Todos os anos os brasileiros são contemplados com espetáculos provocados pela natureza e mostrados pelas redes de televisão; só em 2022 já foram três eventos significativos do que a mídia convencionou chamar de tragédia, catástrofe. Começou em Petrópolis, passou por várias cidades mineiras e teve seu ponto culminante, com mais de 100 mortos, na capital pernambucana – Recife. Ah! Vale lembrar que o mesmo fenômeno provoca estragos materiais e mortes nas Alagoas e, comumente, em São Paulo.
A mídia até poderia chamar de tragédia ou catástrofe não fossem previsíveis suas consequências. Sabemos que as características climáticas do país o expõem a fenômenos desta natureza; também é de conhecimento mundial o agravamento das condições climáticas fruto do aumento das temperaturas. Em qualquer espaço do planeta e a qualquer momento poderão ocorrer distúrbios climáticos. No momento em que escrevo esta coluna sou informado que inundações acontecem no México, provocadas por um furacão, que as altas temperaturas batem recordes nos Estados Unidos e que a Austrália está recolhendo habitantes de pequenas ilhas em função da elevação do nível dos oceanos – são os primeiros refugiados climáticos. A natureza está respondendo às agressões a que foi e
continua sendo submetida.
Porém, há um aspecto das tragédias que raramente é abordado: a leniência dos poderes constituídos em relação à ocupação dos espaços urbanos. Nos anos 50 do século passado, população em torno de 52 milhões de habitantes e com 80% vivendo em áreas rurais; hoje, somos 210 milhões de habitantes com 85% vivendo em áreas urbanas. O caos era previsível na medida em que as cidades cresceram sem planejamento e a população mais carente foi ocupando os espaços que lhes eram possíveis; áreas de escape dos rios, morros e qualquer espaço passível de ocupação por mais insalubre que fosse. Com ou sem risco a necessidade de ter uma moradia falou mais alto.
A omissão das autoridades, enquanto a tragédia germinava, era visível às pessoas com um pouco de capacidade crítica. Nossas cidades têm dificuldades para implantar seu plano diretor, as discussões, ou descambam para a área ideológica ou para a de interesses comerciais. As revisões demoram anos e as discussões jurídicas se sobrepõem aos interesses da comunidade. Enquanto isto…
A inexistência de planos contingenciais é um fato na maioria de nossos municípios e, é possível, que muitos dos prefeitos nem saibam o que é plano contingencial e, no contraponto de tudo isso o sonho de muitos gestores públicos é impermeabilizar as cidades, se possível, asfaltando toda sua superfície viária. O povo? Que more nas margens dos rios ou em morros que, com certeza, sofrerão com as enchentes e com os deslizamentos de terra.
Os planos habitacionais do governo caminham a passos de tartaruga, as localizações dos conjuntos são cada vez mais nos arrabaldes das cidades, gerando necessidade de deslocamentos enormes e da existência de sistemas de transportes cada vez mais caros. Além de, em muitas cidades, o crime organizado tomar as rédeas destes conjuntos, transformando-os em distribuidores de drogas. Enquanto isto a degradação dos centros das cidades se processa lenta e irreversivelmente.
Só relembrando o que, com certeza, o leitor desta coluna já sabe; 100 milhões de brasileiros não tem acesso a saneamento básico, 35 milhões não têm água encanada em suas casas e 5 milhões de brasileiros, ocupantes de 1,6 milhões de residências, não têm sequer banheiro em suas casas. Isto deveria nos envergonhar!!
Hora de nossos governantes cercarem-se de pessoas competentes e habilitadas no planejamento das cidades, caso contrário as tragédias se repetirão e veremos, com frequência cada vez maior, mais do mesmo.
Imagem de Ajay khadka por Pixabay.
