ARTIGO | Copa do Mundo: O rádio resiste e cresce em tempos de consumo fragmentado do futebol
30 de Junho de 2026

ARTIGO | Copa do Mundo: O rádio resiste e cresce em tempos de consumo fragmentado do futebol

Dados de audiência mostram que o meio se adapta às novas formas de consumo sem perder a proximidade que historicamente construiu com o torcedor

Publicidade

Por Michel Angelo*

A cada quatro anos, a Copa do Mundo produz um fenômeno inigualável: o país se mobiliza para ouvir, assistir, comentar e sentir o futebol coletivamente. E, nesse contexto, em meio à multiplicação de telas, plataformas e formatos digitais, pode-se ter a impressão de que o rádio perde protagonismo em um período como este. No entanto, o que se vê é exatamente o contrário. Em um ecossistema cada vez mais fragmentado, o rádio segue ocupando um espaço singular na cobertura esportiva, especialmente durante as Copas.

Publicidade

O motivo é simples: nenhuma mídia acompanha o torcedor com tanta proximidade, instantaneidade e mobilidade quanto o rádio. A televisão exige atenção visual. O streaming depende de conexão estável, imagem e consumo ativo. O rádio, por sua vez, cabe no carro, no celular, no fone de ouvido, no trabalho, na rua e até no estádio. Ele não interrompe a rotina do torcedor; ele se integra a ela.

Essa característica histórica ajuda a explicar por que o meio continua tão relevante mesmo em plena era digital. A edição mais recente do estudo Inside Audio 2025, da Kantar IBOPE Media, divulgada em agosto de 2025, mostra que 92% dos brasileiros consumiram algum formato de áudio nos últimos 30 dias, incluindo rádio, streaming e podcasts. Dentro desse universo, o rádio segue como um dos meios de maior alcance do país, atingindo 79% da população nas principais regiões metropolitanas, com média diária de 3h47 de escuta entre os ouvintes.

Ao contrário da ideia de que o rádio permaneceu preso ao passado, a cobertura esportiva radiofônica evoluiu de maneira decisiva nas últimas décadas. Hoje, a transmissão não está apenas no dial. Ela também está no YouTube, nos aplicativos próprios, nos agregadores de áudio, nos cortes em redes sociais e nos podcasts derivados da programação ao vivo. Os números comprovam. Embora o AM/FM continue sendo a principal plataforma de consumo, utilizada por 70% dos ouvintes, o conteúdo das emissoras já se expandiu para novos ambientes digitais, como YouTube (33%), serviços de áudio sob demanda (16%), aplicativos próprios (13%) e redes sociais (12%).

Esse movimento demonstra que o rádio contemporâneo não está mais limitado ao aparelho receptor. O que define sua força é a capacidade de distribuir conteúdo em múltiplas plataformas, preservando atributos históricos como agilidade, credibilidade e proximidade com o público. O rádio ampliou sua presença sem abrir mão de sua essência.

Desde a primeira Copa do Mundo transmitida para o Brasil, em 1938, na França, o rádio não entrega apenas informações. Ao longo das jornadas esportivas históricas do século passado, o torcedor brasileiro aprendeu a construir mentalmente o jogo a partir da voz do narrador. O rádio criou uma estética própria para o futebol: a aceleração da fala, o grito do gol, a descrição dramática da jogada, o comentarista que traduz a tensão coletiva em tempo real.

Mesmo diante da avalanche de recursos visuais contemporâneos, essa experiência continua poderosa. Há algo profundamente humano em ouvir um jogo. Em muitos casos, inclusive, o rádio complementa a televisão. Não é raro encontrar torcedores que assistem à partida na TV enquanto acompanham simultaneamente a transmissão radiofônica em busca de mais emoção, identificação regional ou profundidade analítica.

Outro aspecto importante é a credibilidade. Em um cenário marcado por excesso de informação, cortes descontextualizados e opiniões instantâneas nas redes sociais, o rádio ainda carrega forte percepção de confiança junto ao público. Essa força de conexão também se reflete no mercado publicitário. Grandes eventos esportivos seguem entre os períodos de maior mobilização comercial para o rádio brasileiro, especialmente pela capacidade do meio de entregar audiência em tempo real, alta frequência de exposição e forte vínculo regional com o público.

Em Copas do Mundo, as jornadas esportivas ampliam não apenas audiência, mas relevância, integrando transmissões ao vivo, ativações digitais, conteúdos multiplataforma e presença em redes sociais. Em um cenário em que anunciantes buscam engajamento e atenção qualificada, o rádio continua oferecendo algo raro: proximidade genuína com o consumidor.

Em um mundo saturado por telas, o rádio permanece relevante justamente por oferecer algo diferente: presença.

A voz que acompanha o torcedor no trânsito, no trabalho, na rua ou em casa continua sendo parte inseparável da experiência da Copa. Não como resistência ao futuro, mas como prova de que algumas formas de comunicação continuam insubstituíveis.

A Copa do Mundo de 2026 é mais uma oportunidade para comprovar essa força. Em meio à disputa pela atenção do público, o rádio segue demonstrando sua capacidade de adaptação, renovação e conexão emocional. Mais do que sobreviver às transformações tecnológicas, ele continua encontrando novas maneiras de estar presente onde sempre esteve: ao lado do torcedor.

Foto: Magnific

*Michel Angelo é Diretor de Esportes da Itatiaia

Entre em contato com o AcontecendoAqui se tiver interesse em divulgar seus trabalhos para a Comunidade AcontecendoAqui. Envie um e-mail para [email protected]

Publicidade
WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter