Em 1996 o trabalho encaminhou-me em boa parte do ano para Cuba, em La Ciudad de La Habana. Meu trabalho era implantar a área de Recursos Humanos em uma indústria ligada ao ramo do fumo. Foi um ano muito diferente, um ano em que muito aprendi. Principalmente, a viver com recursos escassos e, com um povo não acostumado ao viés capitalista. Portanto, um ano de aprendizagem para mim, que tive que caminhar por caminhos nunca andados e, para eles, que passaram a ser exigidos em coisas que nunca imaginaram.
Muitas coisas me chamaram a atenção e algumas delas ligadas à comunicação. Tentarei fazer um relato fiel aos leitores que me acompanham. Logo na chegada ao Aeroporto José Martí, percebi as frases de conclamação ao povo cubano para continuar a revolução em todos os segmentos da sociedade. Todos os outdoors, cada muro pintado, proclamava a vitória da revolução contra o imperialismo, especialmente, americano. Isto era repetido por toda a cidade. “Hasta la victoria siempre”!, a frase dita por Ernesto “Tchê” Guevara, estava por toda parte, inclusive no prédio mais alto na Praça da Revolução. A revolução permanente!
Ao chegar ao hotel, sugestivamente chamado de Copacabana, e tomar o primeiro contato com a televisão gerada em Cuba, deparo-me com programas desenvolvidos ao vivo e, sempre com debates e entrevistas com autoridades das mais diferentes áreas. A televisão era, totalmente, voltada para os interesses governamentais. Sem filmes, sem programas ao vivo, sem diversidade. Ainda bem que havia, no hotel, o acesso a canais de algumas partes do mundo pela TV a cabo.
Dentro da filosofia vivida pelo povo e, em concordância com ela, não há publicidade entre os intervalos de programas. Nenhum tipo de veiculação publicitária existe em Cuba. Todos os outdoors, informações prestadas, vinculam-se aos interesses governamentais.
Uma curiosidade, que me chamou a atenção, foi o outdoor existente em frente ao escritório de negócios que os EUA mantem em Havana, se não estou enganado na Embaixada da Suiça, que portava a seguinte mensagem: “No les tenemos ningum miedo”. Este outdoor estava voltado para Miami.
Outro impasse criado foi quando necessitamos identificar, visualmente, as partes (máquinas) da fábrica que poderiam poder trazer riscos à saúde do trabalhador.
Precisávamos fazer as placas indicativas sobre ruídos, uso de protetores auriculares, cintos de segurança, entre outros. Surpresa! Isto só poderia ser feito com autorização do Comitê de Comunicação do Partido Comunista Cubano, pois poderia conter alguma mensagem perigosa. Protótipos prontos, protocolados, analisados e autorizados. Depois de algum tempo, é verdade.
Outro momento curioso foi quando, em programas de treinamento, tivemos que usar o prosaico Flip – Chart. Ninguém nunca tinha ouvido falar neste “trem”.
Desenhamos e pedimos para ser construído. Produto acabado, fomos atrás de folhas de papel para utilizarmos o novo recurso instrucional. Quem disse que existia no restrito mercado da cidade! Descobrimos que, uma empresa inglesa, recém- chegada, tinha as tais folhas. Pacotes de cigarro sob o braço e fomos praticar o escambo, esta forma tão antiga de fazer negócios. Deu certo!
Recentemente li o livro – Cuba Libre – de Yoani Sanchez, a blogueira mais famosa de Cuba e, que quase não conseguiu falar no Brasil, pois os fanáticos não o permitiram. O que ela transmite: Que quase nada mudou! Que as mudanças são pontuais e superficiais!
Como comparar é viver, quando chegava ao Brasil achava que estava no paraíso. Porém, bastava ir ao Chile para ver como a qualidade de vida pode ser superior, como um povo pode ser educado e solícito e como temos tanto a crescer. Boa leitura!
