Por Paulo Moratore*
O varejo brasileiro entrou em 2026 no meio de um dilema: de um lado, a expansão moderada do setor ganha tração, com a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE registrando crescimento de 0,6% no volume de vendas em fevereiro de 2026 frente a janeiro – apesar do prognóstico de desaceleração. De outro, a corrida tecnológica acelera e separa, com nitidez crescente, redes que conseguem investir em digitalização do ponto de venda e as que seguem operando com sistemas isolados, planilhas e processos manuais.
A defasagem não decorre de falta de oferta tecnológica nem de visão estratégica. Projetos de digitalização do PDV, especialmente os que envolvem substituição em escala de etiquetas tradicionais por eletrônicas, integração com plataformas de precificação dinâmica e infraestrutura de retail media, exigem investimento inicial significativo, frequentemente na casa dos milhões para uma única loja de médio porte e em ordens de grandeza maiores para redes regionais.
Os benefícios operacionais são amplamente documentados pelo setor, com redução expressiva no tempo de atualização de preços, eliminação de divergências entre gôndola e caixa, e liberação de mão de obra antes dedicada à manutenção manual de etiquetas. O obstáculo está em outro lugar, na conta inicial desses projetos, que não cabe no caixa do mês nem na linha de capital de giro convencional, em um momento no qual o custo do capital privado tradicionalmente disponível ao varejo, com taxas próximas a 25% ao ano, torna inviáveis iniciativas cujo retorno operacional, ainda que comprovado, não compete com esse patamar de juros.
O que muda com as novas linhas de crédito
É exatamente nessa equação que dois movimentos recentes da política industrial brasileira alteram a referência. Em 16 de abril último, o governo federal detalhou as condições da segunda etapa do Plano Brasil Soberano, com R$ 15 bilhões adicionais via BNDES destinados a setores de média-alta e alta intensidade tecnológica, incluindo eletrônicos e equipamentos de informática.
As taxas variam entre 0,94% e 1,41% ao mês, com prazos de até 20 anos e carência de até quatro anos para investimento, conforme portaria conjunta dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Fazenda. A medida soma-se à linha Crédito Indústria 4.0, lançada pelo BNDES em agosto de 2025 com R$ 10 bilhões para aquisição de bens de capital que incorporem inteligência artificial, internet das coisas e comunicação máquina a máquina, formando um ambiente de crédito subsidiado inédito para projetos de modernização tecnológica.
A linha Crédito Indústria 4.0 conta ainda com R$ 2 bilhões adicionais via Finep, voltados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e foi desenhada para financiar bens de capital que incorporem robótica, inteligência artificial, computação em nuvem, sensoriamento, comunicação máquina a máquina e internet das coisas. Para micro, pequenas e médias empresas, o custo financeiro não ultrapassa 8,5% ao ano, com redução média de seis pontos percentuais em relação às taxas que essas empresas hoje pagam em financiamentos convencionais, conforme dados divulgados pelo BNDES no lançamento da medida. O acesso é indireto, via rede credenciada de instituições financeiras, para projetos de até R$ 50 milhões.
O recorte tecnológico é o que importa para o varejo. Etiquetas eletrônicas operam por radiofrequência e se enquadram diretamente na definição de comunicação máquina a máquina e IoT. Sistemas de precificação dinâmica integrados ao ERP, plataformas de gestão de ofertas, sensores de prateleira para monitoramento de ruptura e infraestrutura de retail media network são arquiteturas que combinam IoT, nuvem e, cada vez mais, modelos de inteligência artificial. Em termos de elegibilidade técnica, esses sistemas estão dentro do escopo da política industrial recentemente desenhada.
O Plano Brasil Soberano, por sua vez, fortalece a cadeia de fornecedores. Ao incluir os setores de eletrônicos e equipamentos de informática entre os elegíveis para os R$ 15 bilhões em condições altamente competitivas, a portaria libera capacidade de investimento na indústria que produz e integra essas soluções, com efeito esperado sobre disponibilidade, escala e custo final dos equipamentos vendidos ao varejo. É a primeira vez em uma década que dois movimentos de política industrial se alinham em direção à difusão tecnológica no Brasil, alcançando ao mesmo tempo a indústria fornecedora e os compradores finais de bens de capital.
A janela estratégica para o varejo brasileiro
A diferença entre 25% e 8,5% ao ano de custo de capital não é cosmética; isso altera uma cadeia enorme de decisões no projeto. Uma iniciativa de digitalização do ponto de venda com retorno projetado em 36 meses pode ser inviável quando financiada por capital de giro a taxas de mercado, e plenamente atrativa quando viabilizada por linha subsidiada com prazo de 20 anos e carência de quatro anos. A mesma tecnologia, com o mesmo retorno operacional, gera resultados financeiros radicalmente distintos a depender da estrutura de capital sob a qual é viabilizada.
O ponto, portanto, não é decidir se a tecnologia compensa, e sim organizar o projeto para capturar a janela de crédito que se abriu. Isso exige três frentes simultâneas: definir o escopo técnico com base em equipamentos credenciados pelo BNDES, dimensionar o projeto considerando o limite de R$ 50 milhões para MPMEs e R$ 300 milhões para médias e grandes empresas, e estruturar a operação financeira com bancos credenciados ao BNDES para acesso indireto às linhas. O desenho da operação influencia diretamente a aprovação e o custo final do crédito, e exige integração entre as áreas comercial, financeira e de TI desde o estágio de planejamento.
Há uma dimensão competitiva nesse movimento. O varejo brasileiro tem operado, há anos, em um cenário de adoção desigual, com redes de grande porte capazes de investir com capital próprio e redes menores limitadas pelo custo do crédito. O Plano Mais Produção, do qual a linha Crédito Indústria 4.0 faz parte, tem como objetivo declarado reduzir essa assimetria, especialmente entre MPMEs. Estudo do IBEVAR-FIA Business School publicado em março de 2026 projeta crescimento consistente entre 3,5% e 4,7% no segmento de informática e comunicação no varejo brasileiro, indicando que o investimento em tecnologia seguirá pressionando margem e competitividade.
Os varejistas que precisam iniciar a digitalização do PDV, sem aguardar a aprovação de uma operação estruturada de longo prazo, ainda tem uma via de acesso imediato ao crédito subsidiado, por meio do Cartão BNDES. A modalidade permite parcelamento com taxas subsidiadas e processo simplificado de uma lista de equipamentos e materiais credenciados, que inclui equipamentos como as etiquetas eletrônicas, equipamentos de informática, equipamentos para comunicação visual, entre outros, sem a necessidade de elaboração de projeto complexo, com acesso direto pelo Portal de Operações do BNDES. O pagamento ao fornecedor é liquidado após a emissão da nota fiscal, e toda a operação é registrada e gerenciada pelo próprio portal.
Pela primeira vez, varejistas regionais e médios podem ter acesso a condições de financiamento próximas às que historicamente só estiveram disponíveis para os grandes grupos, e quem se mover primeiro, com projeto bem desenhado, deve consolidar vantagens operacionais difíceis de reverter no curto prazo.
Quem trata o ponto de venda como um centro de custo a ser administrado tende a postergar investimentos até que a margem permita. Já quem o trata como uma plataforma de receita, dados e experiência entende que crédito subsidiado de longo prazo é exatamente o tipo de instrumento que financia essa transição, e a assimetria entre as duas posturas deve se ampliar à medida que os primeiros projetos forem aprovados. A política industrial brasileira acaba de oferecer, ao varejo que pensa estrategicamente, um instrumento que durante muito tempo esteve disponível apenas para a indústria de transformação, e a discussão relevante deixou de ser sobre a existência do financiamento, passando a ser sobre quem terá o projeto pronto para captá-lo primeiro.
*Paulo Moratore é Head da Selbetti Retail Experience

Foto: Magnific
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