Sorte do céu…
23 de Novembro de 2017

Sorte do céu…

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“Algumas crianças crescem correndo na grama. Outras comendo o pó de um chão batido. E muitas, cada vez mais, assentadas na fofura de um sofá.

Eu, acreditem ou não, cresci equilibrada sobre uma montanha de gibis, livros e revistas que meu pai, dono de uma indústria de papel, recebia na época pra reciclar.

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De tonelada em tonelada de páginas viradas, aos 6 anos já era alfabetizada.

Com 20 anos, me despedia da UFSC, já graduada.

Certamente, uma formação privilegiada.

Então imaginem minha surpresa ao perceber tudo o que o “mano” Severo teria pra me ensinar com uma trajetória tão antagônica a essa, permeada por desafios extremos como a saudade de um pai que ele nem ao menos conheceu, a distância do estudo durante toda a infância, sem contar a privação do ritual mais banal, com a tardia emissão da primeira identidade.

Antunes Severo cresceu migrando de parente em parente, morando do quartel do exército ao quartinho improvisado no estúdio de uma rádio. 

Cresceu analfabeto, o que não o privou de chegar a Mestre em uma universidade pública. Ou mais recentemente, ao rol de cultos da Academia Catarinense de Letras e Artes.

Cresceu em sabedoria por 85 anos.

Cresceu em virtudes. E aqui a lista é gigante!

Sobra humildade, gratidão, respeito à opinião contrária e um talento único pra delegar tarefas com total confiança no desempenho dos outros.

Sobra exemplo, pela trajetória pró-ativa de quem nunca desistiu dos desafios, nunca priorizou o lamento em detrimento da luta, e nem nos momentos de glória deixou de reconhecer que uma família unida é o maior patrimônio que podemos ostentar.

Galã da rádio na época de ouro das radionovelas e programas de auditório, pioneiro da publicidade e fundador da agência A.S. Propague, professor universitário, executivo da comunicação, Secretário de Estado da Comunicação, fundador da ADVB-SC, Severo já era “fora da caixa” antes mesmo de inventarem a caixa. E é por isso que todos, privilegiados pelo seu convívio, o guardam na caixa forte do coração.

Obrigada, professor Severo, por teres sido tão pouco “severo” comigo e permitido todas as minhas intromissões nas tuas lembranças, durante a redação da biografia “O menino do arroio Itapevi”.

Amei te ver tão forte, recebendo dúzias de títulos e homenagens,
E amei te ver tão fraco, agora no dia 7 de outubro, no Nosso Lar de Forquilhinhas,
pela chance de confirmar o que eu já sabia: que nem a dor nem o tempo macularam a curiosidade flamejante dos teus olhos azuis, a ternura das tuas palavras e a dignidade das tuas lições.

Sorte do céu, que celebra nesta quarta a chegada do Severo.”

 

Essa é uma homenagem do AcontecendoAqui, com texto de Ana Lavratti, colunista do portal e autora da biografia “Antunes Severo, o menino do arroio de Itapevi” (Editora Insular, 2012).

 

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