A propósito da cerimônia do Oscar no próximo domingo, vou falar aqui de Lady Bird, o filme da Greta Gerwig. Não sou crítica de cinema, logo, reformulo. Vou falar da menina que nasce no interior e quer ganhar o mundo, a propósito de Lady Bird.
A menina que nasce no interior tem a intenção de ganhar o mundo desde criança. Espera ansiosamente a hora de fazer faculdade na capital do estado. Viaja com o pai no último dia da inscrição para o vestibular e, sozinha, descola um pessoal às voltas com um cambista de inscrição, para furar a fila gigantesca. Ora, já fez estágio de pequenas espertezas com a galera do interior, e não vai ser na Capital que vai perder o mundo.
Em seu baile de debutantes, tem delírios de grandeza ao dizer para o diretor social colocar no livreto o seu sonho de estudar no exterior. Ela vai às boates do clube pensando nas danceterias badaladas da Capital, que os amigos mais liberados já foram. E fica maluca com os shows internacionais que nunca vai. Só de vez em quando foge para as boates das cidades próximas, a mesma porcaria. Ela não briga com a mãe, mas mente um pouquinho nesses prazeres, porque a menina que nasce no interior merece experimentar o mundo.
Torce que tenha greve na escola pública para viajar à casa da tia, numa cidade longe e maior, onde já tem uma turma para estender a madrugada ao máximo. Ela adora ganhar roupas compradas nos grandes centros. E seu pai já disse que sexo na cidade pequena, não, pois os fantasmas da gravidez adolescente rondam o lugar e, com certeza, impedirão sua chegada à Capital.
A menina chuta física e matemática, e não sabe como, mas passa. Ganha trote no festival da canção, daqueles amigos que iam aos shows fora, e se sente linda com uma faixa na cabeça, manchas de batom, ovo e farinha, a única que passou no vestibular.
Ao chegar à rodoviária da Capital, esquiva-se de um menino da sua idade, assaltante, quiçá estuprador. Mora num pensionato de freiras, iguais aquelas do antigo colégio. Fica tão doente que pensa que vai morrer, sendo socorrida por uma amiga da mãe do ataque de um vírus louco que pega as meninas chegadas do interior. Orgulha-se dos toques da campainha, dois longos, quatro curtos e dois longos, quando chamam ao telefone a estudante badalada do quarto 242, que todos os sábados vai só comer lasanha na casa da tia da Capital.
Ao descer do táxi para sua primeira viagem de retorno, percebe que esqueceu as passagens, e perde o ônibus para o interior. No orelhão, o pai diz que volte ao pensionato e passe o fim de semana por lá. Ela sobe os degraus do transporte urbano atrapalhada com três malas enormes, cheias de roupa para lavar em casa, e sabe mais o quê. E aí tem o mesmo sentimento do filme:
− Sim, Lady Bird, bem sucedida serás.
Cris Vazquez é escritora, Mestre em Literatura pela UFSC e advogada pública. É autora do romance O abismo entre nós (Editora Moinhos) e participa das coletâneas de contos Onisciente contemporâneo e Translações singulares.
Site: www.crisvazquez.com.br onde você encontra seus livros.

