Na Espanha atual nem tudo é crise, sejamos justos. Outro dia topei com uma vitrine que me encheu de alegria e esperança. Aí fiz a fotinho que segue abaixo. Há tempos não via algo tão chamativo e belo na publicidade exterior de Madri. Pra quem tem que se contentar com os chinfrins painéis gigantes da rede de lojas El Corte Inglés, foi um colírio para os zóio:
Trata-se de uma vitrine animada de uma tal de Roca Madrid Gallery. Isso de usar palavrinhas em inglês no meio dos nomes é meio brega, tudo bem, mas na atual situação tá valendo. Bom. Roca é uma marca de materiais sanitários assim com um certo glamour, ou pelo menos com todo o glamour que uma privada ou um bidê podem ter.
A vitrine que me chamou a atenção é um painel de três por dez metros onde se projeta seguidamente um filme bacaninha de quarenta minutos chamado “Rituals”, mostrando, em escala de um pra um, uma seqüência de diferentes rituais que acontecem dentro de um banheiro. Tem a mamãe dando banhinho no neném, o casal de idosos se preparando pra dormir, o molecão dando um tapa no topete, a gatona saindo do banho, o tiozinho fazendo a barba, a fofa se ajeitando pra balada e por aí vai.
Como dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, vou economizar saliva e colocar aqui um trechinho do tal “Rituals”, fisgado do Youtube. Essa que aparece no filminho é a Galeria Roca de Barcelona, onde o painel é interno. Em Madri, o painel funciona como vitrine externa, como pode ser visto na foto que publiquei acima.
Mas nem só de vitrines moderninhas vive o homem. A realidade além dos leds é que a economia espanhola continua em linha descendente. Os noticiários brasileiros devem comentar algo, mas certamente não alguns fatos que só quem mora aqui pode comunicar. Exemplo um: o caminhão de lixo que passava no meu bairro de segunda a sábado começará a circular somente às terças, quintas e sábados, ou seja, dia sim, dia não. A administração do condomínio solicita gentilmente aos moradores que acumulem seus sacos de lixo em casa e que só os levem à rua nos dias em que o caminhão for passar. Uma boa ideia, penso eu, seria juntar todos os sacos de lixo do edifício e enviá-los à porta da casa do senhor Mariano Rajoy, nosso digníssimo mandatário maior. Exemplo 2: o ano letivo aqui começa em setembro. Pois bem. Minha filha mais velha passou todo o mês de setembro e praticamente todo o de outubro sem aulas de música, pois a prefeitura não destinou nenhum professor de música – essa matéria supérflua – à sua escola. E assim caminha a coisa. Esses fatos, que podem parecer detalhes sem grande importância para o brasileiro acostumado a porradas maiores, vão minando pouco a pouco a excelente qualidade de vida que os espanhóis conquistaram a duras penas a partir do final da ditadura.

