O Conselho Nacional de Justiça (CNJ ) lançou na última 2ª feira (1º de abril) uma campanha para combater as fake news sobre o Poder Judiciário. Tribunais de todo o país usaram as redes sociais para alavancar a hashtag #FakeNewsPerigoReal. O professor da Sustentare, Rodrigo Amorim, que é mestre em comunicação pela Cásper Líbero e estuda o fenômeno das Fake News, concedeu uma excelente entrevista, que mostramos a seguir, que aborda com profundidade pontos como os riscos e consequências para quem cria e compartilha notícias falsas. Confira:
AcontecendoAqui – Quais os riscos da disseminação de notícias falsas?
Rodrigo Amorim – Os riscos são variados, mas quase todos muito graves. É preciso compreender que hoje as redes sociais, elas têm sido a principal fonte de informação do brasileiro médio. E não só do brasileiro, isso acontece em quase todos os países do mundo com acesso a rede social, seja o Instagram ou até mesmo o Whatsapp, que muitas vezes não levamos em conta como uma rede social, mas é.
Com a velocidade da informação, com a necessidade rápida de tomada de decisão, e principalmente com a cultura que nós criamos de compartilhar mensagens, mensagens que basicamente dizem aquilo que nós gostaríamos de dizer, ou que confirmam um pensamento nosso, nós acabamos reproduzindo uma série de notícias sem se preocupar com a gravidade ou a profundidade do impacto que aquela notícia pode ter na vida de alguém, no cotidiano das pessoas, na manutenção de uma sociedade como um todo.
Então nos últimos anos, as Fake News têm feito, por exemplo, os índices de vacinação diminuir. E por consequência, algumas epidemias antes erradicadas, podem voltar. No Brasil, por exemplo, estamos prestes a perder o selo de erradicação do sarampo. E algumas dessas correntes antivacina, elas ganham exatamente força na internet, por quê? Por que se nós somos uma sociedade digital, nós temos a cultura do compartilhamento. E essas notícias normalmente vem dentro de uma construção fantástica, despertam o medo, geralmente tem um título que é sensacionalista e tem uma chamada de ação (“compartilhe antes que saia do ar”, ou “a verdade que determinado canal ou pessoa quer esconder”). E as pessoas acabam compartilhando indistintamente, sem pensar que estão contribuindo para a formação de opinião errada, porque aquilo é “fake”, é falso.
Para algumas pessoas que já tem uma opinião um pouco mais favorável, uma tendência àquela narrativa, então elas vão confirmar aquela tendência.
Do ponto de vista político, temos visto o tempo todo discussões a respeito de como as fake news atrapalham os rumos da democracia. Como as mentiras podem atrapalhar uma agenda de discussão de propostas reais.
Do ponto de vista pessoal, as fake news podem ser destruidoras de reputação, de biografias. Porque é possível você tramar contra determinadas pessoas e tentar tornar aquilo factível.
Geralmente, por trás das fake news, há sempre uma intenção. Ela não é algo inocente, e há uma indústria de fake news, que é movimentada por contas falsas, por contas automatizadas, que são os robôs.
AcontecendoAqui – Quais as consequências para quem produz e para quem compartilha?
Rodrigo Amorim – Já existem as delegacias contra os crimes virtuais, porém as fake news elas já são enquadradas, de certa forma, dentro dos dispositivos legais. Ou seja, uma pessoa que venha a cometer, por exemplo, o crime de calúnia ou difamação, independente do meio que ela escolheu, continua sendo calúnia ou difamação.
É muito comum que as pessoas pensem que a internet é terra de ninguém. Porém, quando você se cadastra em qualquer rede social ou mesmo pelo Whatsapp, há um cadastro, há um registro da pessoa. Então, a pessoa pode sim ser responsabilizada, tanto por ter iniciado um processo de difamação, ou de calúnia, ou ela pode ser indiciada pelo fato de ter compartilhado.
Há uma série de leis hoje que tramitam no Congresso exatamente para poder tipificar os crimes relacionados a fake news porque ele está num meio mais recente, a internet. Porém, incitação ao ódio, racismo, calúnia e difamação já são crimes, independentemente do meio em que ocorrem.
Muitas pessoas costumam dizer: “mas eu só compartilhei”. Há sim uma corresponsabilidade no compartilhamento, porque quando nós enviamos uma certa mensagem, por exemplo, para um grupo de família, nós de certa forma estamos endossando. E quando compartilhamos, gera um IP, e via IP é possível saber daquela célula que está ajudando a fomentar aquela informação.
AcontecendoAqui – Como identificar uma notícia falsa?
Rodrigo Amorim – Existem uma série de indícios que as pessoas podem atentar para saber se aquilo é uma fake news ou não, a começar pelo título da matéria.
Títulos extremamente caóticos, que provoquem medo, indignação, ódio, quase sempre são textos de uma fake news. Dificilmente uma linha editorial, um jornalista sério, ele vai se valer do medo, do terror, do nojo, do caos, para conseguir atenção. Então quanto mais fantasiosa a narrativa e o texto, mais chance de ser uma fake news.
Em segundo lugar, a questão da chamada para ação. Os meios de comunicação, as mídas, sejam elas tradicionais ou alternativas, elas vão constuíndo o seu público com base na sua relevância. Então, chamadas para ação como: “compartilhe antes que saia do ar”, “essa é a informação que estavam tentando tirar, que já proibida, que já foi retirada da internet e nós estamos colocando de volta”.. desconfie! Nós não estamos vivendo uma época de censura. E não é assim, não é tão simples assim que uma postagem ou um tema seja retirado do ar. Isso leva tempo, isso leva um processo. Então, esse tipo de chamada para ação que pede para que você ajude dificilmente viria de um texto sério. Já é um grande indício de fake news.
Falando em Whatsapp, ele normalmente não tem um link, tem só uma imagem, um meme, uma montagem, e um texto que atribui uma ação para alguém. Na dúvida, como não vem uma fonte junto para que você possa consultar, pegue exatamente a frase, que normalmente é uma frase que acusa alguém, pegue essa frase e jogue no seu buscador. Se não apontar para nada, ou para um único blog, uma única postagem, não ter como ser um furo jornalístico por muito tempo, isso também é um indício forte de fake news.
Outro indício é a postagem anônima. Esse anonimato interessa a alguém, uma grande possibilidade que seja fake news.
Uma outra questão importante é a data em que foi postada. Na época em que foi publicada, aquela notícia talvez fosse verdadeira, mas quando se traz para o contexto atual, de tensão, a característica se torna completamente outra.
Esta entrevista contou com a colaboração da jornalista Mariana Pereira
