Produção norte americana foi gravada em Florianópolis
A cineasta catarinense, Aline Andrade, transformou em roteiro uma história de família contada de forma despretensiosa e, em meados de janeiro deste ano, ela e a equipe gravaram o curta-metragem

A atriz Joana dos Santos, à esquerda, alinhando a cena com a diretora Aline Andrade | Crédito: Divulgação/Fine Frenzy Films
Entre trabalhos realizados para a Netflix, HBO, National Geographic e FIFA+ como produtora e atriz, a catarinense Aline Andrade soma mais de 20 anos morando fora do Brasil e mais de uma década trabalhando no setor cinematográfico em Los Angeles e Hollywood, nos EUA. Depois de escutar uma história de família, Aline se inspirou para escrever o roteiro e gravar o curta-metragem “Macumba: Folclore de Família”, na capital de Santa Catarina.
Aqui neste link tem mais informações sobre o drama sobrenatural de realismo mágico que se passa no Brasil dos anos 60 e traz a tona a Umbanda e o Catolicismo.
As gravações de “Macumba…” foram feitas de 16 a 20 de janeiro, em diversos lugares da Grande Florianópolis. O elenco, formado por Raquel Stüpp, Chico Caprario, Joana dos Santos e Zoê França Danielewicz, em seu primeiro filme – já como personagem principal – bem como toda a equipe do curta, esteve em uma sintonia fina para fazer uma produção cheia de significados.
Acompanhe a entrevista com a Aline, para ficar com um gostinho do que será o curta-metragem:
O roteiro do “Macumba: Folclore de Família” foi escrito por você. Como você chegou a esta história?
Eu sempre estou desenvolvendo ideias para filmes. Entre um trabalho e outro, a minha atividade de passatempo é criar novas histórias. Tenho vários roteiros de curta e longa metragem começados, mas este nasceu de uma história contada meio acidentalmente pela minha mãe. Eu estava visitando meus pais e em uma das noites em que estávamos sentados na sala conversando e rindo, surgiu essa história. Nestes momentos, é normal lembrarmos dos meus avós, que já faleceram, é comum eles “aparecerem” em histórias e lembranças. Enfim, nesta noite, minha mãe, Elisabeth, mencionou que a sua mãe, Ilza, minha avó, tinha feito uma macumba de mentira pro meu avô Augusto. Eu fiquei meio chocada, achei engraçado e pedi detalhes. Apesar da falta de detalhes, aquele evento ficou comigo e me fez sentir que conhecia um pouco mais da minha família.
Acabei fazendo uma conexão da história com um curso que fiz sobre narrativa. Isso me deixou pensando que as histórias mais envolventes são as que estão relacionadas com pessoas mais próximas de quem escreve, como pais e filhos. Assim, acabei colocando a história no papel e construí um arco de narrativa que tivesse base na dinâmica da família. Foi como surgiu o roteiro do filme.
E como foi o processo de escrita?
Então, me deixei escrever sem pensar no que as pessoas iriam pensar. Enquanto parte de mim morre de medo de me expor, porque eu também inclui aspectos meus nos personagens (era inevitável isso acontecer), também sinto um friozinho no coração quando as possibilidades começam a desenrolar e os pontos da história a se encontrar como se já existissem antes mesmo de eu os escrever.
Gosto de dizer que escrever histórias é meio mágico, até um pouco inexplicável. No caso de “Macumba…”, eu me dei a liberdade de criar os aspectos emocionais de pessoas reais com quem não tinha tanta intimidade assim. Para isso, usei eventos e fatos, mas também a minha impressão dos acontecimentos. Por exemplo, eu sempre achei minha avó querida, porém distante. Como se fosse inatingível. Então a imaginei assim com a filha, Elisabeth. Imaginar e escrever essas pessoas fez crescer uma força interna, em mim, muito grande. Sinto que fico tentando explicar o inexplicável.
O que te levou a querer contar essa história na telona e aqui no Brasil? Afinal, você trabalha há anos em Los Angeles e Hollywood, porque não fazer lá?
É interessante pensar que a história se passa em Tubarão, a duas horas ao sul de Floripa, mas que ainda assim eu escrevi o filme em inglês primeiro, depois algumas frases em portugues, porque a ideia inicial era filmar em Los Angeles. Mas quando comecei a mostrar o roteiro para uns conhecidos do Brasil percebi que fazia mais sentido traduzir todo o roteiro para o português e sair do mercado que eu conheço, em Los Angeles, para seguir meus instintos e trabalhar com muitos profissionais super competentes aqui no Brasil.
Florianópolis está cheia de gente talentosa e de uma sensibilidade e experiência que não se iguala ao resto do estado. E, confesso, como já faz 20 anos que não moro no Brasil, fiquei feliz demais por ter uma desculpa para passar esses dias na Ilha da Magia. (Risos!)
Além disso, é uma história bem brasileira com elementos mágicos e religiosos e penso que será bem recebida no Brasil, porque é a nossa cultura, e no exterior porque o público internacional tem curiosidade.
De qualquer forma, eu vejo um potencial visual imenso nessa história: um filme que tem elementos de relação pais e filhos, psicologia infantil, a religião da Umbanda a partir do ponto de vista Católico predominante, e o mistério. Este é o formato de filme que eu mais tenho paixão e experiência. Em geral, um filme tem possibilidade de produção independente, como é a nossa, e distribuição múltipla, tanto no cinema como em plataformas tipo a Netflix. No momento, o público precisa estar muito curioso para ir ao cinema, e acho que Macumba: Folclore de Família tem elementos curiosos que vão levar as pessoas ao cinema.

À esquerda os atores Chico Caprário e Raquel Stüpp ao lado de Aline Andrade e o diretor de fotografia e cinematografia, Rubens Angelotti
Para você, como pessoa e profissional envolvida, como foi a experiência de gravar esse filme?
Foi muito enriquecedora, em vários sentidos. Tive a oportunidade de trabalhar com gente muito comprometida e apaixonada pelo cinema e pela arte de contar histórias.
Todo o processo é sempre muito cansativo (e essa parte não posso romantizar). Os dia de filmagens são como chegar nas olimpíadas: o amor pela arte é testado porque muitas habilidades opostas tem que ser usadas com sucesso ao mesmo tempo para garantir que o resultado seja positivo.
Como produtor, se pensa mais logisticamente, e como diretor, é uma mistura de razão e emoção. No final das filmagens sempre tem um momento de reflexão para processar tudo.
Já pessoalmente…
…eu adorei ver os atores interpretarem os personagens baseados nos meus avós já falecidos e na minha mãe quando menina.
Confesso que achei que seria mais fácil, mas foi delicado. Enquanto trabalhava com os atores, via alguns flashes das pessoas que eu conhecia e tinha que segurar a emoção. Mas também vi os artistas se expressando e achando outras maneiras de ser o Augusto e a Ilza, e eu amei isso, porque sei que um filme não é vida real.
Filme é começo, meio e fim dentro de 15 minutos (nesse caso). Eu espero que parte da minha família que não trabalha com cinema entenda que o filme começou com uma história ou duas da família, mas virou uma entidade própria. E eu estou bem feliz com o que capturamos nas filmagens.
Você sente que sempre que faz um filme, alguma coisa se transforma em você? Como esse filme te transformou?
A importância do projeto é sempre sentida como se fosse uma montanha a ser escalada. E olhar pra montanha antes de escalar inspira medo, admiração, excitação… é uma coisa meio louca, porque mesmo já tendo experiência com qualquer outro filme, um novo filme sempre vai ser ” uma nova montanha”. No meu caso, no final de TODOS os projetos tem choro de cansaço, de felicidade, de alívio.
Isso é coisa que eu só falo pros meus colegas mais íntimos! Mas agora tu sabe também (risos).
Qual o próximo passo do filme depois das filmagens?
Ele ainda precisa ser finalizado. A edição e a montagem estão sendo feitas em Florianópolis e eu vou gerenciar o progresso remotamente.
Passei os últimos dois anos trabalhando de casa com editores e produtores para HBO, CNN, Netflix e estou muito confiante que o processo de edição de “Macumba…” vai sair ótimo.
Depois vem a colorização, design de som e composição de música. Estou em contato com todos os profissionais e acredito que em Abril teremos um filme que todos da equipe vão se orgulhar de fazer parte.
Algum festival em vista?
Eu estou em contato com produtores do Sundance Film festival de Park City, Utah (EUA), através de um programa de colaboração para desenvolvimento da minha carreira como roteirista e produtora. O programa é separado do festival mas tenho tido muito apoio e informação que estão me ajudando a preparar o plano para festivais.
Estou organizando nossa estratégia de festivais junto com um dos produtores com quem trabalho, Chris Blackburn, colega dos meus anos morando em Utah, e a expectativa é enviar o filme para festivais de vários níveis e tópicos.
Depois de enviar o curta para festivais de cinema nacionais e internacionais e mostrá-lo para o maior número de pessoas possível, temos entrada para parcerias com outros produtores e investidores que gostem da história e, se tiverem interesse de se juntar à nossa equipe, filmamos o longa-metragem que terá mais chance de ser distribuído por cinemas ou plataformas internacionais.
E você pensa em trazer mais trabalhos pro Brasil?
Acho o Brasil riquíssimo visualmente para o cinema e culturalmente para tópicos de narrativa tanto para ficções como para documentários. Eu estou muito interessada em continuar tendo parcerias com produtores e talentos no Brasil. Estou aberta para conversar com qualquer pessoa que esteja interessada em seriamente produzir filmes no Brasil/do Brasil para mercado nacional ou internacional.

Os atores de “Macumba: Folclore de Família”: Raquel Stüpp, Zoê França Danielewicz, Joana dos Santos e Chico Capprário | Crédito: Divulgação/Fine Frenzy Films
A diretora e roteirista trabalha em outros três projetos, inclusive coproduções entre Brasil, França e Estados Unidos:
A Regente, um filme de época que conta uma parte da história não muito conhecida da Princesa Isabel, vai ser feito no Brasil
Aureo&Mirele, um documentário sobre a vida de um imigrante brasileiro em Paris (Brasil e França)
Super AJ/ Fame and Decadence in America, um documentário sobre um jornalista francês em Los Angeles e Nova Iorque dos anos 80 (EUA e França)
Vale ficar atenta(o) a estas produções e acompanhar os trabalhos de Aline Andrade no cinema.
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