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Coluna Entretenimento | Entrevista Luiza Lins, diretora da Mostra de Cinema Infantil
25 de Outubro de 2022

Coluna Entretenimento | Entrevista Luiza Lins, diretora da Mostra de Cinema Infantil

A importância que o acesso à cultura e ao cinema cinema tem para crianças e para os adultos foi um dos assuntos que conversamos com Luiza Lins. Leia a entrevista e divirta-se

Por Entretenimento 25 de Outubro de 2022 | Atualizado 27 de Outubro de 2022

A importância que o acesso à cultura e ao cinema cinema tem para crianças e para os adultos foi um dos assuntos que conversamos com Luiza Lins. Leia a entrevista e divirta-se

 

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Luiza Lins, à esquerda, com Lola Belli, atriz que interpreta Mirabel em “Pluft, o Fantasminha” | Crédito: Carolina Arruda

O paranaense “Sobre amizades e bicicletas”, de Julia Vidal, ganhou como melhor filme na categoria Júri Oficial, da 21ª Mostra de Cinema Infantil, realizada de 7 a 22 de outubro em Florianópolis. O resultado, que foi divulgado no último sábado (22), reforça a importância de temas como inclusão social e diversidade, principalmente quando o assunto é formar público, seja esse público infantil ou os adultos que acompanham as crianças ao cinema.

O filme conta a história de Thiago, que sempre sonhou em participar da corrida de bicicletas, mas isso parecia um sonho impossível devido à sua condição física. Tudo muda quando ele conhece Cecília, uma corajosa menina com deficiência visual que não conhece limites. Juntos, eles vão aprender a andar de bicicleta e o significado da amizade.

De acordo com Luiza Lins, diretora do Festival, os adultos que vão à Mostra gostam muito dos filmes que assistem. Ela reforça, ainda, que a família precisa ficar atenta às demandas das crianças e oferecer cinema de qualidade para elas, sugerir livros e se esforçar mesmo, principalmente nos primeiros sete anos, que é quando a criança está muito aberta às referências de arte, cultura, natureza. “Se os pais não se atentarem para isso até esta idade, vão ter mais problemas com essa criança quando ela for adolescente”, disse.

Luiza conversou com a coluna e contou como foi o retorno do evento ao presencial, com programação online também, depois de dois anos acontecendo totalmente online.


Luiza, como foi voltar ao presencial e o que você sentiu de diferente considerando a última edição presencial?

Foi um grande desafio e super satisfatório! Enquanto a primeira edição online foi cheia de novidades e foi preciso entender como era fazer com que ela funcionasse, no segundo ano online já estávamos adaptados.

Este ano, para voltar ao presencial, tivemos que lidar com questões como a qualidade dos filmes para serem exibidos presencialmente, que precisa ser diferente dos filmes para o formato online.

Também foi necessário pensar sobre a grade de programação! Era preciso fazer com que os 15 dias de evento tivesse uma dinâmica interessante exibições e eventos durante o Festival. E uma coisa é colocar a programação em uma plataforma e deixar lá por 15 dias, outra coisa é fazer essa grade funcionar presencialmente.

Por isso, dividimos entre o Pedro Ivo na primeira semana, com exibição de longa, plateia cheia e palquinho; na segunda semana fizemos exibições de manhã e à tarde para escolas no cinema do CIC, aberto ao público, quando tivemos um público espontâneo muito bacana, porque o CIC é um local mais acessível que o Pedro Ivo.

Além disso, temos mais de 120 escolas municipais que estão com os filmes para serem exibidos aos estudantes que não puderam ir presencialmente. Para isso, tivemos que capacitar professores para fazer a transmissão e exibição dos filmes.

Fizemos, ainda, exibições ao ar livre na Vila Aparecida e no Largo da Alfândega, que reuniu muita gente e na Reitoria da UFSC, em que foi realizada uma Mostra em homenagem aos povos originários. O Itaú Cultural ainda estava transmitindo os filmes online.

Então, entre todas essas pessoas, contabilizamos um público de 8,7 mil pessoas até agora, mas que vai aumentar, devido às exibições nas escolas.

Ou seja, estamos todos com o coração aquecido por ter contemplado tantas pessoas com um festival que lá no começo, em 2002, ninguém achava muito que iria dar certo… Estou muito feliz com este resultado!

 

Quais os pontos altos que você destaca do evento?

Além de termos um trabalho forte nas redes sociais, que aprendemos a fazer ainda melhor durante a pandemia, fomos muito cuidadosos para atrair o público. Afinal, não basta você fazer um evento, você tem que trazer público. E soubemos fazer isso com Mostra gratuita com direito a pipoca gratuita, além de muito carinho para receber as crianças.

Também ainda fico muito feliz ao lembrar do abraço que eu dou na Lola Belli, atriz que faz a Maribel em “Pluft, o Fantasminha”, porque é um filme muito da minha infância. Neste momento do abraço pensei “fiz essa mostra para minha criança”! (Risos) Fiquei muito feliz em recebê-la no evento.

Tivemos uma programação muito pra cima, voltamos com muita energia, conseguimos fazer um evento cultural para a infância, mesmo com todas as dificuldades que estamos tendo na cultura atualmente. Trouxemos esperança, amor, fomos envolvidos nessa energia da infância e da arte.

 

Qual a importância de um Festival de cinema voltado para o público infantil?

A arte, o cinema, possibilita a criança a sonhar com outros mundos possíveis. Porque a criança está inserida em uma sociedade, em uma família que tem seus padrões que, muitas vezes, não possibilita ir ao cinema. Seja por falta de orçamento ou porque a família não tem interesse em fazer esse passeio. Quando a criança vai ao cinema e vê algo totalmente diferente do seu mundo ou, até mesmo, se reconhece naquele mundo que ela vê refletido na tela, acaba fazendo conexões para a vida dela.

Acabam por achar que eles também podem ser diferentes ou podem se desarmar de sentimentos e emoções, quando percebem que não estão sozinhas em algumas situações.

Por isso, eu digo que a gente acaba promovendo a inclusão social, mas também a inclusão cultural na sociedade. Ter acesso à arte, faz com que as crianças se conheçam e respeitem as outras histórias. Se eu sou atuante na sociedade, é porque tive acesso à cultura.

 

Como é trabalhar a formação do público para o cinema?
O cinema, a arte, te coloca em outras situações e realidades. O filme mostra mundos diferentes e empodera crianças a partir de novos padrões, potencializando toda essa novidade que a criança traz com ela de reciprocidade, de amor. A criança tem essa abertura para o novo. Enaltecer, passar valores positivos, é muito bom e gratificante.

Hoje em dia as imagens estão em todos os lugares. As narrativas são micro, então é importante apresentar as narrativas mais longas, de 10/15 minutos para uma criança que está cada vez mais ansiosa para que aquela história acabe logo. Percebo que nunca se precisou tanto de uma formação para o audiovisual e para as telas como agora.

Uma mostra como essa, acaba apoiando a criança nesse conhecimento, mostrando outros formatos que os estímulos atuais acabam por diminuir essa prática de consumir produtos mais longos.

Os pais precisam ficar atentos, oferecer cinema de qualidade, sugerir livros e se esforçar mesmo, porque os primeiros sete anos na vida de uma criança é tudo. Ela precisa de natureza, precisa de arte e se os pais não se atentarem com isso até esta idade, vão ter problemas com essa criança quando ela for adolescente.

A Mostra se insere em todo esse cenário. Eu fui uma criança muito feliz em relação a isso, minha família prestava atenção nisso. A criança é cidadã e tem direitos enquanto criança garantidos pela constituição e acesso a cultura é um direito da criança

Eu faço um trabalho que pode ajudar a criança a ter momentos afetivos, memórias amplas para um mundo melhor!

 

São 21 anos de Mostra de Cinema Infantil. Quais as consequências desse evento? O que ele traz consigo?

Em paralelo às exibições, fazemos diálogos sobre políticas públicas com gestores culturais e, por ser algo bastante original, acabamos por abraçar realizadores, gestores culturais, professores, famílias, de uma forma bastante abrangente para tentar mostrar a importância das questões que são levantadas durante o Festival. Desde o hábito de consumir filmes produzidos aqui, até questões como diversidade de gênero, inclusão de pessoas com deficiência, questões de raça, respeito aos povos originários.

São temas que as crianças têm mais resolvidos que a gente. Tanto que no começo, os adultos eram muito resistentes em relação aos curtas, mas hoje em dia professores, pais e os próprios realizadores amam os curtas catarinenses.

Justamente para trazer mais identificação das crianças de Santa Catarina, foi que eu me aventurei a fazer o roteiro e a direção do filme “O mistério do boi-de-mamão” em 2005, com o Marko Silva.

Depois, nos empolgamos e fizemos o “Campeonato de Pescaria”, em 2009. Em 2013, ele e o Chico Faganello fizeram “O Sumiço da Coroa”. Este eu apenas produzi. Mas foram filmes que trouxeram mais identificação mesmo.

Inclusive, é uma conquista da Mostra o Prêmio do Cinema Catarinense reconhecer sempre dois curtas metragens feitos para criança!

 

Equipe do filme “Chef Jack”, dirigido por Danton Mello, ao centro | Crédito: Carolina Arruda

 

Como está a produção do cinema infantil em Santa Catarina atualmente?

Hoje em dia Santa Catarina é o terceiro estado em produção audiovisual para criança e, além da produção infantil, é o estado com cada vez mais destaque no audiovisual brasileiro como um todo.

Não é por acaso que os profissionais mais focados no eixo Rio-São Paulo ficam surpresos ao chegar em terras catarinense e encontrar evento bem produzidos. Foi muito bacana a troca com grandes nomes do audiovisual durante a Mostra, como aconteceu com Danton Mello, diretor do Chef Jack, exibido pela primeira vez no Brasil. A gente convida todos os realizadores de curtas e longas pra eles conhecerem e, quem vem, gosta muito.

Tem um festival da atriz e cineasta Carla Camurati que costuma fazer muita parceria com a Mostra de Cinema Infantil, mas eles fazem em shopping todo ano. A gente tem um retrato da infância brasileira e o que ela consome. Assim, prestamos um serviço para todas as áreas da cultura e da informação ao tornar o catálogo público, inclusive com os contatos de realizadores.

 

Luiza, próximos passos para o cinema infantil?

Desde 2014, existe a Lei 130.06, que estipula duas horas mensais de cinema brasileiro na escola. As crianças cresceram vendo cinema norte-americano e acham chato o cinema braisleiro. Há alguns anos, estive no MINC e no MEC durante seis meses para estudar a regulamentação da lei do cinema brasileiro.

Quando a cultura voltar a ser importante no país, vamos retomar esse caminho para fazer essa lei valer. Deveriam transformar o cinema para criança e fazer como se faz com livro. Mas acredito que temos muita chance de essa Lei ser realmente implementada, ter mais incentivo para produzir mais para as crianças. Tenho esperança de que tudo vai funcionar.

Veja aqui os filmes que ganharam na categoria Júri Oficial, Voto Popular e Prêmio Especial das Crianças da 21ª Mostra de Cinema Infantil:

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