Mostra .Doc e o Morro da Cruz
29 de Agosto de 2011

Mostra .Doc e o Morro da Cruz

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Certa vez quando estava com o diretor Sylvio Back, nas inúmeras viagens de pesquisa e de preparação das filmagens do documentário “O Contestado, restos mortais” para a região do meio oeste catarinense, o Cacique me disse: “Zeca, o que tu achas melhor de realizar ficção ou documentário?  já pensasses sobre isso?  E aí passamos a divagar sobre o assunto: lembro que concordamos com a maravilhosa possibilidade que a maioria dos documentários nos dão de iniciarmos  uma filmagem sem saber o seu fim. Não que a ficção deixe de possibilitar esta incógnita final, mas com certeza a possibilidade é bem menor. E ficamos viajando (nos dois sentidos, pois estávamos dentro do carro indo para Canoinhas) nessa busca do objetivo do documentário, nessa louca procura do desconhecido. Falamos também sobre as proximidades entre os dois gêneros, sobre essa cada vez mais tênue separação entre ficção e documentário. E acabamos concluindo sobre a delícia de estar filmando, seja um ou outro filme.

Outra vez, quando fui selecionado para um oficina no Rio de Janeiro, ministrada por  Eduardo Coutinho, com o projeto do documentário “Anauê” (que eu ainda vou realizar, sobre o integralismo em SC), durante um atendimento individual Coutinho parou, olhou para o além e me disse: “Zeca, na maioria das vezes o documentário prescinde do roteiro. E nesse edital do MINC na parte na qual o formulário solicita um roteiro vou escrever um tratado porque esse documentário não tem roteiro. Me importa a preparação, a pesquisa”. E, logo em seguida, continuou “fazem a gente ter que encher lingüiça para ter um número determinado de linhas”.

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Eu penso que o documentário requer uma rigorosa pesquisa, uma imersão no tema, uma grande dedicação, isso creio que seja meu principal conselho para que quiser se embrenhar nos instigantes desafios de realizar um documentário.  Não vou nem falar na ética do documentarista, valor moral fundamental, ao meu ver, para a prática do gênero.

Na recente Mostra .doc, promovida da Cinemateca Catarinense, sob a curadoria da Nathália, coube me  falar e agora escrevo algumas linhas sobre “Maciço”, de Pedro MC (77’/2010) e “Mocotó no Morro”, da oficina do 10º Catavídeo (17’/2008).

Dois documentários com algumas proximidades e tb com suas próprias  peculiaridades. Os dois  enfocam moradores considerados da periferia da Ilha, dos nossos morros: Maciço de 17 comunidades do entorno do morro da Cruz e Mocotó do Morro da comunidade homônima ao título. Outras proximidades podemos observar entre os dois documentários, mas essa é certamente a primeira que nos vem aos olhos e mentes.

Não sei quantas fitas (ou carões ou HDs) o Pedro MC precisou para finalizar esse documentário, mas não tenho dúvidas que foram muitas horas de gravação. O documentário revela que o diretor e seus assistentes sabem onde estão pisando.

Logo no início um depoimento me comoveu, quando uma senhora fala, fala com dignidade e resignação, que os filhos iam para as escolas descalços, sem ter um calçado velho para vestir,  me veio a lembrança  do “Bachecha-Ye Aseman,  no qual alguns, como eu, certamente verteram  lágrimas ao ver a irmã  tirar o tênis velho e ceder para o irmão poder freqüentar a escola no período da tarde na comovente película iraniana “Filhos do Paraíso”, de Majid Majidi (1977). E foi aí que descobri outra proximidade entre os dois, ou melhor, os três filmes: a solidariedade, sentimento cada vez mais raro nas comunidades. Cabe aqui um parêntesis sobre a cinematografia iraniana, esse belíssimo cinema que não se sabe se é ficção ou documentário, mas que é direto na veia.

Depois, veio o depoimento da Senhora quando é chamada de rainha, ela diz: só se for a rainha dos pobres. E aí me ocorreu a força presente no rosto e nos depoimentos femininos, a  presença feminina fundamental da mãe e da avó na família contemporânea. Em todas as famílias, sobretudo nas com carência financeira, nas quais os problemas acabam sendo maiores, os pais saíram à procura de outras mulheres, de outras vidas, deixando os filhos com as mães, avós, tias, que brava e carinhosamente acabam abrigando o que normalmente não teriam condições. Mas, o amor acaba superando essas barreiras. Recentemente em palestra na Assembléia Legislativa a grande atriz Fernanda Montenegro falava sobre esse aspecto nas famílias de hoje, dando como exemplo a educação de seus netos, filhos da Fernanda Torres. É claro que ali a realidade é outra, personagem iluminada e por isso mesmo teve a dignidade de sentir e de reconhecer esse vazio em sua própria vida.

E, de uma forma sutilmente percebida, o documentário vai revelando as diversas comunidade que compõem o maciço do Morro da Cruz e que vão comprovando a imersão da equipe no tema abordado.

A forma de abordar o preconceito; a maneira imagética de mostrar a opressão urbana co mo se os edifícios pressionassem os depoentes, a vida também digna, bonita e alegre, lá no alto são características observadas nos dois trabalhos.

No Maciço a animação inicial, a utilização de duas câmeras, a priorização de cenas externas são escolhas e opções que só fazem desse documentário, tocante e reflexivo, mais suportável de assistí-lo. Digo isso, pois a realidade ali exposta, da qual somos todos responsáveis, é dura, mas tanto do lado bom como do lado oposto das pessoas e do cotidiano daquelas comunidades, nós temos muito que aprender.

Já o Mocotó do Morro, realizado por alunos e coordenados pelo documentarista Iur Gomes (vencedor de dois Docs.TV) opta sabiamente por um tema central, o porquê da denominação Morro do Mocotó. O documentário investigativo da oficina do Catavídeo acaba revelando detalhes muito interessantes da Ilha de SC, como aspectos da escravidão, da construção da ponte Hercílio Luz, mostrando uma comunidade pobre, digna e solidária.

Os dois documentários mostram por fim muito mais do que os talentos de Pedro MC e de Iur Gomes e suas equipes, mostram a necessidade de um diálogo, de uma aproximação cada vez maior com essas comunidades. Além disso,  trabalhos como esses acabam por ajudar a promover própria inserção desse povo com o da cidade. Essas comunidades, muitas vezes esquecidas, são igualmente importantes para a nossa cidade.  Nos vemos nela, e com eles aprendemos.

Agradeço a todos que me proporcionaram esta oportunidade de mostrar meu humilde olhar sobre estas duas obras agora descrito nessas linhas. Valeu!


Claquete

Medalha JK. Charles Cesconetto vai estrear seu doc "JK no exílio" em grande estilo. No dia 10 de setembro no Teatro Santa Isabel em Diamantina e no dia 18/09 no Teatro Municipal de Brasília. E, de quebra, o diretor de fotografia e documentarista, Charles será condecorado com a medalha JK.

– A Antropóloga no Cinespaço Beiramar.  Quem não assistiu A Antropóloga tem agora mais uma oportunidade. Depois de uma temporada de sucesso em todas as salas alternativas e do circuito comercial, o longa-metragem, está de volta no Cinespaço Beiramar, a partir desta sexta-feira (26/8), sempre às 18h50min, na sala 5. Vencedor do Edital da Fundação Catarinense de Cultura, A Antropóloga estreou no final de abril e permaneceu em cartaz durante dois meses no Cine System, no Shopping Iguatemi.  Fiquei muito satisfeito com o resultado inicial. Agora, passando a temporada dos blockbusters, a Imagem Filmes, o Cinespaço e o Shopping Beiramar cumprem a promessa de trazê-lo de volta às telas atendendo a um pedido de pessoas de toda a Ilha. Confira, os equipamentos novos do Cinespaço Beiramar fazem uma diferença perceptível, no som e na imagem.

– FUNBADESC. A matéria publicada no “Notícias do Dia”, no dia 22/08, sobre as atividades da Lena Peixer é merecida e oportuna. Lena e Armando Sabino são responsáveis por grandes encontros artísticos e pela retomada do centro cultural da Ilha.

Rapariga loura.  Assisti no Cinespaço Beiramar um dos últimos filmes de Manuel de Oliveira, Singularidades de uma Rapariga Loura, baseado em Eça de Queiroz. O centenário cineasta português esbanja vitalidade ao apresentar uma trama sutilmente envolvente. A projeção foi uma maravilha, pena que só tinham quatro pessoas no cinema.

Dona Chica. Farra do boi e Pesca da Tainha são os documentários que serão exibidos nesse sábado, às 18 hs, no Cine Clube Dona Chica, num antigo rancho de pesca. Parabéns Sofia, um barato!

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