Em 1985, o convidei para prefaciar o livro que conta os primeiros 21 anos de nossa jornada
(“Sabor de Sucesso”), produzido pelo jornalista Carlos Stegemann
por Beto Barreiros, fundador do BOX 32
O que sempre me impressionou nas pessoas ilustres que já vieram e/ou costumam vir ao Box 32 é a simplicidade. Com o tempo, suspeitei que os visitantes se contaminassem com a atmosfera do Mercado Público, com o vai e vem de populares e com a imagem dos pontos de venda, resgatando em parte a autenticidade que remete ao comércio praticado décadas atrás. É possível.
Washington Olivetto, entretanto, quando chegou ao Box apenas revelou o que sempre gostou: estar entre o povo. Em uma entrevista ao jornal ‘Valor’, admitiu que nenhuma das premiações recebidas (várias delas equivalentes ao Oscar da publicidade mundial) o gratificava tanto quanto estar na boca do povo. Olivetto amava o Brasil e viu um pedaço muito interessante de nosso país, múltiplo e colorido, na azáfama das manhãs do Mercado Público de Floripa. Nessas horas, se despia do ‘physic de role’ de publicitário e todas as maneiras de ser de um homem no topo da pirâmide corporativa do estado mais rico do Brasil – e se transformava em um deliciado admirador do que prescrutava, com os cotovelos apoiados em nosso balcão. Sempre que veio à Ilha, passava pelo Box 32, onde gostava de conversar com as pessoas, indiferente de quem se tratava, sendo mais ouvinte do que falante.
Quando perdemos Olivetto nos privamos de alguém que sabia reproduzir o melhor do jeito de ser do brasileiro, fosse em suas memoráveis e, arrisco dizer, incomparáveis campanhas, ou nas geniais frases que enunciava em tom sentencial.
Em 1985, o convidei para prefaciar o livro que conta os primeiros 21 anos de nossa jornada (“Sabor de Sucesso”), produzido pelo jornalista Carlos Stegemann, e ele não apenas aceitou como produziu um generoso texto no mesmo impulso de suas grandes criações. Inquieto, irreverente, crítico mordaz, instigante e dono de uma persistência tenaz como poucos, Olivetto ajudou em muito a fazer de nosso balcão “o mais democrático do Brasil”. Sua partida nos faz refletir acerca do quanto o ser humano, de breve passagem terrena, se perpetua em suas obras.
Obrigado, Washington Olivetto.
Beto Barreiros, 15/10/24
N.R. A foto acima foi feita por Beto Barreiros em 2002 no Box 32 original

