Os esforços para corrigir os males das redes sociais, em especial as câmaras de eco, a dominação por uma pequena elite influente e a polarização, fatores que alimentam a chamada “desigualdade de atenção”, têm se mostrado em grande parte ineficazes, segundo uma nova pesquisa preliminar da Universidade de Amsterdã.
O problema, argumentam os pesquisadores, não está nos algoritmos ou em atores mal-intencionados, mas na própria estrutura das redes sociais como as conhecemos.
O que torna as redes sociais difíceis no nível social, a desigualdade de atenção, também ajuda a explicar as tendências da publicidade nessas plataformas, com marcas grandes e pequenas investindo cada vez mais em criadores.
A eficácia nas redes é complexa e multifacetada, mas compreender que o cenário da atenção é regido por leis de concentração de poder (e não distribuições normais) é essencial para avançar no debate.
Afinal, qual é o problema das plataformas?
Estudar redes sociais é desafiador: observações no “mundo real” são difíceis de conduzir e muitas simulações não capturam os aspectos culturais ou políticos da polarização online, explica um dos pesquisadores ao Ars Technica.
O dado mais marcante do estudo é que mesmo o modelo de controle, antes de qualquer intervenção, já apresentava consequências problemáticas, sobretudo a tendência das pessoas de interagir apenas com quem concordam e o domínio de vozes com muitos seguidores.
“Não é necessariamente porque as plataformas são más; nem porque as pessoas buscam ambientes tóxicos. Isso simplesmente decorre da estrutura que oferecemos”, afirma Petter Törnberg, professor assistente do Instituto de Linguagem, Lógica e Computação da Universidade de Amsterdã.
O que o estudo encontrou
Törnberg e Maik Larooij publicaram o pré-print Can We Fix Social Media? Testing Prosocial Interventions using Generative Social Simulation. O estudo simulou plataformas sintéticas com modelagem baseada em agentes e LLMs, permitindo que agentes postassem, compartilhassem e seguissem outros.
Mesmo nesse cenário básico, surgiram problemas: “Apesar da simplicidade, o modelo reproduz três características típicas das plataformas políticas on-line: homofilia ideológica, distribuição desigual de atenção e engajamento preferencial com conteúdo polarizador”, escrevem os autores.
Foram então testadas 6 estratégias de intervenção, propostas frequentemente como soluções para reduzir problemas algorítmicos das redes, em versões idealizadas:
- Feeds cronológicos ou aleatórios;
- Redução da ênfase em conteúdos muito repostados;
- Equilíbrio entre conteúdos partidários;
- Priorização de postagens com alta empatia ou argumentação;
- Ocultação de métricas sociais (como número de seguidores);
- Ocultação de biografias para reduzir sinalizações identitárias.
Dessas, os feeds cronológicos mostraram o maior impacto na redução da desigualdade de atenção, já que quebram o ciclo entre visibilidade e popularidade, dando mais chance a outros conteúdos. Mesmo assim, o efeito foi limitado: as bolhas ideológicas permaneceram quase inalteradas. As demais estratégias tiveram impacto mínimo sobre desigualdades de alcance e seguidores.
“As redes sociais criam uma estrutura de incentivos que redefine não apenas como vemos a política, mas o que a política é e quais políticos se tornam poderosos e influentes, porque controlam a distribuição daquilo que talvez seja a forma de capital mais valiosa de nossa era: a atenção.” – Petter Törnberg, à Ars Technica.

Foto: Pexels
Fonte: WARC
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