Em um passado não muito distante, o melhor carnaval no imaginário das pessoas era, sem dúvidas, o do Rio de Janeiro. Com o passar dos anos e com investimento público, muitas cidades passaram a fazer um carnaval de respeito, inclusive São Paulo, que já foi maldosamente chamada de “o túmulo do samba”. Hoje o carnaval de rua da Capital paulista e de outras capitais atrai milhares de pessoas, mas tem tido dificuldade em atrair investimentos.
Com a crise econômica e a mudança do perfil de investimento público em todo o país, as prefeituras das cidades que realizam alguns dos maiores carnavais de rua do Brasil, passaram a negociar cotas de patrocínio, oferecendo exploração de mídia para marcas durante a festa. A ideia inicial era diminuir o impacto da crise sobre a maior festa popular do ano.
Se nos dois primeiros anos de carnaval “privatizado” tudo correu bem, em 2019, grandes cidades demoraram a conseguir recursos privados para o carnaval. Em São Paulo, somente no segundo edital aberto, poucas semanas antes do carnaval, é que a empresa “Arosuco Aromas e Sucos”, subsidiária da Ambev, fechou negócio. A companhia apresentou uma proposta de R$ 16 milhões e venceu a concorrência de exploração do carnaval de rua. De acordo com a prefeitura, foi o maior patrocínio da história do evento.
Em Florianópolis a prefeitura teve menos sorte e só conseguiu pequenos investimentos privados. Os benefícios econômicos do carnaval da cidade ficaram a cargo do bom e velho turismo na cidade. Em 2018, Florianópolis foi o segundo destino mais procurado no Brasil durante o Carnaval, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, segundo um estudo de uma empresa do setor de hospedagens.
Para 2020, a prefeitura da Capital catarinense já divulgou as regras para os blocos de rua e iniciou a busca por recursos privados. De acordo com a administração municipal, o objetivo da Instrução Normativa divulgada no final de novembro é orientar os organizadores em relação aos critérios para concessão de auxílio de estrutura material. O suporte será viabilizado pela empresa vencedora da licitação para organização da festa no Centro, e, mais uma vez, não terá investimento público.
Demonstrando pujança no período carnavalesco, Florianópolis alcançou uma taxa de ocupação de 81,7% dos leitos disponíveis nessa época. Desfiles de escolas de samba, blocos de rua, shows e festas exclusivas são algumas das atrações oferecidas aos turistas. Ainda assim, as empresas parecem reticentes em investir numa festa que, apesar de oferecer um potencial de exposição de marca sem igual, desagrada setores mais conservadores da sociedade e pode gerar um impacto ambiental negativo, a depender de como é feita.
Principal ponto negativo, poluição é desafio para o carnaval de rua
Em um primeiro olhar, expor uma marca no carnaval de rua de grandes capitais brasileiras é um negócio totalmente positivo e sem ressalvas. Mas, numa análise mais fria, nota-se que, além de não agradar setores mais conservadores da sociedade, o carnaval de rua gera muito lixo. Em 2019 o Brasil saltou para o 4º lugar no ranking mundial de países que mais produzem lixo plástico, justamente no período pós carnaval.
Muito do lixo produzido é composto justamente de materiais promocionais feitos com plástico ou papel. Outro agravante para a poluição em tempos de folia é que, por ser no final do verão no hemisfério sul, o carnaval costuma ser marcado por pancadas de chuva, que espalham o lixo jogado nas ruas e leva resíduos de plástico para o mar. Lidar com toda a poluição gerada pelas pessoas que participam da festa e conscientizá-las sobre o descarte correto de materiais são os maiores desafios das prefeituras e seus patrocinadores no período.
Essencial para as fantasias, glitter é vilão para o meio ambiente
Um dos componentes mais comuns em fantasias de carnaval é o glitter, uma espécie de microplástico granulado e revestido de brilho de diversas cores. O glitter é feito a partir de placas de PET ou de PVC, materiais conhecidos por ter lento processo de biodegradação. Por levar muito tempo para ser neutralizado pela natureza e oferecer um alto risco, sobretudo para a fauna marinha, o glitter está sendo banido em diversos lugares do mundo.
No Brasil não é diferente. A preocupação tem sido crescente, especialmente em cidades litorâneas, como Florianópolis. Especula-se que o glitter pode ser encontrado em alimentos e estudos já apontaram a presença do microplástico em fezes humanas, o que significa que o material tem sido ingerido involuntariamente. Para não estragar a festa dos foliões, empresas têm investido em produtos biodegradáveis, que oferecem o mesmo brilho e beleza sem afetar a natureza.
Existem também opções caseiras que produzem efeito semelhante. É possível encontrar uma série de receitas pela internet, para que a festa continue com a sua exuberância, sem grandes impactos ambientais. Pode parecer bobagem, mas um carnaval mais limpo pode ajudar a trazer cada vez mais empresas dispostas a associarem as suas marcas à maior festa popular brasileira.
