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A lição do Luiz Dias
04 de Outubro de 2011

A lição do Luiz Dias

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1 – Alô? Quem tá falando?

 

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– Aqui é o ladrão.

– Desculpe, a telefonista deve ter se enganado, eu não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí?

– Não, os funcionário tá tudo refém.

– Há, eu entendo. Afinal, eles trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil… Mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?

– Impossível. Eles tá tudo amordaçado.

– Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?

– Claro que não mermão. Quanta inguinorânça! O chefe tá na cadeia, que é o lugar mais seguro pra se comandar assalto!

– Bom… Sabe o que é? Eu tenho uma conta…

– Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero!
– Não, isso eu já sabia. Eu sou professor! O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.

– Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um sequestro.. Pra saber de juro é melhor tu ligá pra Brasília.

 

– Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia… Mas , será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.

– Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!

– Longe de mim pensar que o senhor está de brincadeira! Que é um assalto eu sei perfeitamente; ninguém no mundo cobra os juros que cobram no Brasil. Mas queria saber o número preciso: seis por cento, sete por cento?

– Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?

-Ah, já tava esperando. Você vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?

– Não… Já falei… Eu sou… Peraí bacana… Hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho.
(…um minuto depois)

– Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.

– Puxa, que incrível!

– Incrive por quê? Tu achava que era menos?

– Não, achava que era mais ou menos isso mesmo. Tô  impressionado é que, pela primeira vez na vida, eu consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço pelo telefone em menos de meia hora e sem ouvir 'Pour Elise'.

– Quer saber? Fui com a tua cara. Acabei de dar umas bordoadas no
gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?

– Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?

– Nadica de nada, já tá tudo acertado!

– Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa…
(de repente, ouvem-se tiros e gritos)

– Ih, sujou! Puliça!

– Polícia? Que polícia? Alô? Alô?
(sinal de ocupado…)

– Droga! Maldito Estado: quando o negócio começa a funcionar, entra o Governo e estraga tudo! (De Luís Fernando Veríssimo, enviado pela minha amiga Elza Autuori)

 

2. Semana passada tive o prazer de assistir uma palestra do Luís Dias, diretor de criação da D. Araújo, a convite da disciplina de produção gráfica do Curso de Comunicação da Unisul. Foi uma aula inesquecível. Aprendi muito com ele.

3. Entre os ensinamentos que recebi, um me chamou especialmente a atenção: quando você tem uma grande idéia, o cliente aprova. Mesmo que a verba dele para a publicidade seja pequena.

Se gostar mesmo e achar que vai dar resultado, ele dá um jeito, porque cliente não é burro.

3. Nisso, os Clientes não mudaram nada.

4. Claro, tem os “mim”, que sempre atrapalham (os “mim” são aqueles caras que não têm poder de decisão, nem experiência e muito menos inteligência para decidir, que morrem de medo de aprovar alguma coisa, que no máximo dizem “por mim ta bom.” Mas são craques em botar defeito no trabalho alheio)

5. Isso também não mudou. Desde  meus tempos de redator, depois de diretor de criação, depois de diretor de agência topei com eles. São como os idiotas, uma raça citada por Nelson Rodrigues, que não se extingue: pelo contrário, proliferam. E como o governo da história do Veríssimo, que chega para atrapalhar tudo, quando as coisas vão bem.

6. Apalestra do Luís Dias me trouxe um novo alento. Mostrou que ainda existem entre os criativos gente talentosa e de coragem, capaz de enfrentar os idiotas, digo, os mim. Maravilha! Naquela noite consegui dormir feliz.

 

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