Imagem criada pelo colunista com apoio da Chat GPT
Quando falamos em desenvolvimento, quase sempre pensamos naquilo que pode ser visto. Estradas, portos, aeroportos, energia, saneamento e conectividade. São estruturas indispensáveis, capazes de aproximar territórios, reduzir custos e criar oportunidades.
Mas, antes que qualquer investimento se transforme em concreto, máquinas ou empregos, existe uma infraestrutura anterior a todas essas. Uma infraestrutura que não aparece nos mapas, não pode ser medida em quilômetros e dificilmente ganha uma placa de inauguração.
A confiança.
Recentemente, participei de um evento do LIDE no qual tive a oportunidade de abordar justamente a relação entre confiança, reputação e desenvolvimento. A reflexão partiu de um cenário global, mas diz respeito diretamente à realidade de empresas, instituições, cidades e estados.
Uma sociedade sem confiança continua funcionando. Mas tudo se torna mais difícil, mais lento e mais caro.
Os contratos exigem mais garantias. As decisões são adiadas. As relações passam a ser conduzidas pela suspeita. O diálogo perde espaço para a defesa permanente de posições. Em vez de cooperar para resolver problemas comuns, cada grupo passa a proteger apenas o próprio território.
A confiança produz o movimento contrário. Ela reduz distâncias, facilita acordos e permite que pessoas diferentes trabalhem juntas. É o que oferece segurança para que uma empresa invista, uma liderança assuma riscos e uma comunidade consiga construir projetos de longo prazo.
Um dos dados que apresentei durante o encontro ajuda a dimensionar o desafio: apenas 32% das pessoas acreditam que a próxima geração viverá melhor.
Mais do que um indicador de pessimismo, esse número revela uma crise na própria ideia de progresso.
Quando uma sociedade deixa de acreditar que o futuro pode ser melhor, ela passa a proteger apenas o presente. Fecha-se em círculos conhecidos, desconfia de quem pensa diferente e perde disposição para construir soluções coletivas.
Nesse ambiente, cresce a importância das lideranças que ainda conseguem estabelecer relações próximas e concretas.
As empresas, por exemplo, são um dos poucos espaços em que pessoas com histórias, opiniões e experiências diferentes precisam conviver, colaborar e resolver problemas todos os dias. O ambiente de trabalho preserva algo que está se tornando raro: a experiência prática da interdependência.
Isso não significa que empresários devam substituir governos, universidades, imprensa ou organizações da sociedade civil. Significa reconhecer que eles possuem legitimidade para ajudar a reconstruir pontes entre esses diferentes espaços.
O papel de uma liderança, nesse contexto, pode ser resumido em três verbos: escutar, conectar e mobilizar.
Escutar antes de oferecer respostas prontas. Conectar pessoas e instituições que possuem competências complementares. E mobilizar confiança suficiente para transformar ideias em iniciativas concretas.
Santa Catarina conhece bem o valor da cooperação. O associativismo, o empreendedorismo, a força das comunidades e a capacidade de organização são elementos importantes de sua trajetória de desenvolvimento.
Mas nenhum ativo é permanente por natureza. Ele precisa ser preservado, renovado e adaptado a uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Todo investimento acontece duas vezes: primeiro, na cabeça de quem decide; depois, no território.
Antes de uma empresa ampliar uma operação, instalar uma unidade ou contratar pessoas, alguém precisa acreditar que aquele lugar oferece estabilidade, segurança, capacidade de realização e futuro.
É por isso que confiança e reputação também são temas econômicos.
A reputação de um território não nasce apenas de campanhas, slogans ou discursos oficiais. Ela é formada pela soma das experiências, dos compromissos cumpridos, das relações institucionais e da capacidade que uma sociedade demonstra de enfrentar seus problemas.
Estradas, portos e energia transportam produtos, pessoas e oportunidades. Mas é a confiança que permite que tudo isso seja construído.
Ela é a infraestrutura invisível que sustenta todas as outras.

