E aí, pessoal? Tudo bem? O processo de aumento de taxas juros no mundo todo está em pleno curso. Expectativas de crescimento global sendo revistas para baixo. Como isso pode impactar a nossa vida?
Essa crise é diferente de todas que eu tenha visto ao longo da minha carreira profissional. Nem começamos ainda a sentir reflexos e já temos quedas bem significativas dos valores dos ativos. Bolsas americanas na média com 25% de queda. Bolsa brasileira em dólar voltando a níveis de 2008. Algumas ações já caíram até 90%. O que mais podemos esperar?
A principal função das taxas de juros na economia é o controle da inflação. Os Estados aumentam ou diminuem essas taxas de forma a diminuir ou aumentar a propensão ao consumo das pessoas e empresas. Com taxas altas, esses agentes econômicos tendem a economizar e postergar possíveis consumos, diminuindo a demanda e segurando o nível de preços. Com taxas baixas, ao contrário, as pessoas não vêem valor em adiar o consumo, já que ganham pouco a mais com isso, e, na teoria, estariam mais propensas a gastar imediatamente.
Tivemos no Brasil e no mundo esses dois ciclos (de baixa e de alta dos juros) em intervalo de tempo muito curto. Isso gerou um desbalanceamento dos preços em geral. Olhando especificamente o caso brasileiro, com juros a 2% ao ano, coisa nunca vista antes, a população correu para buscar ativos reais. Preços de imóveis, ações de empresas, tudo que não fosse dinheiro vivo, subiu de preço. Até carro usado teve alta do seu valor de mercado. Com o natural realinhamento das taxas de juros, tivemos uma queda, em maior ou menor escala, desses mercados. Ações caíram em média 30%. Imóveis nem tanto, já que seguem sob influência dos aumentos de preços dos insumos.
A grande diferença da inflação atual para outros momentos inflacionários é, que dessa vez, o grande problema não é o aumento da demanda, mas sim a queda da oferta. As cadeias de produção ainda se ressentem das paralisações ao longo da pandemia. Com isso, a indústria não consegue atingir níveis que satisfaçam toda a procura, seja por falta de matéria-prima, de logística ou qualquer outro motivo. A escassez força preços para cima. Ao longo do tempo, isso tende a ser minimizado. Toda essa readequação já seria um processo doloroso para a economia mundial por si só. E eis que surge uma guerra na Europa, deixando todo o processo ainda mais confuso, com energia e alimentos fortemente impactados. No final, a economia se estabilizará, só não sabemos quando será esse final.
O Banco Central brasileiro parece ter errado no tamanho da queda dos juros e, agora, parece errar novamente no movimento de alta. De que adianta continuar subindo os juros, quando já temos títulos públicos pagando quase 7% ao ano de juros reais? A maior parte da inflação é importada e pouco temos a fazer nesse momento para segurar esses preços. Agora, o correto seria mostrar ao mundo que temos responsabilidade fiscal, segurando as contas públicas. Com certeza veríamos o dólar caindo, o que ajudaria a segurar a inflação. A resposta do governo foi a mesma de outros governos anteriores, que também erraram em ano de eleição. Distribuir grandes quantidades de dinheiro, pressionando ainda mais a inflação. Apagar fogo com gasolina. Os agentes de mercado começam a questionar se o Estado brasileiro será capaz de controlar as suas contas em um horizonte de curto e médio prazo. A partir daí, poderemos ter esse processo que se auto alimenta de queda de expectativas com relação a sustentabilidade da dívida, dúvidas sobre queda da inflação e, no fim das contas, queda do PIB brasileiro.
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