Não me considero um acompanhante fanático por futebol. Nos últimos tempos o futebol mercantilizou-se de tal maneira que acabou afastando as pessoas que o acompanhavam, apenas, como observadores de uma importante atividade social. O poder econômico de alguns clubes, a violência institucionalizada entre as torcidas, os frequentes erros de arbitragem e a desorganização da entidade gestora do futebol desiludiu muita gente que como eu, simplesmente, passou a acompanhar os resultados.
Mas, de uns tempos para cá, chamou-me atenção a atuação de um técnico de futebol e comecei a acompanhar suas entrevistas após a realização dos jogos de seu clube, sempre que possível. Trata-se de Abel Ferreira, o técnico português da Sociedade Esportiva Palmeiras. Suas entrevistas são carregadas de lucidez e plenas de conteúdo no tocante ao jogo, seu clube, o adversário e a estrutura do futebol brasileiro. Os resultados apresentados até aqui, em menos de 2 anos de atuação, validam sua atuação como líder deste importante clube do futebol brasileiro e tornam-no respeitável perante a imprensa esportiva (não engajada) do país e sua grande torcida.
Liderar a partir da definição de prioridades, do reconhecimento da potencialidade de cada um de seus jogadores, das estratégias a serem usadas em cada partida considerando a diferença de seus adversários, dominar a estrutura de funcionamento do futebol brasileiro em curto período estes são papéis que o técnico tem que exercer e, pelo que se nota, Abel Ferreira faz com propriedade. A liderança não deve ser apenas exercida, ela tem que ser aceita pelos liderados e, o que se vê nas entrevistas do técnico é a plena concordância dos jogadores a cada frase dita pelo seu treinador pelo acenar positivo de cabeças de seus diferentes acompanhantes, o que indica plena aceitação; isto mostra admiração dos liderados e o controle absoluto do grupo pelo treinador.
Nas entrevistas que assisti nunca ouvi o técnico criticar algum jogador em público. Suas referências ao elenco são sempre positivas mesmo nos momentos ruins e as dificuldades tratadas em particular. Este é um princípio de liderança que anda meio esquecido: elogiar em público e criticar no particular. Além de dirigir seu clube, o técnico tem feito críticas à maneira como é conduzido o futebol brasileiro. Ano após ano, o calendário é atropelado por eventos outros, obrigando sua compactação com prejuízos evidentes aos clubes menos favorecidos financeiramente e com elencos menos qualificados. Todas as críticas feitas são pertinentes e visam a melhoria do futebol brasileiro.
Quando se compara as entrevistas com a de outros técnicos as diferenças são gritantes; enquanto Abel fala sobre táticas empregadas, sobre esquemas de jogo, a maioria dos outros centram suas reclamações em circunstâncias do jogo e nada explicam sobre porque seu clube jogou da forma que jogou. São diferenças que mostram o preparo dos técnicos na condução de suas equipes.
Como no futebol, a liderança faz a diferença nas empresas e em seus resultados. Saber analisar o desenho do futuro é papel da liderança, principalmente, em tempos turbulentos como os, atualmente, vividos. A roda da mudança gira cada vez com mais velocidade e a obsolescência de pessoas, empresas, produtos chega cada vez mais veloz. Ninguém está livre nesta corrida maluca que vive a humanidade. Hora de agir!
Foto do topo de Robo Michalec no Pexels.
