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“Os seios da rainha”
22 de Março de 2011

“Os seios da rainha”

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1. Tudo começou quando viu, pela primeira vez, de perto, aquele decote do vestido da Rainha.

 
Apertadinhos, lindos, aparentemente durinhos, provocantes, fizeram ele sucumbir de desejo.
 
A partir da noite daquele dia, não dormiu mais. Fechava os olhos, e lá vinha a imagem deles.
 
Junto com ela, uma vontade enorme de beijá-los.
 
Fez de tudo para esquecer isso, mas o desejo só crescia.
 
Ocorreu-lhe, então, falar com o médico da corte.
 
“O senhor precisa dar um jeito nessa minha obcessão, doutor.”
 
O médico bem que tentou.
 
“Não tem jeito, meu filho. Não há medicamento que resolva o seu caso.”
 
“Então, doutor, arranje um jeito de me fazer matar minha vontade.”
 
“Cê ta louco? Imagine se o rei descobre isso. Nós dois seremos enforcados.”
 
“Mas sempre tem um jeito, doutor. Olha, se o senhor achar um, eu lhe pago vinte mil dólares.”
 
O papo ficou nisso, mas aquela cifra não saiu da cabeça do médico. Que, de olho nisso, inventou um pó.
 
Confirmou a oferta, e foi à luta. Um dia, em uma consulta com a Rainha, mandou que ela tirasse o soutien.
 
“Preciso ouvir melhor seu coração.”
 
Enquanto ela se despia, pegou o dito cujo e espargiu nele o pó que inventara.
 
Naquele dia mesmo, a Rainha começou a sentir uma enorme coceira nos seios.
 
Chamado, o doutor deu o veredito:
 
“Pra esse tipo de coceira, só tem um jeito: chamar o Secretário do Reino, que tem um tipo especial de saliva. Se ele concordar em lamber os seios dela, estará curada."
 
O Rei não pestanejou. Chamou o Secretário e determinou:
 
“Vá lamber os seios da Rainha.”
 
Primeiro, o Secretário fez aquela cara de espanto. Depois, deitou e rolou.
 
Dia seguinte, o médico o procurou.
 
“Cadê a minha grana?”
 
“Que grana?”
 
“Os vinte mil que você me prometeu.”
 
“Você ta louco? Não vou lhe pagar nada. Vá reclamar pro Rei.”
 
Indignado, o médico foi a forra. No dia da consulta com o Rei, mandou que ele tirasse a cueca e a encheu daquele pó.
 
2. Quando eu entrei na Queijaria, vi o jovem publicitário sentado lá no fundo. Calado, entremeando rapidamente um gole de cerveja, outro de cachaça.
 
Totalmente oposto ao jovem de outros dias.
 
3. Perguntei ao Adelar:
 
“O que há com ele?
 
“Não sei. Hoje ele está assim. Tentei começar um papo, não adiantou. Só quer beber.
 
4. Mas por alguma razão ele quis falar comigo. Aproximou-se da mesa onde eu tomava a minha e Deborah saboreava o sensacional risoto da casa, puxou a cadeira e sentou-se.
 
“Preciso contar pra alguém, e vai ser pra você”, disse com aquele jeito que a gente fica quando passa da conta.
 
E foi logo contando.
 
5. “Criei uma campanha sensacional par um Cliente da Agência: título, texto, sugestão de layout – tudo.”
 
“O pessoal da agência amou. O cliente, então, delirou. Era uma campanha feita para realmente alavancar as vendas e a marca dele.”
 
“Só o diretor de arte detestou. Ele não criou nada. Só fez o que eu mandei.”
 
“Hoje fui ver o primeiro anúncio nos jornais. Saiu isto.”
 
6. Tirou do bolso um recorte todo amassado e mostrou: todo borrado. O título bem escondido. O texto ilegível.
 
“O diretor de arte me traiu. Fez o layout que pedi e finalizou outro. Isso aí.”
 
Riu o riso de bêbado e começou a chorar.
 
7. Tive vontade de contar pra ele a história dos Seios da Rainha. E de sugerir que ele também conseguisse aquele pó, espargisse na bunda do cliente e espalhasse que só a saliva do diretor de arte conseguiria curá-lo da coceira. 
 

 

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