Juntamente com brilhantes exposições dos professores de cinema da UFSC Mauro Pommer e do José Cláudio Castanheira tentei colaborar no II Colóquio Cinema, Literatura e Materialismo Histórico falando sobre minha pesquisa no cinema catarinense. O evento trouxe outros participantes maravilhosos como: a cineasta Suzana Amaral, e os professores Paulo Pinheiro Machado, Ricardo Muller, Berthold Zilly e as professoras Ana Lice Brancher e Juliana Viggioto. Todos eles geniais em seus trabalhos. Um evento para muitos espectadores, muito embora tenha sido prejudicado pelo ataques aos ônibus na cidade, mas que não tirou o brilho do evento coordenado pelos professores Alexandre Busko Valim e Márcio Roberto Voigt e promovido pelo Núcleo de Estudos de História e Cinema – NEHCINE/UFSC do Programa de Pós-Graduação em História. A todos, meus cumprimentos pelo maravilhoso evento. Minha singela colaboração está transcrita abaixo.
Cinema e História em Santa Catarina
Quando propus a realização da dissertação de Mestrado no Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 1994, tinha a intenção de provocar uma aproximação interdisciplinar da História com o cinema através do resgate da vida e obra de dois pioneiros do cinema catarinense: José Julianelli e Alfredo Baumgarten. Na verdade, tinha muitas dúvidas e nem mesmo sabia da existência de todos esses filmes que tive o prazer de encontrar, conhecer, catalogar e estudar. Se me perguntarem se as dúvidas aumentaram depois da realização deste trabalho, não sei bem, mas confesso que cresci. Lembro reflexão do cineasta português Manoel de Olivieira, “Cresci ao longo de um século acompanhando o cinema, mas hoje sei que foi o cinema que me fez crescer”. Naquela época, conhecia apenas alguns filmes de Julianelli, quando fiz uma pesquisa nos tempos da Faculdade de Jornalismo da UFSC com outros companheiros. Este primeiro contato, embora superficial e extremamente baseado na pesquisa da blumenauense Edith Kormann – uma outra pioneira que praticamente vasculhou todos os jornais publicados no município de Blumenau – me instigou bastante e desde 1986 guardava a vontade de me aprofundar mais neste assunto.
A pesquisa, que foi um primeiro levantamento das produções cinematográficas catarinenses desde o início do século até os anos 80, acabou sendo publicada pela Embrafilme e a Editora da UFSC com o título O cinema em Santa Catarina[1]. A partir daí, criamos a Cinemateca Catarinense, sob a forma de uma Associação – uma vez que o Estado nunca mostrou interesse para salvaguardar a memória da sociedade – reunindo pessoas interessadas em pesquisar e, sobretudo, realizar cinema. Neste sentido, a Cinemateca Catarinense teve grande importância. Juntamente com a UFSC, que abrigou e apoiou institucionalmente o emergente movimento, a Cinemateca é a nossa referência. São elas as responsáveis pela nova geração de curtas-metragistas que então surgia e, hoje, doze anos depois, já conseguiu formar uma filmografia consistente e respeitada. Neste âmbito, a pesquisa ficou um pouco esquecida. A preferência foi pela realização – um fato normal. Mesmo assim, nenhum de nós perdeu o sentido do valor, da necessidade e também dos inúmeros desdobramentos que aquela primeira pesquisa podia e ainda pode gerar. Eu, particularmente, continuava com interesse em retomar aquela pesquisa inicial. No documentário que realizei em 1996 sobre a Ponte Hercílio Luz, apresentei cenas de Florianópolis registradas por Julianelli e Baumgarten – as quais havia encontrado na Cinemateca Brasileira – já como trabalho da minha atual pesquisa.
Mas que fatos ou forças levaram duas pessoas tão próximas e, paradoxalmente, distantes, nas primeiras décadas do século em Santa Catarina, a registrar em cinema (uma atividade tão rara em nosso Estado) essa região e os eventos a ela inerentes? Quantos filmes ainda se poderia encontrar e ver? Essas questões me fascinavam e acabaram sendo definitivas na minha pretensão de ir um pouco mais adiante naquela pesquisa inicial. Mas por que o curso de História? E foi aí que apareciam outras perguntas. Por que os historiadores quase nunca se debruçaram sobre o documento cinematográfico? Em Santa Catarina, apenas a autora Edith Kormann fez um primeiro e importante levantamento. E quanto mais me aproximava do trabalho a que me propusera sentia as dificuldades de me embrenhar por um campo tão pouco percorrido pelos historiadores. Se, por um lado, a pequena existência de obras de referências ou mesmo iniciais nesta área me perturbava, esta também foi uma das forças que me levaram adiante.
São inúmeras as maneiras como Cinema e História se inter-relacionam nesta imbricada existência de um século. As duas áreas podem estar associadas de diversas formas: a história do cinema, o cinema como documento histórico, a História como suporte para a realização cinematográfica, a história no cinema, entre outras relações.
A minha pesquisa pretendeu proporcionar a utilização do cinema como documento histórico a partir da obra de José Julianelli e Alfredo Baumgarten – dois pioneiros do cinema catarinense. Os dois cinegrafistas atuaram principalmente na região do Vale do Itajaí, deixando um importante acervo de registros cinematográficos dos anos 20 e 30. Deste período, ou ainda um pouco anterior a ele, puderam ser encontrados também alguns filmes de outros imigrantes como Julianelli, ou cenas militares como as realizadas na região do Contestado, ou filmes de encomenda realizados por profissionais de outros Estados. Mas Julianelli e Baumgarten foram os únicos que, estabelecidos em Blumenau, realizaram um trabalho mais sistemático, contínuo e duradouro no que se refere à produção cinematográfica no Estado. Centrado no legado desses dois protagonistas, o meu trabalho procura contextualizar o período de suas filmagens, abordando suas vidas, inventariando os filmes que sobreviveram ao tempo – e, neste sentido, encontrando algumas preciosidades.
“Tendo visto a luz do dia em um século que contou a história de todos os séculos,
a imagem filmada vai se tornar um instrumento da história e um objeto de investigação.”Jean Claude Carrière [2]
É sempre bom lembrar a importância do cinema ou de outros formatos gerados a partir da Sétima Arte como um dos principais meios de comunicação de massa que dominam o século XX. Marshall MacLuhan acrescenta um elemento importante neste raciocínio: o cinema apela para as emoções, mexe com os sonhos. O autor coloca que a Sétima Arte engendra duas especificidades paradoxalmente importantes: “O cinema não é apenas a suprema expressão do mecanismo; ele oferece como produto o mais mágico de todos os bens de consumo: os sonhos”[3].
É necessário destacar alguns autores e artigos que reforçaram a compreensão do cinema, e outros formatos gerados a partir dele, como importantes veículos de comunicação de massa. Um dos mais lúcidos e provocantes foi, sem dúvida, o livro do dramaturgo e roteirista francês Jean-Claude Carrière: A linguagem secreta do cinema. O autor mostra a importância do século XX por ter, através da criação de uma nova arte (fato que, para ele, já é motivo de orgulho), colocado um novo espelho diante da humanidade. Carrière, embora admita que vivemos num tempo “imagético”, também faz seus questionamentos:
“E para que servem as imagens? Não sabemos bem. Ninguém jamais se deu ao trabalho de nos contar. Será que passamos a nos conhecer melhor, nos tornamos melhores vizinhos? Que piada! Para ganhar algum dinheiro, sim, certamente; para matar o tempo; mas também para que nos tornemos iguais a todo mundo. Quem não acredita estar vivendo hoje em dia na civilização da Imagem? Dizem-nos isso sem parar, e nós repetimos. Estamos permanentemente rodeados de imagens, em casa, na rua, no carro e no metrô; até se constroem paredes de imagens e logo a holografia vai nos proporcionar casa e edifícios de imagens. Um planeta de imagens. Imagens que se movem, falam, fazem barulho. Imagens que fazem esquecer (sem fazer nada para curar) nossa sensação de solidão.” (CARRIÈRE, 1995,p.137)
Carrière, discípulo de Luis Buñuel, ainda prevê que daqui a poucos anos será muito difícil estudar história sem recorrer ao cinema e às imagens de televisão. A “imagem-registro, a imagem-arquivo, a imagem-história”, por muito tempo desprezada, com a inauguração de novos arquivos e a ampliação de diversas cinematecas, e também de outros meios de armazenamento, como o da videoteca de Paris, em 1988, dá sinais de durabilidade e abre uma era dos arquivos acessíveis. Para ele, o processo está bem adiantado, até mesmo entrou na moda, e daqui a alguns anos será impossível estudar a história desse século sem recorrer ao audiovisual[4].
Flávia Cesarino Costa, em sua obra O primeiro cinema, mostra a importância do cinema, colocando-o como uma das linguagens mais populares do planeta. A autora situa o cinema com a fisionomia do século XX, explicando que a convivência com seus códigos audiovisuais é hoje tão intensa, cotidiana e disseminada que é quase impossível identificá-los. Para ela, é mais difícil ainda se manter isolado de suas influências ou de suas derivações: “elas invadem nossas vidas com tal força que nos obrigam a participar de seu fluxo de informações praticamente sem possibilidades de escapar delas”[5].
Mônica Almeida Kornis enfatiza, em seu artigo intitulado “História e Cinema: um debate metodológico”, a impossibilidade de se ignorar o impacto causado pela invenção e o desenvolvimento do cinema e outros meios de comunicação de massa na sociedade do século XX. Como produto industrial, fabricado em série, reproduzível e destinado às massas, “o cinema revolucionou o sistema da arte, da produção à difusão”[6].
“O filme entra na História por todas as portas. Refaz a História, ajuda a recontar o passado, torna-se a própria História.” Jean-Claude Carrière[7]
Se, em princípio, o cinema como documento histórico é um mundo pouco explorado possa parecer temeroso, é sempre instigante percorrer campos desconhecidos, conhecendo seus caminhos.
São inúmeras as questões com as quais se depara o historiador que aceita o desafio de trabalhar com a imagem cinematográfica como documento de pesquisa. Apesar da imersão total da sociedade contemporânea num mundo de imagens, a pesquisa com documentos visuais, mais especificadamente com o cinema, pode ser considerada uma proposta de trabalho inovadora e ousada.[8]
Uma das primeiras respostas que ocorrem é sintomática: a de que os historiadores não foram treinados a lidar com o documento visual, principalmente o cinema – uma arte de apenas cem anos. O historiador francês Marc Ferro lembra que “o cinema não era nascido quando a História se constituiu, aperfeiçoou seus métodos, parou de narrar para explicar”[9]. Por isso também, segundo ele, o desprezo dos cidadãos letrados, no início do século XX, pelo invento. Na verdade era também o medo e a inexperiência no contato com a desconhecida e emergente “Sétima Arte” que provocavam esta recusa. Ferro reconhece que o filme não faz parte do universo mental do historiador por uma recusa em enxergar, “uma recusa inconsciente, que procede de causas mais complexas”[10].
É compreensível que, tradicionalmente trabalhando com documentos escritos, os historiadores, num primeiro momento, não se sentiriam muito à vontade em trabalhar com imagens que passaram a representar o instrumento de comunicação principal de uma cultura que se transformava de letrada para icônica. Naquele período, a escrita era considerada a instância máxima no que diz respeito à aquisição de conhecimentos. Mesmo a pequena parcela de historiadores que fazia uso das imagens em trabalhos relativos à história da arte, por exemplo, tratavam-nas como meros elementos ilustrativos, normalmente associadas a algum tipo de legenda, comuns numa cultura letrada. Ferro lembra ainda que, no início do século, o filme era considerado como uma espécie de atração de feira, o Direito nem sequer lhe reconhecia um autor: “A imagem não poderia ser uma companhia para esses grandes personagens que constituem a sociedade do historiador; artigos de leis, tratados de comércio, declarações ministeriais, ordens operacionais, discursos”[11]. A cineasta e pesquisadora Aline Sasahara de Oliveira explica esses “grandes personagens”, quando se refere, em sua pesquisa de mestrado, os “oficializadores da informação, que vêm fazendo da história, a memória dos grupos dominantes e seus representantes oficiais”[12].
Porém, ainda nos dias de hoje, passados mais de cem anos de existência, os filmes são utilizados de maneira secundária pelos estudos históricos, não passando, em muitas vezes, de mero elemento ilustrativo. Esta constatação traz à tona outros questionamentos, que são colocados também por Mônica Almeida Kornis como pontos centrais para o historiador que quer trabalhar com a imagem cinematográfica, quais sejam: o que a imagem reflete? Ela é a expressão da realidade ou é uma representação? Como é possível avaliar a manipulação da imagem[13]?
É verdade que, ao longo das décadas de 60 e 70, com a chamada “Nova História”[14], que possibilitou transformações em conceitos tradicionais do que é a História, dando ênfase à multiplicidade das fontes a serem utilizadas na pesquisa histórica e ampliando o conceito da palavra “documento”, tais questões começaram a ganhar espaço e o filme começou a ser compreendido, pelo menos por alguns historiadores, como uma fonte importante de pesquisa histórica.
Entre o grupo está Jacques Le Goff, um dos representantes deste movimento de renovação da historiografia francesa, que, enfatizando a necessidade de crítica ao documento, coloca também um princípio básico para o estudo do cinema como fonte histórica: o filme, como o documento e o monumento, resulta dos esforços de representantes das sociedades para impor ao futuro, voluntária ou involuntariamente, determinada imagem de si próprias. Assim, não existe um documento (filme) verdade. Para Le Goff, “O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é monumento”[15].
Nesse contexto, o cinema (em todos os seus gêneros) começa a se inserir nos autos dos estatutos de fonte para a compreensão dos comportamentos, das visões de mundo, dos valores, das identidades e das ideologias de uma sociedade ou de um momento histórico. Isto significa que o filme pode tornar-se um importante documento para a pesquisa histórica, na medida em que relaciona, com o contexto histórico-social no qual foi produzido, uma série de elementos inerentes à própria linguagem cinematográfica. Neste ponto reside outra dificuldade para o historiador, pois a expressão cinematográfica pressupõe o conhecimento de uma gramática própria desta linguagem, formada por planos, enquadramentos, posição de câmera, composição e outros elementos semióticos, que na maioria das vezes, não fazem parte do universo do historiador.
A partir da compreensão das considerações expostas, é importante entender que o filme, seja ele natural, atualidades, cinejornal, documentário ou de ficção, não é uma reprodução da realidade; ele a reconstrói a partir de uma linguagem própria, que é produzida num dado contexto histórico.
Embora poucos historiadores tenham demonstrado interesse ou suficiente percepção das questões necessariamente envolvidas para enfrentar o material audiovisual, é bom lembrar, sem querer tirar o estímulo de ninguém, que a utilização da imagem pelo historiador pressupõe uma série de questionamentos que vão muito além de uma primeira atração que os documentos visuais normalmente causam. Neste caso, a preocupação principal do historiador é a de reeducar o olhar de modo que lhe possibilite uma leitura das imagens – é a visão crítica do documento à qual se refere Le Goff.
As novas abordagens sobre a relação entre Cinema e História possuíam alguns pontos em comum. Um deles é a certeza de que qualquer gênero de filme – seja ele atualidades, cinejornais, documentários ou ficção – é um objeto de análise para o historiador. Como elemento básico desta consciência está a recusa do princípio pelo qual a imagem é reflexo imediato do real. O outro é o reconhecimento de que, tratado como documento histórico, o filme requer a formulação de novas técnicas de análise que dêem conta de um conjunto de elementos que se interpõem entre a câmera e o evento filmado. Trata-se da reeducação do olhar do historiador.
Criticando certos historiadores, ao colocar que “o filme não faz parte do universo mental do historiador”, Marc Ferro demonstra que um filme pode constituir um documento para a análise da sociedade. Ele mostra sua identidade com a filosofia da “Nova História”, demonstrando a importância do filme como fonte reveladora das crenças, das intenções e do imaginário do homem. Embora seu nome não tenha um vínculo direto com este grupo, o autor afirmou seu interesse pelos novos caminhos abertos pela “Nova História”, como a História das Mentalidades e a História do Imaginário.
Um filme é também um agente da História, e não apenas um produto. Este foi outro ponto importante nos estudos de Ferro, pois demonstrou que, sob a aparência de representação, desde sua origem, os filmes serviram à doutrinação e à glorificação. Simultaneamente, segundo ele, desde que os dirigentes políticos compreenderam as funções que o cinema poderia desempenhar, eles se apropriaram do veículo, colocando-o a seu serviço. Os primeiros exemplos desta sua constatação foram os inúmeros filmes de propaganda realizados durante a Primeira Grande Guerra Mundial. Mas os principais modelos que imprimiram ao cinema um estatuto privilegiado de propaganda e de formação de uma cultura paralela foram os soviéticos e, posteriormente, os nazistas.
Para Ferro, o filme revela aspectos da realidade que ultrapassam o objetivo do realizador, explicando ainda que, por trás da imagens, pode-se verificar a ideologia de uma sociedade: “O filme não vale somente por aquilo que testemunha, mas também pela abordagem sócio-histórica que autoriza”[16].
“A fotografia em si, o filme em si não representam, tanto quanto qualquer documento velho ou novo, uma prova de verdade. Toda a crítica externa e interna que a metodologia da história impõe ao manuscrito impõe igualmente ao filme. Todos podem igualmente ser falsos, todos podem ser ‘montados’, todos podem conter verdades e inverdades.” Jean-Claude Bernardet[17]
Na verdade, Cinema e História são duas áreas que vão encontrar-se cada vez mais na trajetória do audiovisual no próximo milênio, não importa qual suporte ou meio que se tenha inventado. Mas, nesta simbiose de mais de cem anos, verifica-se que os estudos realizados até aqui privilegiaram o filme de ficção. Até por alguns motivos óbvios: o acervo mundial de filmes é constituído em sua maior parte de fitas de ficção; um material muito significativo do primeiro período do cinema – época na qual mais foram produzidos os chamados filmes naturais e de atualidades – foi perdido ao longo dos anos; sobre os filmes de ficção encontramos muito mais documentos, como críticas, estatísticas de público e outras informações.
No Brasil, mesmo verificando-se uma produção maior de filmes naturais e cinejornais no primeiro período, também se observa o mesmo fenômeno, como constata o historiador Jean-Claude Bernardet: “Indiscutivelmente, o que sustenta a produção brasileira nas primeiras décadas do século são estes filmes, não os de ficção. […] O tradicional desprezo pelas cavações reflete-se em outro terreno. Os livros de história do cinema brasileiro são sempre histórias do filme de ficção”[18].
No Estado de Santa Catarina, cuja produção cinematográfica foi extremamente esparsa, descontínua e pequena, os estudos dedicados a esta cinematografia são quase inexistentes. Porém não se pode deixar de registrar alguns trabalhos. A pesquisa pioneira de Edith Kormann, que investigou em quase todos os jornais de Blumenau do início do século a vida de importantes personagens da cidade, levantando e escrevendo os primeiros dados sobre Julianelli e Baumgarten. Fizemos uso dessa pesquisa realizada nos jornais do Vale do Itajaí editados em alemão e ampliamos esse universo para todos os informativos daquele período e constantes no acervo do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, de Blumenau. A partir disso foram obtidos importantes dados, alguns deles transcritos na íntegra ou em parte neste trabalho. O livro O Cinema em Santa Catarina[19], que fez um primeiro e breve levantamento das produções catarinenses até meados dos anos 80, e, finalmente, o trabalho do pesquisador Máximo Barro[20], que relacionou os filmes exibidos em algumas cidades do Estado no início do século, são esforços igualmente úteis e importantes. Outros livros e pesquisas sobre o tema e utilizados como fontes neste trabalho estão detalhados na bibliografia.
“O filme também escapa ao cameraman e ao cineasta, que não chegam a aprender necessariamente todas as significações da realidade que mostram.”
“A pseudo-realidade e a assim chamada ficção estão cada vez mais próximas E o fenômeno não está confinado ao cinema. Já penetrou na vertente principal da pesquisa histórica contemporânea. Em nossa ambígua e, por definição, impossível tentativa de reviver o passado, ou pelo menos entendê-lo e reconstituí-lo, o imaginário se tornou um instrumento tão importante quanto o fato em si. A realidade já não é suficiente para escrevermos a História. Queremos saber o que nossos predecessores pensavam, a substância dos seus desejos, fantasias e sonhos. Então o cinema, que procura recriar não apenas a forma, mas também as mentalidades do passado (mentalidades que são, é claro, inverificáveis), tem lugar de honra nesse mosaico” (CARRIÈRE, 1995, p.138).
Além dessas questões, os avanços tecnológicos permitem cada vez mais a manipulação da imagem, a ponto de perturbar ou instigar ainda mais o trabalho do historiador que se embrenha pelos campos do cinema como objeto de pesquisa.
Encerro com uma reflexão do cineasta e pesquisador catarinense, Sylvio Back, o qual fez uma colocação bastante contundente, sobre os filmes desse período, num artigo escrito para a Folha de São Paulo.
“… À época do seu auge nas primeiras décadas, o cinema de cavação se propunha a ganhar dinheiro seduzindo o espectador para ‘novidade’ da Sétima Arte. Enquanto isso, seu conteúdo turvava-lhe a miséria cotidiana para idealizar e promover governantes e mecenas. Hoje, porém, esse acervo ainda que contaminado é de grande valia. Com o passar dos anos suas imagens perderam a pertinência ideológica, mas não a histórica. O tempo as desmobilizou criticamente. Do utilitário cinema de cavação, resta um inestimável retrato do país”…(BACK,1997, p.3).
[1] PIRES, José H. N.; DEPIZZOLATTI, Norberto V.; ARAÚJO, Sandra M. O Cinema em Santa Catarina. Florianópolis : UFSC/Embrafilme, 1987.
[2] CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1995. p. 137.
[3] MCLUHAN, op. cit., p. 327.
[4] CARRIÈRE, op. cit., p. 136.
[5] COSTA, op. cit., p.17.
[6] KORNIS, Mônica Almeida. História e Cinema: um debate metodológico. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992. p. 237-250.
[7] CARRIÈRE, op. cit., p. 138.
[8] Em que pese as possibilidades de abordagens que as associações entre Cinema e História suscitam, a pretensão deste trabalho é a de conhecer um pouco mais a obra dos pioneiros do cinema catarinense: José Julianelli e Alfredo Baumgarten.
[9] FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1992. p. 79.
[10] FERRO, op. cit., p.79.
[11] FERRO, op. cit., p.83-201.
[12] OLIVEIRA, Aline C. Sasahara. “Mulher Solta, Louca – Maria Venuto, das horas de seus dias à tela de cinema”. Campinas, 1996. 36p. Dissertação (Mestrado), Instituto de Artes, Universidade de Campinas, 1996.
[13] KORNIS, Mônica Almeida. História e Cinema: um debate metodológico. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992. p. 237.
[14] Sobre a Nova História ver BURKE, Peter. “Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro”. In: A escrita da História: novas perspectivas. Peter Burke (org.) 2.ed. São Paulo : Ed. da Universidade Estadual Paulista. 1992. p. 7-37.
[15] LE GOFF, Jacques. “Documento/Monumento”. In: História e Memória. 3.ed. Campinas : Ed. da Universidade de Campinas, 1994. p. 547-548.
[16] FERRO, op. cit., p. 87.
[17] BERNARDET, Jean-Claude; RAMOS, Alcides Freire. Cinema e história do Brasil. São Paulo : Ed. Contexto, 1988,. p.38.
[18] BERNARDET, Jean-Claude. Cinema Brasileiro: propostas para uma história. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 24-28.
[19] PIRES, José H. N.; DEPIZZOLATTI, Norberto V.; ARAÚJO, Sandra M. O Cinema em Santa Catarina. Florianópolis : UFSC/Embrafilme, 1987.
[20] BARRO, Máximo. Pesquisa nos jornais O Futuro, O Estado, A Fé, O Dia, O Albor, A Notícia, O Tempo, Correio do Sul, O Agricultor, O Liberal, Diário da Tarde, Folha Nova, Correio Brusquense, A Gazeta, Nova Era, A Imprensa, Barriga-Verde e Jornal do Povo, no período de 1900 a 1950. Datilografada em 298 páginas e arquivada na Cinemateca Catarinense em dois volumes.
