Dias atrás a Fundação Catarinense de Cultura de Cultura divulgou os projetos que foram contemplados no Edital de Cinema de 2010 (listagem abaixo). A totalidade da premiação da oitava edição, em 10 anos, da maior premiação de fomento ao audiovisual no Estado, foi no valor de R$ 3 milhões. O Edital contemplou quatro categorias: longa-metragem, curta-metragem, vídeo e pesquisa e desenvolvimento de projeto de longa-metragem. Divulgado o resultado dos ganhadores, entre risos e lágrimas, resta uma certeza: a classe cinematográfica é a grande vencedora desse projeto do qual que tive o prazer de participar da criação, como presidente da Cinemateca Catarinense na época –, juntamente com muitos outros profissionais. Um projeto que desde o início vem se aperfeiçoando e viabilizando uma cinematografia brasileira, diversificada e com sotaque catarinense. Esse sistema transparente e democrático está sendo o principal responsável por filmes com uma diversidade de abordagens, narrativas e gêneros, criados de Santa Catarina para o mundo. Não se pode esquecer também na injeção na economia da cultura, mundialmente emergente e impulsionada em nosso Estado a partir desse processo.
De acordo com o administrador do Museu de Imagem e Som (MIS-SC) Ronaldo dos Anjos, que acompanha o Edital desde sua primeira edição, “para a edição de 2012, a Fundação Catarinense de Cultura e a Cinemateca percorreram todo o Estado ouvindo os setores ligados a esta arte. O objetivo foi compilar todas as informações em um edital mais moderno e de acordo com a realidade atual – mais de 10 anos após a primeira edição. Algumas mudanças que poderão apresentar: mudanças nas categorias – fazer categorias mais abrangentes; aumentar o valor do prêmio também está sendo cogitado”.
Meus cumprimentos a todos os contemplados, aos artistas e técnicos, ao público e à sociedade em geral e ao Governo do Estado de Santa Catarina que mantêm esse importante sistema de fomento ao audiovisual do Estado.
Foram jurados dessa edição os seguintes profissionais: GISELE HILTL (RS), jornalista e profissional de comunicação social; LUIZ CARLOS LACERDA (RJ) , diretor, produtor e roteirista; CLEMENTINO JR. (RJ) é produtor, roteirista, professor de cinema e editor; GERALDO VELOSO (MG) é cineasta (produtor, diretor, roteirista, montador/editor); GUTO PASKO (PR) Diretor de Cinema e TV, roteirista e produtor.
Lista dos projetos selecionados e seus suplentes:
Pesquisa e desenvolvimento de projeto cinematográfico de longa-metragem:
Selecionados:
1º – O último sopro de Patápio – Maurício de Lima Oliveira
2º – Guatá – Valdemir Klamt
3º – O Casamento de Clarice e Bataille – Julia Ancona Amaral
4º – Cine Bravos – Malcon Jean Bauer
5º – As Mãos – Maria Augusta Nunes
Suplentes:
6º – O Menino Gurilo – Fábio Porto
7º – Horizonte Perdido – José Antônio Valentini
Vídeo:
Selecionados:
1º – A Velha que Colecionava Xícaras – Daniela Cristina Geisler
2º – Colapso – Patríca Yannet Briggiler
3º – Nuvem – Vanessa Camassola Sandre
4º – O Sumiço da Coroa – Luiza da Luz Lins
5º – Dona Bilica em Caldos, Causos, Rendas e Pirão – Wanderléia Will
6º – Firmino & Genoveva – Leandro Andrade da Silva
7º – O Rei do Banjo – Domingos Davi Longo
8º – Ao Pé do Rádio – o Rádio Teatro em Santa Catarina – Marcos Vinícius D´elboux
9º – A Dança no Limite – Arte e Vida de Anderson Gonçalves – Sandra Meyer Nunes
10º – Instantes de um lugar qualquer – Maria Alice Vilalba Nunes
11º – Cena 11 – Tempo e Movimento – Douglas Narcizo
12º – A Noite – Rodrigo Amboni
13º – A Pandorga e o Peixe – Ivan de Sá Carneiro
14º – Cantos de Aço Farpado – Aventuras de Baleias e Homens na Costa Catarinense – Francisco José Pereira Filho
15º – De Mitos e Bichos – Cinthia Creatini da Rocha
16º – Laços – Karine Joulie Martins
17º – Música de Meninos e Outras Histórias – Vanessa Lehmkhul Pedro
18º – O Sequestro de Malick – Fábio Porto
Suplentes:
19º – Brecha no Tempo – Cláudia Cárdenas Pires Ferreira
20º – Brancura – Geovana Aparecida Zimmermann
21º – A Carona – Christiano de Almeida Scheiner
22º – Luiz Roberto nas 4 Estações – Lícia Brancher
Curta Metragem:
Selecionados:
01º – Talvez Neve na Serra – Ricardo Weschenfelder
02º – O Último Dente – Willian Martins
03º – Tai …Ó – Uma Aventura na Lagoa – Maurício Venturi
04º – Terra Cabloca – Ralf Cabral Tambke
05º – O Anjo da História – Rafael Favareho Schichting
Suplentes:
06º – O Tempo que Leva – Mariana Medeiros Cardoso Coelho
07º – Correr prá Quê? – Vanusa Angélica Ferlin
08º – Pecado Abaixo – Luiz Augusto Couto de Lima
09º – Véspera – Marco Aurélio Stroisch
10º – O Amor que não é Fino – Alessandro Danielli
Longa Metragem:
Selecionado:
01º – Xucro – Oração do Amor Selvagem – Faganello Comunicações Ltda Me.
Suplente:
02º- Lua em Sagitário – Realizart Produção Audiovisual Ltda (Plural Filme Sul)
CLAQUETE:
– Nova Geração. Alunos da UFSC estão entre os vencedores do Edital de Cinema. Entre eles a primeira colocada na categoria Vídeo foi a estudante Daniela Cristina Geisler, com “A Velha que colecionava Xícaras”. Com apenas 21 anos, ela está na sexta fase do curso de cinema da UFSC. Outro estudante vencedor da UFSC foi o jornalista Maurício Oliveira, com o “O Último Sopro de Patápio”, na categoria Pesquisa e Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico de Longa-Metragem. Certamente um projeto merecido sobre Patápio Silva, um dos maiores flautistas da história, que faleceu em Florianópolis no ano de 1907. Parabéns!
– Exibição. A programação de cinema na capital tem apresentado bons filmes. “Intocáveis”, boa comédia dramática da dupla de diretores Olivier Nakache e Eric Toledano; a narrativa simples que se segura nos bons atores (Tommy Lee Jones e Meryl Streep) em “Um divã para dois” de David Franket; o brasileiro “Cara ou Coroa”, de UgoGiorgetti e a adaptação de “Fausto” – obra-prima do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe – do cineasta russo Aleksandr Sokurov, são apenas alguns dos bons filmes exibidos nos cinemas de Florianópolis.
– Peter Greenaway, diretor britânico vai ministrar palestra no dia 8 em Florianópolis, abrindo o evento Fronteiras do Pensamento. Cineasta, professor e artista multimídia britânico, diretor de obras como “O livro de cabeceira”, “Afogando em números” e “A barriga do arquiteto”. Atualmente, se dedica à exploração das novas mídias, em instalações e projeções que entrecruzam diversos tipos de arte. Greenaway tem muito o que dizer e vai dar um bom recado para quem puder e souber ouvi-lo.
– Contestado. Uma boa prévia da pré-estreia do documentário “O Contestado, restos mortais” que acontecerá no dia 15 no cine Espaço Beira-Mar é no Café Kino da SECULT/UFSC, no próximo dia 10 de outubro (quarta-feira). A partir das 12:30 hs, no Teatro da UFSC, será exibido a ficção “Guerra dos Pelados” seguido de debate, regado à café, com o diretor do documentário e da ficção, Sylvio Back. A promoção é da SECULT, através do DAC e do Curso de Cinema da UFSC. E por falar nisso, transcrevo abaixo um consistente texto do cineasta Sylvio Back sobre “Guerra dos Pelados”.
“A Guerra dos Pelados”:
memória das filmagens
Sylvio Back
“A Guerra dos Pelados” (1971) era um filme intimorato naquela quadra de chumbo e brasa que consumia a alma do país. Vinha na contramão do cinema brasileiro de então, que coincidia com o auge da repressão militar patrocinada pela ditadura Médici (1969-1974). Uma obra carregada de premonição, repleta de fantasmas institucionais da nacionalidade, batendo direto no fulcro do nosso passado onde se vislumbram as origens da miséria brasileira em todos os tempos – a crônica e viciosa a questão da terra.
Sob a capa de um catolicismo rupestre, cimento que mantinha unos milhares de caboclos, a posse e a usurpação da terra não se escamoteavam, como também não, o sonho separatista de se criar uma “Monarquia Sul Brasileira”. E por ela se sacrificaram mulheres, crianças e homens de todas as idades, latitudes, categorias sociais e etnias, todos se submetendo a uma implacável disciplina litúrgica dentro de suas cidadelas “santas”, o que acabava por fanatizá-los.
Quem planta e trabalha a gleba (“A terra é como a mãe, depois que se perde, o valor aparece”), dela é simbolicamente seu titular. Mote atraente para quem era expulso de seu chão à força com a chegada de empresas estrangeiras e a implantação do capitalismo na região. A sabedoria bebida junto aos índios, que sempre vivenciaram o que é ter seu horizonte surrupiado e o azimute de seus mortos espalhado aos sete ventos, tinha seu custo.
Mesmo para quem jamais tenha lido “Geração do Deserto”, de Guido Wilmar Sassi, livro que inspirou o roteiro do filme, ao incorporar o visual e o testemunho da região contestada sessenta anos depois, “A Guerra dos Pelados” acabou extrapolando a ficção e “inventou” uma nova “guerra camponesa”. Começando por adiantar uns e atrasar outros acontecimentos, situa a ação em 1913/14 no “reduto” de Taquaruçu.
Sem nenhuma coincidência, a produção do filme localizou-se em alguns dos sítios históricos do Contestado nos municípios de Caçador, Calmon e Matos Costa, em pleno planalto catarinense. Portanto em cima de antigos e reformados latifúndios e espaços de grilagem, herdeiros de um passado então crepitante.
Procurando passar ao largo de situações cronológicas ditadas pela obra de Sassi e atendo-se mais ao “clima” e ao “memorial resistente”, o filme sublinhava a força motriz subterrânea do movimento insurrecional, a da luta pelo direito à terra. Era o que os “pelados” propunham, ora de forma política clara e inelutável, ora ficava subentendido no próprio misticismo que escorava a reação de quatro anos enfrentando canhões Krupp com espadas de madeira.
Houve uma guerra encenada à frente das câmaras, e uma guerra à vera atrás das câmaras. Antes e durante as filmagens de dois meses, em pleno inverno de 1970, vingou tamanha bateria de incidentes que a meio caminho do fim eu estava decidido a parar e desembarcar de um sonho de muitos anos. Nem sei mais como resisti, contornei ou enfrentei a tudo e a todos, dentro e fora do filme.
Ainda na fase de pré-produção, isto é, enquanto se armavam a infraestrutura e as condições materiais que iriam sustentar a visibilidade/oralidade das cenas e diálogos imaginados e escritos, fui intempestivamente intimado a submeter o roteiro à censura da 5ª Região Militar, sediada em Curitiba. Depois de dias de espera, o Exército exarou um estranho nihil obstat “verbal” endereçado não a mim ou à produção do filme, mas à Policia Federal, então dirigida por um oficial das Forças Armadas.
A evidente manobra era então para eximir o Exército de um eventual vexame caso o constrangimento ilegal viesse a público (pela Constituição então vigente, um filme só era submetido à censura depois de pronto, mas ditadura é ditadura…). Tudo sem rastros. Na Polícia Federal fui “mimoseado” com perguntas e insinuações as mais esdrúxulas. Havia até uma que, digamos, fazia certo sentido: a dois meses do AI-5 (1968) – beneficiado por um habeas corpus –, eu fora excluído de um Inquérito Policial Militar que apurava “delito de opinião” entre uma trintena de jornalistas paranaenses dedurados por seus colegas de redação. O coronel-censor insistia que eu dissesse que inconfessáveis motivos me haviam levado a “mexer neste vespeiro, que é o Contestado, logo agora” (sic).
Era esse o pedágio que eu estava pagando pelo auxílio logístico (imprescindível), que só existia numa guarnição militar, então solicitado às Forças Armadas. Só era factível encenar o que previa o roteiro tendo à disposição munição de festim, armamento (fuzis e canhões da época ainda funcionando) e cobertura profissional de sargentos-armeiros para prover a manutenção e guarda de todo um razoável arsenal de campanha. A princípio houve sinal verde (sem trocadilho…), o que me soou como uma régia retribuição por ter-me “curvado” ante a estúpida censura prévia. Ela, na verdade e na prática não produziu sequela alguma – porque o coronel-censor candidamente admitiu sua incapacidade para “ler” o roteiro, deixando-o tal e qual.
Quando já me encontrava com uma equipe paulista e um elenco nacional em Caçador, no vale do rio do Peixe, a mais de 300 quilômetros da Capital paranaense (700 km, de São Paulo), pronto para o primeiro tour de manivelle, veio uma comunicação seca e peremptória de que tudo o que fora apalavrado era letra morta. Não demorou, atitude idêntica tomou a Polícia Militar de Santa Catarina, que iria colocar à nossa disposição parte de contingente local como extras fazendo o “papel” das tropas do Governo.
Ainda, numa caravana suicida, dirigimo-nos todos, atores e técnicos, para Curitiba, na doce ilusão de conseguir demover o general-comandante de sua inesperada decisão, ele que, pessoalmente, autorizara a cessão do equipamento bélico solicitado. Nem fomos recebidos, que dirá alvo de justificativas ou explicações.
Mas logo soubemos que a negativa albergava duas vertentes plausíveis que acabaram confluindo: 1) o Exército temia pelos rumos que o roteiro, apesar de “censurado” (teoricamente), poderia tomar quando as cenas fossem materializadas em celuloide; e 2) o país entrara em estado de prontidão porque as Forças Armadas haviam detectado a guerrilha do capitão Lamarca na região de Registro, à beira da rodovia BR-116 (que liga São Paulo a Curitiba e ao Sul).
E nós que queríamos apenas fazer um filme… Um filme com tiros e morteiros que de uma hora para outra ficara “belicamente” inerme. Não tínhamos uma arma sequer, muito menos canhões (tão somente uma metralhadora de museu, autêntica de 1910, “inadvertidamente” emprestada pela PM do Paraná, muito cinematográfica, por sinal…).
Foi uma operação inacreditável, essa de tocar o projeto a qualquer custo e sacrifício, o mesmo entusiasmo que congregara a todos no projeto de filmar um inaudito levante popular em plena castração ditatorial. Tema-tabu, seu mito estava acima de nós.
Aos poucos e com paciência, porém, um civil aqui e outro acolá emprestando Winchester e revólveres, a caboclada espontaneamente desovando dezenas de enrustidas carabinas e espingardas, armas brancas e munição, a produção de “A Guerra dos Pelados” pôde organizar seu “exército” regular. Felizmente já havíamos alugado as fardas do exército da época que o roteiro exigia, trazidas de São Paulo – espólio autêntico pertencente a um colecionador.
Quanto à indumentária dos pelados, foi bem mais fácil: como os próprios sertanejos interpretavam a si mesmos, a roupa rota do presente acabava se confundindo à roupa rota dos seus antepassados. Não poucas vezes ouvi da caboclada me confessando que se sentia na pele de algum avô ou parente morto nos entreveros com “a força” (genérico para Polícia Militar e Exército). Um inescapável atavismo que as circunstâncias trouxeram à tona e puderam revelar à câmara rostos antológicos e atuações memoráveis. Portanto, nem tudo estava perdido.
Ponto de honra: faltavam apenas os canhões. Carpinteiros contratados em uma semana fabricaram quatro exemplares de madeira (com rodado de carroça) – cópias fiéis de congêneres utilizados em combate conforme iconografia de 1914 à mão. Para fazê-los “funcionar” atulhava-se sua boca de bosta de gado ou cavalo, adicionava-se talco industrial e pólvora, e através da faísca de uma espoleta, provocava-se formidável explosão que lançava excremento (e seu respectivo “perfume”…) e imitação de fumaça pelos ares. Na fase de sonorização do filme, acoplamos o som de canhões da Guerra da Secessão americana e os nossos soavam melhor (…) do que se os canhões fossem os próprios, originais do Contestado. Os fotogramas do filme são indesmentíveis.
Para os alvos acertados, mais de cem quilos de dinamite substituíram os efeitos da detonação das balas que só existiam na trilha sonora. Um oportuno lance da imaginação para um filme que parece uma superprodução, e que em 1970 custou apenas 450 mil cruzeiros (orçamento médio para filme brasileiro de então; hoje não seria factível por menos de US$3 milhões).
Quando pensamos que “exibindo” defronte às câmaras o nosso “Exército Brancaleone catarina”, as agruras diminuiriam – o clima das filmagens era gravado quase diariamente por denúncias de militares à paisana infiltrados entre as centenas de anônimos figurantes – à procura de informações. A delegacia de polícia de Caçador ameaçava fichar todos os extras, atores e nossa equipe, como “comunista”, logo após um jornal local, em tom de “falsa” brincadeira (na verdade, fora uma alcaguetagem cifrada), ter anunciado em manchete (reproduzida pela rádio da cidade) que produtores de cinema, sob o pretexto de estarem filmando, acobertavam treino de guerra de guerrilha. Dentre as dezenas de explosões imitando queda de balas de canhão, uma – ocorrida na travessia de um riacho –, ferindo dois atores, alimentou as suspeitas.
No mesmo diapasão de baixo astral, e pela total ausência de militares especialistas, a improvisação de emboscadas, escaramuças e nas lutas corpo-a-corpo, características de uma guerra de guerrilhas como foi o Contestado, sempre deixava enorme rescaldo de involuntários feridos e ofendidos. E todos acabavam baixando no hospital de emergência para as dores do nosso infortúnio…
A “guerra” fora do alcance da objetiva não raro competiu com a de “mentirinha” à frente das câmaras. Mas, uma vez findas as filmagens, todos festejamos a “vitória”, pois o filme estava na lata! – como se diz no jargão do cinema, o que significa que os maiores riscos ficaram para trás. Assim transcorreram aqueles terríveis, porém, inesquecíveis, cem dias entre preparação e rodagem propriamente dita de “A Guerra dos Pelados”. E sua travessia só foi possível graças à obsessão e ao destemor que mobilizaram desde o anônimo figurante à enorme equipe técnica e às dezenas de atores. Nos momentos de maior cerco institucional, cujos reflexos eram imediatamente sentidos na hora de dar visibilidade ao imaginado, todos os meus colaboradores, próximos ou distantes, entenderam que, ao resgatar um episódio maldito da história do Brasil, o preço seria alto. Ninguém desertou…
E não foi por acaso que a censura da ditadura Médici soube com argúcia acertar exatamente os diálogos com a cena em que aparece a palavra-chave “terra”, como sinônimo para os rebeldes, de propriedade, liberdade e poder. Por causa disso, em 1971, às vésperas de sua estreia nacional, o filme pernoitou em Brasília por mais de seis meses: os censores se dividiam entre proibi-lo pura e simplesmente ou liberá-lo com cortes. Esses argumentavam que, afinal, “uma andorinha (leia-se, o filme) não faz verão” (leia-se, algum tipo de surdo agito). Que o longa-metragem apenas sofresse cortes lapidares. E pronto!
Impotentes, ficamos em São Paulo – os coprodutores, Antonio Polo Galante e Alfredo Palácios, e eu, que também produzia o filme através de financiamento bancário – com nostalgia de quando a censura era exercida pela polícia e alguns “bons” cruzeiros resolviam impasses de ordem política e moral… Agora todo cuidado era pouco.
A partir da década de 1970 a censura passou (como, aliás, continuou até o final da ditadura, inclusive fortalecida, basta ver os atentados contra o filme “Je Vous Salue Marie”, de Jean-Luc Godard e a música, “Merda”, de Caetano Veloso) às mãos de “gente letrada”. Eram intelectuais ou que tais, militares, leigos e religiosos, supostos especialistas em Marx, Lênin, Mao, Fidel, “Teologia da Libertação”, mass media, isto é, em teorias, modelos e técnicas de “evangelização” das chamadas “ditaduras de esquerda”. O ideário fascista do almirante Penna Boto e do Papa Pio XII ainda nem havia desencarnado e já mudara de lado…
Depois de um silêncio atroz, só quebrado por notícias oficiosas, aliás, as mais lúgubres, fomos ansiosos ler o verso do certificado de censura. Eram três cortes cirúrgicos na imagem e no som: o primeiro mandando extirpar cena em que um “coronel” surra na bunda desnuda dois “pelados” com vara de marmelo (enquadração que, por sua aura esteticamente simbólica, acabou impondo o mote visual do cartaz do filme, de autoria do premiado arquiteto e designer catarinense, Manoel Coelho).
No segundo e terceiro cortes, ali sim, flagra-se uma leitura político ideológica direta na jugular das intenções, atenções e pretensões de “A Guerra dos Pelados”. Era imposta a ablação de cenas-chaves em que os fanáticos, sob o comando do seu líder, Adeodato, invadem a serraria da Southern Lumber and Colonization Company: em meio à destruição do escritório, e enquanto os demais rebeldes destroem o local, Vitorino (Zózimo Bulbul) descobre documentos que podem ser títulos de propriedade ou contratos de compra-e-venda de madeira, e começa a gritar (rasgando-os um a um): “Chega de pobreza! Chega de pobreza! Fora co’s gringo! A terra é nossa! A terra é nossa! Vingança!” Sem comentários. –
Sylvio Back, cineasta, poeta, roteirista e escritor,
autor de 38 filmes (12 longas-metragens) e de
21 livros (roteiros, poesia e ensaios);
em finalização, o doc de longa, “O Universo
Graciliano”; em preparo, a ficção, “A Angústia”,
baseado no romance de Graciliano Ramos.
