O Google vem testando, de forma silenciosa, novas maneiras de combater o chamado tráfego inválido, atividades publicitárias que não são geradas por usuários reais interessados, mas por bots, cliques acidentais ou esquemas fraudulentos, usando aprendizado de máquina e inteligência artificial ao longo do último ano e meio. Segundo a empresa, esses esforços já resultaram em uma redução significativa desse tipo de tráfego desde o final de 2023.
A divisão de qualidade de tráfego publicitário do Google, em parceria com especialistas do Google Research e do Google DeepMind, está utilizando modelos de linguagem multimodais capazes de navegar por sites e aplicativos móveis simulando o comportamento humano. Essa tecnologia entende as funções de um site ou app, interage com ferramentas de navegação, observa anúncios, captura telas e identifica anúncios enganosos ou invasivos analisando instruções de exibição, como quando um botão de anúncio deveria aparecer, mas não aparece.
Combinado a ferramentas de aprendizado de máquina e à análise tradicional de dados, o sistema impulsionado pelo Gemini consegue detectar cliques acidentais, anúncios ocultos (invisíveis ou quase impossíveis de ver, mas que ainda registram impressões) e anúncios fora de contexto que forçam o usuário a interagir contra a própria vontade.
Após a detecção pela IA, todos os casos passam por revisão humana para garantir a aplicação correta das políticas.
Um projeto-piloto, realizado entre dezembro de 2023 e outubro de 2024, resultou em redução de 40% do tráfego inválido em dispositivos móveis causado por anúncios “enganosos ou disruptivos”, que incluem desde banners ocultos até pop-ups inesperados que violam as diretrizes de posicionamento. Além de não estar totalmente automatizado, o processo aumentou a velocidade e a precisão na aplicação das regras.
O problema é relevante: no primeiro trimestre de 2025, a taxa global de tráfego inválido foi de 18% na web e 31% em aplicativos móveis, segundo dados da Pixalate, que avaliou mais de 100 bilhões de impressões programáticas em todo o mundo.
Para Per Bjorke, diretor de gerenciamento de produtos de qualidade de tráfego do Google, combater o IVT protege anunciantes, editores e usuários:
“Se um anunciante investe US$ 100 mil e US$ 10 mil vão para tráfego inválido, esse valor é desperdiçado. Além disso, qualquer dólar pago a criminosos é um dólar que deixa de ir para um bom editor, o que enfraquece todo o ecossistema publicitário.”
Até mesmo usuários comuns podem sofrer consequências. Bjorke citou o caso de uma tentativa de ligação para o serviço de emergência 911 interrompida por um anúncio pop-up, e alertou que algumas fraudes instalam malware nos dispositivos, ampliando os riscos.
Somente neste ano, o Google já desmantelou ao menos duas grandes redes de bots em aplicativos Android. Em julho, removeu 352 apps envolvidos em um esquema que chegou a gerar 1,5 bilhão de solicitações diárias de lances publicitários. Em fevereiro, eliminou quase 200 aplicativos ligados a outra operação de fraude. Ainda em julho, processou judicialmente um grupo de hackers chineses responsável por infectar mais de 10 milhões de dispositivos Android com malware.
Segundo a empresa, o uso de IA é uma aposta que continuará trazendo resultados:
“É sempre um jogo de ataque e defesa”, disse Bjorke. “Nós avançamos, eles mudam de tática; avançamos de novo, e eles mudam de novo. A diferença é que a IA consegue responder e reagir muito mais rápido.”
Na semana passada, a equipe de segurança de anúncios do Google afirmou em um blog corporativo ter alcançado uma redução 10 mil vezes no volume de dados necessários para treinar IA na detecção de anúncios que violam políticas, um indicativo de que as técnicas estão ficando cada vez mais eficientes.

Foto: Pexels
Fonte: AdWeek
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