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Quem canta seus males espanta
22 de Dezembro de 2014

Quem canta seus males espanta

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A corrupção está na capa dos jornais e nos telejornais. Na mídia, no café da manhã, no almoço e no jantar. Nada disso é novidade, nem aqui nem em qualquer lugar do mundo. Nossos maiores problemas são a quantidade e a impunidade.

Para exorcizar alguns males, há várias receitas. Inclusive cantar, porque “quem canta seus males espanta”. Ernesto dos Santos, o Donga, e Mauro de Almeida, autores do que teria sido o primeiro samba gravado no Brasil (Pelo Telefone, 1916), sorrateiramente já denunciavam que “o chefe da polícia pelo telefone mandou me avisar / Que na Carioca tem uma roleta para se jogar”.

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As canções têm dado alento a várias gerações em lutas contra a fome, as injustiças, a opressão ou a falta de liberdade, entre outros temas na pauta dos músicos. Houve época em que não se podia falar abertamente e as mensagens eram sempre subliminares, como em “Cálice”, de Chico Buarque, para denunciar o “cale-se” do regime repressivo.

Hoje é possível falar livremente. As letras tornaram-se mais explícitas, e Cazuza pediu para o país mostrar a cara. “Brasil! Mostra tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim / Brasil! / Qual é o teu negócio? / O nome do teu sócio? / Confia em mim”. Recente delação premiada trouxe à tona alguns dos muitos negócios e seus sócios, sim. Se outras investigações forem levadas adiante, doa a quem doer, é certo que encontrarão corruptos e corruptores em licitações e contratos de empresas e empresários com todos os Três Poderes, nos municípios, nos estados e na União. Como resumiu Bezerra da Silva, “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. Ou, pelo menos, sobram poucos. O grupo de rap Oriente, em protesto, diz que “500 mil políticos, empresários, banqueiros / Não podem controlar 200 milhões de brasileiros”.  É o que se espera, quem sabe, num futuro nem tão distante.

De tanto olharmos para as grandes maracutaias, às vezes esquecemos de listar – e recusar – as pequenas. Afinal, o “jeitinho brasileiro” está no DNA da corrupção. Quantos nunca pediram nota fria ou com valor diferente, atestado médico falso, nunca sonegaram impostos ou furaram filas (inclusive na burocracia das repartições públicas), jamais tentaram subornar o guarda ou usaram o cargo para usufruir vantagens indevidas e tantas e outras maneiras de burlar os códigos e as leis? Quantos são os brasileiros, com boa memória, que podem olhar para o espelho, livres da autoacusação?

A banda Legião Urbana tentou desvendar a alma da nação (cacófato proposital!). “Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação / Que país é esse? / Que país é esse?”

Responda, se você souber.

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