As diversas abordagens que a perspectiva ecológica nos oferece – ambiental, cultural, social, econômica – nos colocam sempre diante de um sério desafio, o de superar a visão parcial e linear, e enveredar por um caminho enredado e portanto complexo.
Queremos todos – idealmente – uma vida saudável, divertida, instigadora, queremos a paz da não-violência e a paz de espírito. Adoraríamos que a humanidade toda pudesse usufruir de boas condições de vida e desenvolvimento humano. E no entanto, esse desejo nos parece distante e inalcançável diante da sua complexidade.
Nos habituamos a colocar objetivamente os problemas e buscar por meio da técnica, modos práticos de resolvê-los. Essa forma de enxergar o mundo como uma maratona cuja finalidade é superar “obstáculos” que a natureza impõe, traduz-se num modo de ser extremamente competitivo e pretensamente “isento” de influências de ordem pessoal.
Nesse modo simplificador e enganoso de pensar e agir, aspectos mais sutis e subjetivos ficam camuflados, uma efervescência de significantes e sensações, um mundo de causas e efeitos complexos que não deixam de acontecer pelo fato de não serem reconhecidos, são desvalorizados e/ou ignorados.
Acontece que afastando tudo o que nos diz respeito como seres sensíveis, falíveis, errantes, igualmente deixamos de lado todas as características que nos tornam seres especialmente amorosos, gentis, colaborativos, criativos e felizes! Desconfiamos de nós mesmos e de todos os outros à medida que em nossa sociedade resta estabelecido que só pode gerar interesse sério e ser objeto do nosso tempo e atenção o que estiver devidamente esterilizado.
Nós humanos não somos assim tão simples, inertes ou isentos, muito menos seres totalmente independentes e autossuficientes. Enxergar o mundo de um modo restritivo implica para o homem abandonar-se a um processo estéril, oposto à sua própria vitalidade. Piores ainda têm sido os efeitos culturais desse afastamento, que vêm nos desumanizando aos poucos, produzindo violência e vazio em escala global.
Como seres vivos que somos, e para podermos agir positivamente diante das nossas crises (que são ao mesmo tempo pessoais, culturais, sociais, ambientais), é preciso nos integrarmos à solução, aceitar a complexidade à qual pertence a nossa natureza. Afinal, todas as nossas mais profundas aspirações como indivíduos providos de sensibilidades, consciência e ética, só encontram eco naquilo que nos faz sentir bem, que nos inspira e anima para o futuro.
Nosso “viver bem” requer de fato que estejamos vivos! Requer que nos percebamos em nossas fragilidades e usemos de nossas competências e habilidades, nossa inteligência e nossas energias para resguardar a vida em todo o seu mistério e complexidade.
