A jovem senhora, daquelas que os colunistas de antigamente chamavam “locomotiva social”, ficou boquiaberta como quem visse de perto o último dos unicórnios. Deixou o copo de espumante de lado – a emoção do momento exigia mãos livres para exultar – e declarou em alto e bom som a descoberta recente: “que incrível: você fala inglês!” E reforçou para o entorno: “Olha só: ele fala inglês!”
Diante dela, o senhor de meia idade conversava com duas amigas. Todos falavam inglês fluente. O homem – só ele – era preto.
A cena ocorreu (com uma ou outra diferença) anos atrás em Florianópolis. Mas é certo que se repete com frequência, com maiores ou menores variações de personagens e situações, em diferentes partes. Fruto, claro, dos preconceitos raciais e sociais tão presentes no dia a dia.
Tsitsi Damgarembga, que já foi citada aqui , dá verdadeira aula sobre o assunto nas 280 páginas do seu O Livro do Não, segunda parte da trilogia iniciada com o ótimo Condições Nervosas e completada por Esse corpo lamentado. Mais uma vez, a autora nascida no Zimbabue faz literatura de primeira qualidade.
A continuação da trajetória de Tambudzai, personagem principal da trilogia, é desoladora. A história tem como pano de fundo a guerra de libertação do país, à época ainda colônia dominada por europeus. Os maiores conflitos, porém, acontecem em um cenário que poderia fazer parte da realidade de qualquer leitor – o que desperta a incômoda sensação de proximidade e quase cumplicidade com as injustiças e barbaridades que marcam a vida da jovem.
Interna em um colégio mantido pelos europeus para receber preferencialmente suas filhas, Tambu é uma entre apenas seis alunas pretas que convivem com centenas de jovens brancas. As meninas do chamado “dormitório africano” estão ali para atender a uma cota estabelecida pelo governo. Selecionadas por freiras que não conseguem esconder seus próprios preconceitos, vivem segregadas. Não podem usar o mesmo banheiro que as colegas, que também evitam o contato físico em atividades do dia a dia, e são humilhadas nas mais diversas situações.
“Elas (as alunas europeias) encontrariam um nome horrível para chamá-la que seria usado por toda a escola. Ou elas imitariam você para fazer você parecer uma idiota e todos rirem sempre que elas reproduzissem aquele seu trejeito em particular, seja ele qual fosse, ou pior, sempre que você passasse”.
“O pior é quando elas nem se esforçavam. “Ei, cara, olha lá aquele kaffir!” (pessoa sem fé). Uma delas gritava, simplesmente. Onde quer que você estivesse, o que quer que estivesse fazendo, se você pertencesse ao último dormitório do corredor dos primeiros anos, você congelava”.
No dia a dia, as meninas também são as vítimas preferenciais da freira governanta da escola e vivem ansiosas e preocupadas diante do risco sempre iminente de cometer um ato qualquer (tão simples quanto tocar a comida de uma colega ou entupir o vaso sanitário) que será considerado inaceitável pelas outras pessoas.
Apesar de tudo, a protagonista e suas amigas fazem o que podem para vencer. Crente de que a educação é a única forma possível de escapar do círculo vicioso que condena o povo local à pobreza, Tambu dedica-se ao extremo e conquista as melhores notas de todo o colégio em determinado período. À primeira vista, uma senha para abrir portas até então trancadas para a jovem e seus parentes.
A realidade, porém, é mais complexa e injusta do que o imaginado pela jovem. Muitas vezes pega de surpresa, sem saber de que direção vem o golpe e sem chance de defesa, ao longo da história ela vai ver desmoronarem um a um os seus planos e sonhos – primeiro na escola, depois na carreira.
Tenho o péssimo e pouco civilizado hábito de dobrar páginas de livros onde há trechos interessantes. O exemplar do Livro do Não na estante está cheio dessas “orelhas-de-burro”, como diziam as avós. São inúmeros os momentos especiais de uma obra angustiante, mas imperdível.
