se da sabedoria de Washington Olivetto. Vou destacar duas frases desse mestre da publicidade brasileira para levarmos na bagagem: A primeira diz que “O sucesso sempre depende de disciplina, dedicação e algum talento. Mas também da escolha do lugar certo, no tempo certo.” Cannes demanda rigor técnico inabalável. O detalhe, a maestria, o ofício – tudo isso é inegociável. Olivetto ensinou que a verdade na comunicação é mais eficiente, que falar a verdade de uma maneira inesquecível é o que transforma tudo. E para encerrar, uma frase dele para despertar a coragem que insiste em se esvair de talentos brasileiros que são notáveis em reescrever realidades… “Uma das grandes coisas que impedem, muitas vezes, de se fazer coisas brilhantes é o medo e a busca excessiva de segurança.”

Nos vemos em Cannes.

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